Funk ‘retrô’ feito com IA viraliza e resgata som dos anos 1980 para geração Z: ‘Combo perfeito’


Jovem por trás da Blow Records, que faz as faixas, tem apenas 22 anos e gasta cerca de R$ 1 mil por mês para produzi-las. ‘O segredo é quem vai extrair o melhor dessas ferramentas. Não é qualquer um que consegue’, diz

Por Julia Queiroz

Em um vídeo que circula no TikTok, um homem veste calça colorida boca de sino, uma camisa aberta e dança ao lado de quatro mulheres na praia. A cena poderia ser confundida com o clipe de uma música qualquer mais antiga, com uma batida disco daquelas que embalavam as pistas das discotecas, boates, danceterias... Mas se você parar para prestar atenção na letra, verá que tem algo fora do lugar. Ouça:

A letra é de Popotão Grandão, lançada por MC Neguinho do ITRE em 2018.

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A nova música, que usa esta letra de 2018 e a nova melodia com ares retrô, se chama Popotão Grandão (1982).

O vídeo e também a música, como se pode imaginar, foram feitos a partir de ferramentas de inteligência artificial generativa. Na mais jovem das redes sociais, o TikTok, ele soma 1,5 milhão de visualizações. Isso sem contar que a música foi usada como base para mais de 38 mil publicações.

O perfil responsável pela criação chama-se Blow Records, um projeto musical realizado pelo publicitário Raul Vinicius, paulistano de 22 anos. Nas últimas semanas, músicas criadas pelo jovem com o uso da IA têm viralizado de forma exponencial nas plataformas digitais, misturando letras de funk com ritmos característicos dos anos 1960, 1970 e 1980.

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As canções também estão nas plataformas digitais. No Spotify, Popotão Grandão (1982) soma 1,7 milhão de reproduções. Outro sucesso é Predador de Perereca, que adapta a música de MC Jhey, com 1,8 milhão. Já no TikTok, o áudio da canção foi usado em 80 mil vídeos e aparece no Top 50 Viral do Brasil, na 3ª posição. Os vídeos que usam o “funk retrô” são variados: dancinhas, memes, trends virais, e por aí vai.

Rosto do funkeiro Mc Jhey reproduzido com ferramentas de inteligência artificial incorporando elementos estéticos dos anos 1970 e 1980. A imagem foi feita por Raul Vinicius, dono do projeto Blow Records, que transforma funk em canções 'antigas' por meio da IA. Foto: Blow Records/Feita com IA

“Acho que faz sucesso justamente pela nostalgia”, diz Raul Vinicius. “Fora a questão do inusitado: você pega gêneros superconsolidados, letras mais recentes, atuais - ou às vezes até superquestionadas - e une uma coisa com a outra. Isso te possibilita esse cenário inusitado. Acho que esse é o combo perfeito.”

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O projeto, contudo, não começou com o funk. Raul, fã de trap americano, teve a inspiração em 2023 depois de escutar a música BBL Drizzy, uma diss track (como é chamada uma canção que faz ataques a outros artista) contra Drake, elaborada pelo produtor americano Metro Boomin.

A música também fazia uso de IA, gerando uma voz artificial cantando por cima de um ritmo soul. “Foi ali que eu comecei a me interessar mais por música e por essa questão de música com IA. Essa ferramenta é superpoderosa. Comecei a me aprofundar mais e foi quando fiz as primeiras versões.”

Raul lançou versões oitentistas de canções de trap brasileiro, como Alma, de TZ da Coronel, e Rei Lacoste, de MD Chefe e Dom Laike. “Teve até uma do TZ da Coronel, que é Não Faz Isso Cmg Não, que virou uma trend no TikTok. Só que na proporção de hoje, foi mais com funk, realmente”, explica ele.

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O ponto de virada, para Raul, foi o lançamento de Casa dos Machos (1979), versão retrô da música homônima da cantora Pocah. A funkeira postou a música em seu perfil em uma rede social. “Virou uma trend supergrande, ‘bateu’ milhões, ela compartilhou. Outras pessoas super influentes na internet compartilharam”, lembra. “A Blow ganhou mais de 80 mil seguidores nos últimos meses.”

