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Wagner Moura levou o prêmio de melhor ator pelo filme "O Agente Secreto". Kleber Mendonça Filho conquistou o prêmio de melhor direção pelo mesmo longa.
CANNES - É uma coincidência curiosa que dois dos maiores cineastas brasileiros – Walter Salles e Kleber Mendonça Filho – tenham escolhido o período da ditadura militar para ambientar seus mais recentes filmes. Mas, embora ambos sejam calcados nas memórias de seus diretores, não poderiam ser mais diferentes.
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Ainda Estou Aqui, que ganhou o prêmio de roteiro em Veneza e depois levou o Globo de Ouro de atriz para Fernanda Torres e o inédito Oscar de filme internacional, é ambientado em 1971, quando o ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello) é levado pelos agentes da ditadura militar para nunca mais ser visto, deixando sua mulher, Eunice (Torres), sozinha, desamparada, tendo de criar cinco filhos e protegê-los da dura realidade.
Mas, antes de o pesadelo se instaurar naquela casa, ela era aberta para as festas, para os amigos, para a vida. As memórias daquela casa antes da perda do pai são as de Walter Salles, que frequentou a família Paiva naquele período. São memórias solares, vívidas, que dão vontade de morar nelas. Até que elas desaparecem, as portas, janelas e cortinas se fecham, e o diretor precisa imaginar o terror que ocupou aqueles espaços antes tão cheios de cor, risadas e vida.
No caso de O Agente Secreto, que levou os prêmios de melhor ator (Wagner Moura) e direção (Kleber Mendonça Filho) em Cannes, é diferente: 1977 é o primeiro ano de que Kleber Mendonça Filho se lembra. Ele ainda era criança, tinha 9 anos de idade. Também é um período diferente da ditadura. As pessoas estavam cansadas, o próprio regime estava mais desarticulado, embora seu peso estivesse instalado na sociedade.
O Agente Secreto não fala diretamente da ditadura, mas capta, porém, a atmosfera paranoica, atordoante.
É nesse contexto que vive Marcelo, o personagem de Wagner Moura, um especialista em tecnologia que foge em direção ao Nordeste, especificamente ao Recife, onde chega em plena semana de Carnaval. Sua esperança é se reencontrar com o filho, que vive com os avós. Lá, ele tem proteção de Elza (Maria Fernanda Cândido) e conhece outras pessoas no condomínio onde vai morar, como Tereza Victoria (Isabél Zuaa) e Claudia (Hermila Guedes).
A trama de ‘O Agente Secreto’
O tom é diferente, mas, como em Bacurau, é difícil descrever a trama, não só pelo risco de spoilers.
A história vem tão cheia de texturas, detalhes, camadas que não faz muito sentido detalhar.
O cinema proposto por Kleber Mendonça Filho aqui é uma experiência, um mergulho, um compartilhamento de memórias que têm um ar de sonho – ou pesadelo.
Ele transfere para a tela um caos que é dessa época em que os controles da ditadura já davam sinais de cansaço, ao mesmo tempo que tinham se instalado definitivamente na sociedade de outras formas, mas também das memórias de uma criança, de certa maneira, para quem nem tudo faz sentido. E de um país em que o absurdo está presente no dia a dia.
É um filme que praticamente exige ser visto mais de uma vez para captar esses detalhes.
A estreia de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto tão próximos um do outro prova que há muitas histórias sobre esse período para serem contadas. Histórias que podem parecer estar no passado, mas que se refletem no presente e por isso são fundamentais de lembrar.
Quando ‘O Agente Secreto’ estreia no cinema no Brasil
Ainda não há previsão de estreia do filme no circuito comercial.
Entrevista coletiva de ‘O Agente Secreto’ em Cannes
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Diretor e elenco de 'O Agente Secreto' participaram de entrevista coletiva em Cannes