Opinião|Cinebiografia ‘Oscar bait’ de Bob Dylan é retrato raso e comercial sobre uma figura indecifrável


Filme dirigido por James Mangold e estrelado por Timotheé Chalamet chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 27; leia crítica

Por Gabriel Zorzetto

Filmes como Um Completo Desconhecido são conhecidos na comunidade cinematográfica como ‘Oscar baits’ (em tradução livre, ‘iscas para o Oscar’), termo usado para designar projetos que parecem ter sido produzidos com o único propósito de receber indicações ao prêmio da Academia. Eles geralmente são lançados pouco antes da temporada de premiações e, muitas vezes, contam histórias de grandes personalidades do mundo real interpretadas pelo ator do momento, quase sempre de maneira ortodoxa e superficial.

É o caso da nova cinebiografia de Bob Dylan, que estreia no Brasil nesta quinta-feira, 27, e está indicada a 8 categorias no Oscar 2025. Não por acaso, desde que foi anunciado como o intérprete do icônico roqueiro, há alguns anos, Timotheé Chalamet passou a ser cotado como favorito a todos os troféus imagináveis mesmo antes de uma única cena do longa-metragem ter sido gravada.

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'Um Completo Desconhecido' é inspirado no livro 'Dylan Goes Electric!', de Elijah Wald Foto: Divulgação/Searchlight Pictures

A onda das cinebiografias musicais virou febre em Hollywood. Queen, Elvis Presley, Amy Winehouse, Bob Marley, Elton John, entre outros, foram alvos recentes. E mais produções desse tipo virão – sobre Michael Jackson e os Beatles, por exemplo. É fácil entender o sucesso do formato: basta oferecer uma oportunidade para os fãs nostálgicos se emocionarem com os velhos tempos enquanto escutam as trilhas sonoras que embalaram suas vidas. Logo, nesse bailão da saudade audiovisual, fica em segundo plano prestar atenção se o filme é bem escrito, inovador ou relevante.

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E assim caminha o novo trabalho de James Mangold, um diretor competente, mas cujas preocupações estão relacionadas a resultados comerciais. Ele é contratado pelos grandes estúdios (no caso, a Disney), primariamente, para trazer lucros. Isso não deu certo com Indiana Jones e o Chamado do Destino (2023), sequência dispensável do histórico personagem, mas deu com Ford vs Ferrari (2019), sobre corrida das 24 Horas de Le Mans de 1966; com Logan (2017), drama de herói da Marvel; e com Johnny & June (2005), boa cinebiografia de Johnny Cash, personagem que volta a ser explorado nesta trama dylanesca na pele de Boyd Holbrook.

É claro que o alto investimento da Searchlight Pictures (do grupo Disney) – cerca de US$ 65 milhões – proporcionou ao cineasta a oportunidade de escalar um elenco de peso e dar um requintado suporte visual ao roteiro inspirado no livro Dylan Goes Electric!, de Elijah Wald. Mas isso não foi o suficiente para conceber uma obra respeitável.

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Fica inevitável não fazer comparações com o brilhante Não Estou Lá (2007), no qual o diretor Todd Haynes, ao invés de seguir uma estrutura biográfica linear, optou por desdobrar Dylan por meio de seis personagens, cada um representando diferentes facetas de sua vida e arte, com atuações inesquecíveis de Cate Blanchett, Richard Gere, Christian Bale, entre outros. Essa abordagem fragmentada e ousada refletiu a complexidade do artista, cuja capacidade de reinvenção sempre foi admirável.

Basicamente, a primeira parte de Um Completo Desconhecido retrata o ano de 1961, com Robert Zimmerman (seu nome de batismo) chegando à Nova York para encontrar seu ídolo folk Woody Guthrie (1912-1967), que recebeu a visita do compositor de Blowin’ In The Wind no hospital quando uma severa doença degenerativa já lhe afetava. Interpretado por Scoot McNairy, trata-se de uma figura fundamental na trajetória de Bob, assim como Pete Seeger, pioneiro da música de protesto nos EUA e aqui encarnado por Edward Norton.