Já dá retorno financeiro?

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Segundo Raul, ele já produziu entre 250 e 300 músicas com a ajuda da IA. O jovem gasta em média 1h30 para produzir uma canção, sem contar a geração do vídeo, mas algumas versões “mais complicadas” demandam mais tempo. Por mês, ele gasta cerca de R$ 1 mil apenas com as ferramentas de inteligência utilizadas para criar a faixa.

E já dá retorno? “O que eu ganho mais é para manter o projeto mesmo. O que dá para tirar das plataformas de streaming, por exemplo, não é algo que mudou minha vida, não. Dá para tirar alguma coisa ali, mas mais para manter”, afirma. No Spotify, a Blow Records tem 853 mil ouvintes mensais. No YouTube, são 18 milhões de visualizações.

Nas plataformas oficiais, Raul divide os royalties - pagamento feito pelo uso de propriedade intelectual - com os artistas e gravadoras das músicas originais. No streaming, o nome dos funkeiros costuma aparece ao lado do nome da Blow Records, como se fosse uma parceria.

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“Se você entrar no YouTube, que tem as versões completas, lá tem tudo certinho: o nome do artista e da música original, explicando que é uma obra recriada. Sempre tentando ser transparente, inclusive mencionando a IA. Quando eu vou comercializar essas músicas, por exemplo, no Spotify ou Deezer, aí entro em contato com o artista”, diz Raul.

O jovem diz que essa é uma parte burocrática do trabalho, principalmente quando envolve editoras (empresas responsáveis por gerenciar a obra dos artistas), mas que não teve nenhum problema com direitos autorais até o momento. Ele afirma também que alguns artistas já entraram em contato direto com ele para pedir uma versão retrô de suas músicas, apesar de preferir não citar nomes.

“Querendo ou não, é super inusitado, é algo novo, diferente, interessante. Movimenta também o nome dos artistas, já que viraliza fácil. Sempre os nomes deles estão ali na internet”, argumenta.

O trabalho já atraiu alguns admiradores ilustres: Mano Brown, por exemplo, segue a Bloow Records no Instagram há cerca de sete meses. “Acho que, em questão de levar o projeto a sério mesmo, foi aí, quando eu vi que ele seguiu.”

Como é feito?

Raul prefere não revelar quais ferramentas e modelos de IA usa na criação das faixas. “O que posso dizer é que não é algo automatizado, tem interferência humana, exige um trabalho ali por trás. Não é tão simples. As ferramentas estão aí todas no mercado e qualquer um pode usar. O segredo é quem vai extrair o melhor dessas ferramentas. Não é qualquer um que consegue”, afirma.

Ele diz manter uma playlist com artistas que usa como referência e inspiração, mas nega usar o nome de cantores específicos nos prompts, ou seja, na instrução enviada à IA para gerar a música.

“Quando estou estudando uma música, um funk recente, por exemplo, penso se ficaria melhor no disco, em um soul mais calmo. Eu meio que interpreto a música, analiso a métrica dela, vejo a letra. Então, encaixo tudo isso. Claro que vou fazendo testes e depois uma curadoria”, explica.

Raul Vinicius, de 22 anos, é o idealizador do projeto Blow Records, que faz o funk 'retrô' por meio de IA. Foto: Raul Vinicius/Arquivo Pessoal

Hoje, a Blow Records ocupa 70% da rotina de Raul, mas seu objetivo é profissionalizar cada vez o próprio trabalho. Ele afirma que o objetivo não é ganhar fama - quase não mostra o rosto nas redes e usa o logo da Blow Records para todas as divulgações. Mas acredita que o projeto tem um “potencial gigantesco”.

“Quero que se expanda mesmo para outros gêneros também. Eu sou super aberto a fazer diferentes coisas novas. Colaborar cada vez mais com os artistas e tornar um projeto de referência mostrando como a IA é poderosa, principalmente no meio da música. Quero ajudar de alguma forma todo mundo. É um projeto que está aí pra somar”, finaliza.

Músicas com IA

Músicas feitas a partir de inteligência artificial não são novidade e já têm gerado debate na indústria. No início deste mês, a banda The Velvet Sundown chamou a atenção nas redes sociais ao confirmar que suas canções foram criadas a partir das ferramentas de IA.

O projeto já tinha mais de 1,1 milhão de ouvintes mensais, além de 37 mil seguidores. E mais: São Paulo ocupava o topo do ranking entre as cidades com mais fãs do grupo, com mais de 15 mil ouvintes até então.

“Todos os personagens, histórias, músicas, vozes e letras são criações originais geradas com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial empregadas como instrumentos criativos”, diz a bio do projeto, que não revelou quem está por trás das criações.

Em maio, o fundador e diretor executivo do Spotify, Daniel Ek, se disse otimista e muito entusiasmado com as possibilidades da inteligência artificial, “porque estamos apenas começando a entender este futuro da criatividade”.

“Queremos que seres humanos reais tenham sucesso como artistas e criadores, mas o que acontecerá com a criatividade no futuro com a IA? Não sei. O que é música?”, argumentou durante uma apresentação à imprensa, segundo a AFP.

Por outro lado, produtores musicais e analistas argumentam que, em um universo já saturado, com milhões de músicas sendo lançadas nas plataformas digitais todos os dias, a IA é capaz de tornar o setor ainda mais precário para pequenos artistas. Saiba mais sobre a discussão aqui.

Em um vídeo que circula no TikTok, um homem veste calça colorida boca de sino, uma camisa aberta e dança ao lado de quatro mulheres na praia. A cena poderia ser confundida com o clipe de uma música qualquer mais antiga, com uma batida disco daquelas que embalavam as pistas das discotecas, boates, danceterias... Mas se você parar para prestar atenção na letra, verá que tem algo fora do lugar. Ouça:

A letra é de Popotão Grandão, lançada por MC Neguinho do ITRE em 2018.

A nova música, que usa esta letra de 2018 e a nova melodia com ares retrô, se chama Popotão Grandão (1982).

O vídeo e também a música, como se pode imaginar, foram feitos a partir de ferramentas de inteligência artificial generativa. Na mais jovem das redes sociais, o TikTok, ele soma 1,5 milhão de visualizações. Isso sem contar que a música foi usada como base para mais de 38 mil publicações.

O perfil responsável pela criação chama-se Blow Records, um projeto musical realizado pelo publicitário Raul Vinicius, paulistano de 22 anos. Nas últimas semanas, músicas criadas pelo jovem com o uso da IA têm viralizado de forma exponencial nas plataformas digitais, misturando letras de funk com ritmos característicos dos anos 1960, 1970 e 1980.

As canções também estão nas plataformas digitais. No Spotify, Popotão Grandão (1982) soma 1,7 milhão de reproduções. Outro sucesso é Predador de Perereca, que adapta a música de MC Jhey, com 1,8 milhão. Já no TikTok, o áudio da canção foi usado em 80 mil vídeos e aparece no Top 50 Viral do Brasil, na 3ª posição. Os vídeos que usam o “funk retrô” são variados: dancinhas, memes, trends virais, e por aí vai.

Rosto do funkeiro Mc Jhey reproduzido com ferramentas de inteligência artificial incorporando elementos estéticos dos anos 1970 e 1980. A imagem foi feita por Raul Vinicius, dono do projeto Blow Records, que transforma funk em canções 'antigas' por meio da IA. Foto: Blow Records/Feita com IA

“Acho que faz sucesso justamente pela nostalgia”, diz Raul Vinicius. “Fora a questão do inusitado: você pega gêneros superconsolidados, letras mais recentes, atuais - ou às vezes até superquestionadas - e une uma coisa com a outra. Isso te possibilita esse cenário inusitado. Acho que esse é o combo perfeito.”