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O diretor James Mangold e Timothée Chalamet no set de 'Um Completo Desconhecido' Foto: Macall Polay/Searchlight Pictures/Divulgação

A metade final, centrada em 1965, mostra o show mais importante da carreira do astro, quando ele foi vaiado por fazer a transição do folk para o rock n’ roll no palco do Newport Folk Festival. Tudo acontece de forma abrupta, simplista e sem o menor encanto, mesmo com todos aqueles temas maravilhosos – It Ain’t Me Babe, Maggie’s Farm, Like a Rolling Stone – sendo reproduzidos.

É surpreendente que as atuações estejam sendo elogiadas e reconhecidas. Chalamet não oferece nada além de uma imitação surpreendente da voz cantada e falada de Dylan, acompanhada de um sociopático olhar de baixo para cima. O rapaz, aliás, continua emulando o bardo em entrevistas que têm concedido, seja nas vestimentas ou no tom de fala anasalado. Norton, Holbrook e Monica Barbaro (como Joan Baez), apesar de esforçados, também adotam a linha da imitação.

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Assim como Não Estou Lá, Um Completo Desconhecido celebra a aura indecifrável de Dylan, mas enquanto o primeiro o torna uma entidade imensa, o segundo o ilustra de maneira pequena e esquecível. Além disso, os documentários de Martin ScorseseRolling Thunder Revue (2019) e No Direction Home (2005) – e vários outros livros sobre o trovador já investigaram tudo que era necessário, tornando a empreitada de Mangold nada menos que rasa e supérflua.

Filmes como Um Completo Desconhecido são conhecidos na comunidade cinematográfica como ‘Oscar baits’ (em tradução livre, ‘iscas para o Oscar’), termo usado para designar projetos que parecem ter sido produzidos com o único propósito de receber indicações ao prêmio da Academia. Eles geralmente são lançados pouco antes da temporada de premiações e, muitas vezes, contam histórias de grandes personalidades do mundo real interpretadas pelo ator do momento, quase sempre de maneira ortodoxa e superficial.

É o caso da nova cinebiografia de Bob Dylan, que estreia no Brasil nesta quinta-feira, 27, e está indicada a 8 categorias no Oscar 2025. Não por acaso, desde que foi anunciado como o intérprete do icônico roqueiro, há alguns anos, Timotheé Chalamet passou a ser cotado como favorito a todos os troféus imagináveis mesmo antes de uma única cena do longa-metragem ter sido gravada.

'Um Completo Desconhecido' é inspirado no livro 'Dylan Goes Electric!', de Elijah Wald Foto: Divulgação/Searchlight Pictures

A onda das cinebiografias musicais virou febre em Hollywood. Queen, Elvis Presley, Amy Winehouse, Bob Marley, Elton John, entre outros, foram alvos recentes. E mais produções desse tipo virão – sobre Michael Jackson e os Beatles, por exemplo. É fácil entender o sucesso do formato: basta oferecer uma oportunidade para os fãs nostálgicos se emocionarem com os velhos tempos enquanto escutam as trilhas sonoras que embalaram suas vidas. Logo, nesse bailão da saudade audiovisual, fica em segundo plano prestar atenção se o filme é bem escrito, inovador ou relevante.

E assim caminha o novo trabalho de James Mangold, um diretor competente, mas cujas preocupações estão relacionadas a resultados comerciais. Ele é contratado pelos grandes estúdios (no caso, a Disney), primariamente, para trazer lucros. Isso não deu certo com Indiana Jones e o Chamado do Destino (2023), sequência dispensável do histórico personagem, mas deu com Ford vs Ferrari (2019), sobre corrida das 24 Horas de Le Mans de 1966; com Logan (2017), drama de herói da Marvel; e com Johnny & June (2005), boa cinebiografia de Johnny Cash, personagem que volta a ser explorado nesta trama dylanesca na pele de Boyd Holbrook.

É claro que o alto investimento da Searchlight Pictures (do grupo Disney) – cerca de US$ 65 milhões – proporcionou ao cineasta a oportunidade de escalar um elenco de peso e dar um requintado suporte visual ao roteiro inspirado no livro Dylan Goes Electric!, de Elijah Wald. Mas isso não foi o suficiente para conceber uma obra respeitável.