O projeto, contudo, não começou com o funk. Raul, fã de trap americano, teve a inspiração em 2023 depois de escutar a música BBL Drizzy, uma diss track (como é chamada uma canção que faz ataques a outros artista) contra Drake, elaborada pelo produtor americano Metro Boomin.

A música também fazia uso de IA, gerando uma voz artificial cantando por cima de um ritmo soul. “Foi ali que eu comecei a me interessar mais por música e por essa questão de música com IA. Essa ferramenta é superpoderosa. Comecei a me aprofundar mais e foi quando fiz as primeiras versões.”

Raul lançou versões oitentistas de canções de trap brasileiro, como Alma, de TZ da Coronel, e Rei Lacoste, de MD Chefe e Dom Laike. “Teve até uma do TZ da Coronel, que é Não Faz Isso Cmg Não, que virou uma trend no TikTok. Só que na proporção de hoje, foi mais com funk, realmente”, explica ele.

O ponto de virada, para Raul, foi o lançamento de Casa dos Machos (1979), versão retrô da música homônima da cantora Pocah. A funkeira postou a música em seu perfil em uma rede social. “Virou uma trend supergrande, ‘bateu’ milhões, ela compartilhou. Outras pessoas super influentes na internet compartilharam”, lembra. “A Blow ganhou mais de 80 mil seguidores nos últimos meses.”

Já dá retorno financeiro?

Segundo Raul, ele já produziu entre 250 e 300 músicas com a ajuda da IA. O jovem gasta em média 1h30 para produzir uma canção, sem contar a geração do vídeo, mas algumas versões “mais complicadas” demandam mais tempo. Por mês, ele gasta cerca de R$ 1 mil apenas com as ferramentas de inteligência utilizadas para criar a faixa.

E já dá retorno? “O que eu ganho mais é para manter o projeto mesmo. O que dá para tirar das plataformas de streaming, por exemplo, não é algo que mudou minha vida, não. Dá para tirar alguma coisa ali, mas mais para manter”, afirma. No Spotify, a Blow Records tem 853 mil ouvintes mensais. No YouTube, são 18 milhões de visualizações.

Nas plataformas oficiais, Raul divide os royalties - pagamento feito pelo uso de propriedade intelectual - com os artistas e gravadoras das músicas originais. No streaming, o nome dos funkeiros costuma aparece ao lado do nome da Blow Records, como se fosse uma parceria.

“Se você entrar no YouTube, que tem as versões completas, lá tem tudo certinho: o nome do artista e da música original, explicando que é uma obra recriada. Sempre tentando ser transparente, inclusive mencionando a IA. Quando eu vou comercializar essas músicas, por exemplo, no Spotify ou Deezer, aí entro em contato com o artista”, diz Raul.

O jovem diz que essa é uma parte burocrática do trabalho, principalmente quando envolve editoras (empresas responsáveis por gerenciar a obra dos artistas), mas que não teve nenhum problema com direitos autorais até o momento. Ele afirma também que alguns artistas já entraram em contato direto com ele para pedir uma versão retrô de suas músicas, apesar de preferir não citar nomes.

“Querendo ou não, é super inusitado, é algo novo, diferente, interessante. Movimenta também o nome dos artistas, já que viraliza fácil. Sempre os nomes deles estão ali na internet”, argumenta.

O trabalho já atraiu alguns admiradores ilustres: Mano Brown, por exemplo, segue a Bloow Records no Instagram há cerca de sete meses. “Acho que, em questão de levar o projeto a sério mesmo, foi aí, quando eu vi que ele seguiu.”

Como é feito?

Raul prefere não revelar quais ferramentas e modelos de IA usa na criação das faixas. “O que posso dizer é que não é algo automatizado, tem interferência humana, exige um trabalho ali por trás. Não é tão simples. As ferramentas estão aí todas no mercado e qualquer um pode usar. O segredo é quem vai extrair o melhor dessas ferramentas. Não é qualquer um que consegue”, afirma.

Ele diz manter uma playlist com artistas que usa como referência e inspiração, mas nega usar o nome de cantores específicos nos prompts, ou seja, na instrução enviada à IA para gerar a música.

“Quando estou estudando uma música, um funk recente, por exemplo, penso se ficaria melhor no disco, em um soul mais calmo. Eu meio que interpreto a música, analiso a métrica dela, vejo a letra. Então, encaixo tudo isso. Claro que vou fazendo testes e depois uma curadoria”, explica.

Raul Vinicius, de 22 anos, é o idealizador do projeto Blow Records, que faz o funk 'retrô' por meio de IA. Foto: Raul Vinicius/Arquivo Pessoal

Hoje, a Blow Records ocupa 70% da rotina de Raul, mas seu objetivo é profissionalizar cada vez o próprio trabalho. Ele afirma que o objetivo não é ganhar fama - quase não mostra o rosto nas redes e usa o logo da Blow Records para todas as divulgações. Mas acredita que o projeto tem um “potencial gigantesco”.

“Quero que se expanda mesmo para outros gêneros também. Eu sou super aberto a fazer diferentes coisas novas. Colaborar cada vez mais com os artistas e tornar um projeto de referência mostrando como a IA é poderosa, principalmente no meio da música. Quero ajudar de alguma forma todo mundo. É um projeto que está aí pra somar”, finaliza.

Músicas com IA

Músicas feitas a partir de inteligência artificial não são novidade e já têm gerado debate na indústria. No início deste mês, a banda The Velvet Sundown chamou a atenção nas redes sociais ao confirmar que suas canções foram criadas a partir das ferramentas de IA.

O projeto já tinha mais de 1,1 milhão de ouvintes mensais, além de 37 mil seguidores. E mais: São Paulo ocupava o topo do ranking entre as cidades com mais fãs do grupo, com mais de 15 mil ouvintes até então.

“Todos os personagens, histórias, músicas, vozes e letras são criações originais geradas com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial empregadas como instrumentos criativos”, diz a bio do projeto, que não revelou quem está por trás das criações.

Em maio, o fundador e diretor executivo do Spotify, Daniel Ek, se disse otimista e muito entusiasmado com as possibilidades da inteligência artificial, “porque estamos apenas começando a entender este futuro da criatividade”.

“Queremos que seres humanos reais tenham sucesso como artistas e criadores, mas o que acontecerá com a criatividade no futuro com a IA? Não sei. O que é música?”, argumentou durante uma apresentação à imprensa, segundo a AFP.

Por outro lado, produtores musicais e analistas argumentam que, em um universo já saturado, com milhões de músicas sendo lançadas nas plataformas digitais todos os dias, a IA é capaz de tornar o setor ainda mais precário para pequenos artistas. Saiba mais sobre a discussão aqui.

Em um vídeo que circula no TikTok, um homem veste calça colorida boca de sino, uma camisa aberta e dança ao lado de quatro mulheres na praia. A cena poderia ser confundida com o clipe de uma música qualquer mais antiga, com uma batida disco daquelas que embalavam as pistas das discotecas, boates, danceterias... Mas se você parar para prestar atenção na letra, verá que tem algo fora do lugar. Ouça:

A letra é de Popotão Grandão, lançada por MC Neguinho do ITRE em 2018.

A nova música, que usa esta letra de 2018 e a nova melodia com ares retrô, se chama Popotão Grandão (1982).

O vídeo e também a música, como se pode imaginar, foram feitos a partir de ferramentas de inteligência artificial generativa. Na mais jovem das redes sociais, o TikTok, ele soma 1,5 milhão de visualizações. Isso sem contar que a música foi usada como base para mais de 38 mil publicações.

O perfil responsável pela criação chama-se Blow Records, um projeto musical realizado pelo publicitário Raul Vinicius, paulistano de 22 anos. Nas últimas semanas, músicas criadas pelo jovem com o uso da IA têm viralizado de forma exponencial nas plataformas digitais, misturando letras de funk com ritmos característicos dos anos 1960, 1970 e 1980.