Fica inevitável não fazer comparações com o brilhante Não Estou Lá (2007), no qual o diretor Todd Haynes, ao invés de seguir uma estrutura biográfica linear, optou por desdobrar Dylan por meio de seis personagens, cada um representando diferentes facetas de sua vida e arte, com atuações inesquecíveis de Cate Blanchett, Richard Gere, Christian Bale, entre outros. Essa abordagem fragmentada e ousada refletiu a complexidade do artista, cuja capacidade de reinvenção sempre foi admirável.

Basicamente, a primeira parte de Um Completo Desconhecido retrata o ano de 1961, com Robert Zimmerman (seu nome de batismo) chegando à Nova York para encontrar seu ídolo folk Woody Guthrie (1912-1967), que recebeu a visita do compositor de Blowin’ In The Wind no hospital quando uma severa doença degenerativa já lhe afetava. Interpretado por Scoot McNairy, trata-se de uma figura fundamental na trajetória de Bob, assim como Pete Seeger, pioneiro da música de protesto nos EUA e aqui encarnado por Edward Norton.

O diretor James Mangold e Timothée Chalamet no set de 'Um Completo Desconhecido' Foto: Macall Polay/Searchlight Pictures/Divulgação

A metade final, centrada em 1965, mostra o show mais importante da carreira do astro, quando ele foi vaiado por fazer a transição do folk para o rock n’ roll no palco do Newport Folk Festival. Tudo acontece de forma abrupta, simplista e sem o menor encanto, mesmo com todos aqueles temas maravilhosos – It Ain’t Me Babe, Maggie’s Farm, Like a Rolling Stone – sendo reproduzidos.

É surpreendente que as atuações estejam sendo elogiadas e reconhecidas. Chalamet não oferece nada além de uma imitação surpreendente da voz cantada e falada de Dylan, acompanhada de um sociopático olhar de baixo para cima. O rapaz, aliás, continua emulando o bardo em entrevistas que têm concedido, seja nas vestimentas ou no tom de fala anasalado. Norton, Holbrook e Monica Barbaro (como Joan Baez), apesar de esforçados, também adotam a linha da imitação.

Assim como Não Estou Lá, Um Completo Desconhecido celebra a aura indecifrável de Dylan, mas enquanto o primeiro o torna uma entidade imensa, o segundo o ilustra de maneira pequena e esquecível. Além disso, os documentários de Martin ScorseseRolling Thunder Revue (2019) e No Direction Home (2005) – e vários outros livros sobre o trovador já investigaram tudo que era necessário, tornando a empreitada de Mangold nada menos que rasa e supérflua.

Filmes como Um Completo Desconhecido são conhecidos na comunidade cinematográfica como ‘Oscar baits’ (em tradução livre, ‘iscas para o Oscar’), termo usado para designar projetos que parecem ter sido produzidos com o único propósito de receber indicações ao prêmio da Academia. Eles geralmente são lançados pouco antes da temporada de premiações e, muitas vezes, contam histórias de grandes personalidades do mundo real interpretadas pelo ator do momento, quase sempre de maneira ortodoxa e superficial.

É o caso da nova cinebiografia de Bob Dylan, que estreia no Brasil nesta quinta-feira, 27, e está indicada a 8 categorias no Oscar 2025. Não por acaso, desde que foi anunciado como o intérprete do icônico roqueiro, há alguns anos, Timotheé Chalamet passou a ser cotado como favorito a todos os troféus imagináveis mesmo antes de uma única cena do longa-metragem ter sido gravada.

'Um Completo Desconhecido' é inspirado no livro 'Dylan Goes Electric!', de Elijah Wald Foto: Divulgação/Searchlight Pictures

A onda das cinebiografias musicais virou febre em Hollywood. Queen, Elvis Presley, Amy Winehouse, Bob Marley, Elton John, entre outros, foram alvos recentes. E mais produções desse tipo virão – sobre Michael Jackson e os Beatles, por exemplo. É fácil entender o sucesso do formato: basta oferecer uma oportunidade para os fãs nostálgicos se emocionarem com os velhos tempos enquanto escutam as trilhas sonoras que embalaram suas vidas. Logo, nesse bailão da saudade audiovisual, fica em segundo plano prestar atenção se o filme é bem escrito, inovador ou relevante.