As canções também estão nas plataformas digitais. No Spotify, Popotão Grandão (1982) soma 1,7 milhão de reproduções. Outro sucesso é Predador de Perereca, que adapta a música de MC Jhey, com 1,8 milhão. Já no TikTok, o áudio da canção foi usado em 80 mil vídeos e aparece no Top 50 Viral do Brasil, na 3ª posição. Os vídeos que usam o “funk retrô” são variados: dancinhas, memes, trends virais, e por aí vai.

Rosto do funkeiro Mc Jhey reproduzido com ferramentas de inteligência artificial incorporando elementos estéticos dos anos 1970 e 1980. A imagem foi feita por Raul Vinicius, dono do projeto Blow Records, que transforma funk em canções 'antigas' por meio da IA. Foto: Blow Records/Feita com IA

“Acho que faz sucesso justamente pela nostalgia”, diz Raul Vinicius. “Fora a questão do inusitado: você pega gêneros superconsolidados, letras mais recentes, atuais - ou às vezes até superquestionadas - e une uma coisa com a outra. Isso te possibilita esse cenário inusitado. Acho que esse é o combo perfeito.”

O projeto, contudo, não começou com o funk. Raul, fã de trap americano, teve a inspiração em 2023 depois de escutar a música BBL Drizzy, uma diss track (como é chamada uma canção que faz ataques a outros artista) contra Drake, elaborada pelo produtor americano Metro Boomin.

A música também fazia uso de IA, gerando uma voz artificial cantando por cima de um ritmo soul. “Foi ali que eu comecei a me interessar mais por música e por essa questão de música com IA. Essa ferramenta é superpoderosa. Comecei a me aprofundar mais e foi quando fiz as primeiras versões.”

Raul lançou versões oitentistas de canções de trap brasileiro, como Alma, de TZ da Coronel, e Rei Lacoste, de MD Chefe e Dom Laike. “Teve até uma do TZ da Coronel, que é Não Faz Isso Cmg Não, que virou uma trend no TikTok. Só que na proporção de hoje, foi mais com funk, realmente”, explica ele.

O ponto de virada, para Raul, foi o lançamento de Casa dos Machos (1979), versão retrô da música homônima da cantora Pocah. A funkeira postou a música em seu perfil em uma rede social. “Virou uma trend supergrande, ‘bateu’ milhões, ela compartilhou. Outras pessoas super influentes na internet compartilharam”, lembra. “A Blow ganhou mais de 80 mil seguidores nos últimos meses.”

Já dá retorno financeiro?

Segundo Raul, ele já produziu entre 250 e 300 músicas com a ajuda da IA. O jovem gasta em média 1h30 para produzir uma canção, sem contar a geração do vídeo, mas algumas versões “mais complicadas” demandam mais tempo. Por mês, ele gasta cerca de R$ 1 mil apenas com as ferramentas de inteligência utilizadas para criar a faixa.

E já dá retorno? “O que eu ganho mais é para manter o projeto mesmo. O que dá para tirar das plataformas de streaming, por exemplo, não é algo que mudou minha vida, não. Dá para tirar alguma coisa ali, mas mais para manter”, afirma. No Spotify, a Blow Records tem 853 mil ouvintes mensais. No YouTube, são 18 milhões de visualizações.

Nas plataformas oficiais, Raul divide os royalties - pagamento feito pelo uso de propriedade intelectual - com os artistas e gravadoras das músicas originais. No streaming, o nome dos funkeiros costuma aparece ao lado do nome da Blow Records, como se fosse uma parceria.

“Se você entrar no YouTube, que tem as versões completas, lá tem tudo certinho: o nome do artista e da música original, explicando que é uma obra recriada. Sempre tentando ser transparente, inclusive mencionando a IA. Quando eu vou comercializar essas músicas, por exemplo, no Spotify ou Deezer, aí entro em contato com o artista”, diz Raul.