E assim caminha o novo trabalho de James Mangold, um diretor competente, mas cujas preocupações estão relacionadas a resultados comerciais. Ele é contratado pelos grandes estúdios (no caso, a Disney), primariamente, para trazer lucros. Isso não deu certo com Indiana Jones e o Chamado do Destino (2023), sequência dispensável do histórico personagem, mas deu com Ford vs Ferrari (2019), sobre corrida das 24 Horas de Le Mans de 1966; com Logan (2017), drama de herói da Marvel; e com Johnny & June (2005), boa cinebiografia de Johnny Cash, personagem que volta a ser explorado nesta trama dylanesca na pele de Boyd Holbrook.

É claro que o alto investimento da Searchlight Pictures (do grupo Disney) – cerca de US$ 65 milhões – proporcionou ao cineasta a oportunidade de escalar um elenco de peso e dar um requintado suporte visual ao roteiro inspirado no livro Dylan Goes Electric!, de Elijah Wald. Mas isso não foi o suficiente para conceber uma obra respeitável.

Fica inevitável não fazer comparações com o brilhante Não Estou Lá (2007), no qual o diretor Todd Haynes, ao invés de seguir uma estrutura biográfica linear, optou por desdobrar Dylan por meio de seis personagens, cada um representando diferentes facetas de sua vida e arte, com atuações inesquecíveis de Cate Blanchett, Richard Gere, Christian Bale, entre outros. Essa abordagem fragmentada e ousada refletiu a complexidade do artista, cuja capacidade de reinvenção sempre foi admirável.

Basicamente, a primeira parte de Um Completo Desconhecido retrata o ano de 1961, com Robert Zimmerman (seu nome de batismo) chegando à Nova York para encontrar seu ídolo folk Woody Guthrie (1912-1967), que recebeu a visita do compositor de Blowin’ In The Wind no hospital quando uma severa doença degenerativa já lhe afetava. Interpretado por Scoot McNairy, trata-se de uma figura fundamental na trajetória de Bob, assim como Pete Seeger, pioneiro da música de protesto nos EUA e aqui encarnado por Edward Norton.

O diretor James Mangold e Timothée Chalamet no set de 'Um Completo Desconhecido' Foto: Macall Polay/Searchlight Pictures/Divulgação

A metade final, centrada em 1965, mostra o show mais importante da carreira do astro, quando ele foi vaiado por fazer a transição do folk para o rock n’ roll no palco do Newport Folk Festival. Tudo acontece de forma abrupta, simplista e sem o menor encanto, mesmo com todos aqueles temas maravilhosos – It Ain’t Me Babe, Maggie’s Farm, Like a Rolling Stone – sendo reproduzidos.

É surpreendente que as atuações estejam sendo elogiadas e reconhecidas. Chalamet não oferece nada além de uma imitação surpreendente da voz cantada e falada de Dylan, acompanhada de um sociopático olhar de baixo para cima. O rapaz, aliás, continua emulando o bardo em entrevistas que têm concedido, seja nas vestimentas ou no tom de fala anasalado. Norton, Holbrook e Monica Barbaro (como Joan Baez), apesar de esforçados, também adotam a linha da imitação.

Assim como Não Estou Lá, Um Completo Desconhecido celebra a aura indecifrável de Dylan, mas enquanto o primeiro o torna uma entidade imensa, o segundo o ilustra de maneira pequena e esquecível. Além disso, os documentários de Martin ScorseseRolling Thunder Revue (2019) e No Direction Home (2005) – e vários outros livros sobre o trovador já investigaram tudo que era necessário, tornando a empreitada de Mangold nada menos que rasa e supérflua.

Opinião por Gabriel Zorzetto

Repórter de Cultura do Estadão

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