O jovem diz que essa é uma parte burocrática do trabalho, principalmente quando envolve editoras (empresas responsáveis por gerenciar a obra dos artistas), mas que não teve nenhum problema com direitos autorais até o momento. Ele afirma também que alguns artistas já entraram em contato direto com ele para pedir uma versão retrô de suas músicas, apesar de preferir não citar nomes.

“Querendo ou não, é super inusitado, é algo novo, diferente, interessante. Movimenta também o nome dos artistas, já que viraliza fácil. Sempre os nomes deles estão ali na internet”, argumenta.

O trabalho já atraiu alguns admiradores ilustres: Mano Brown, por exemplo, segue a Bloow Records no Instagram há cerca de sete meses. “Acho que, em questão de levar o projeto a sério mesmo, foi aí, quando eu vi que ele seguiu.”

Como é feito?

Raul prefere não revelar quais ferramentas e modelos de IA usa na criação das faixas. “O que posso dizer é que não é algo automatizado, tem interferência humana, exige um trabalho ali por trás. Não é tão simples. As ferramentas estão aí todas no mercado e qualquer um pode usar. O segredo é quem vai extrair o melhor dessas ferramentas. Não é qualquer um que consegue”, afirma.

Ele diz manter uma playlist com artistas que usa como referência e inspiração, mas nega usar o nome de cantores específicos nos prompts, ou seja, na instrução enviada à IA para gerar a música.

“Quando estou estudando uma música, um funk recente, por exemplo, penso se ficaria melhor no disco, em um soul mais calmo. Eu meio que interpreto a música, analiso a métrica dela, vejo a letra. Então, encaixo tudo isso. Claro que vou fazendo testes e depois uma curadoria”, explica.

Raul Vinicius, de 22 anos, é o idealizador do projeto Blow Records, que faz o funk 'retrô' por meio de IA. Foto: Raul Vinicius/Arquivo Pessoal

Hoje, a Blow Records ocupa 70% da rotina de Raul, mas seu objetivo é profissionalizar cada vez o próprio trabalho. Ele afirma que o objetivo não é ganhar fama - quase não mostra o rosto nas redes e usa o logo da Blow Records para todas as divulgações. Mas acredita que o projeto tem um “potencial gigantesco”.

“Quero que se expanda mesmo para outros gêneros também. Eu sou super aberto a fazer diferentes coisas novas. Colaborar cada vez mais com os artistas e tornar um projeto de referência mostrando como a IA é poderosa, principalmente no meio da música. Quero ajudar de alguma forma todo mundo. É um projeto que está aí pra somar”, finaliza.

Músicas com IA

Músicas feitas a partir de inteligência artificial não são novidade e já têm gerado debate na indústria. No início deste mês, a banda The Velvet Sundown chamou a atenção nas redes sociais ao confirmar que suas canções foram criadas a partir das ferramentas de IA.

O projeto já tinha mais de 1,1 milhão de ouvintes mensais, além de 37 mil seguidores. E mais: São Paulo ocupava o topo do ranking entre as cidades com mais fãs do grupo, com mais de 15 mil ouvintes até então.

“Todos os personagens, histórias, músicas, vozes e letras são criações originais geradas com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial empregadas como instrumentos criativos”, diz a bio do projeto, que não revelou quem está por trás das criações.

Em maio, o fundador e diretor executivo do Spotify, Daniel Ek, se disse otimista e muito entusiasmado com as possibilidades da inteligência artificial, “porque estamos apenas começando a entender este futuro da criatividade”.

“Queremos que seres humanos reais tenham sucesso como artistas e criadores, mas o que acontecerá com a criatividade no futuro com a IA? Não sei. O que é música?”, argumentou durante uma apresentação à imprensa, segundo a AFP.

Por outro lado, produtores musicais e analistas argumentam que, em um universo já saturado, com milhões de músicas sendo lançadas nas plataformas digitais todos os dias, a IA é capaz de tornar o setor ainda mais precário para pequenos artistas. Saiba mais sobre a discussão aqui.

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