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A turnê estreia em setembro no Rio de Janeiro e segue para São Paulo, em outubro, e Salvador, em novembro.
O texto de Clarice Lispector que Maria Bethânia lia em seu show Rosa dos Ventos, de 1971, diz: “Eu sei o que vou fazer em seguida, mas, por enquanto, olha pra mim e me ama. Não, tu olhas pra ti e te amas. É o que está certo”. O que Bethânia vai fazer agora, em seguida de um show em que se apresentou ao lado do irmão Caetano Veloso, é uma turnê para comemorar os 60 anos de carreira. A estreia será em setembro, no Rio de Janeiro. Em São Paulo, chega em outubro; em Salvador, em novembro.
É preciso amar e confiar em Bethânia, seus fãs sabem disso. Ela se ama e sabe disso. Detesta a palavra fracasso. Bate na madeira quando ouve o repórter falar nela. Não a repete. Chama de “coisa horrível”. Na verdade, não o conhece de fato. Estreou como cantora no show Opinião, em 1965 - esse é o marco que ela gosta, apesar de ter estado no palco antes, na Bahia. Show político, que metia o dedo na cara da ditadura. Sucesso imediato.
Bethânia levantou o dedo tantas outras vezes. Para falar de “derramamentos amorosos ou conversas sérias sobre a vida”, como ela diz à reportagem do Estadão, por telefone. Ela não revela muitos detalhes sobre o show, apenas que ele terá compositores que a acompanharam a carreira toda, além de canções inéditas de Rita Lee, Chico César, Paulo César Pinheiro e Xande de Pilares. Prefere preservar o mistério. E fala sobre o de Clarice, que, certa vez, entrou em seu camarim e mexeu em suas maquiagens.
Rosa dos Ventos e A Cena Muda, esse segundo, outro dos shows que definiu sua personalidade artística, em 1974, serão referências para o show comemorativo. Bethânia, 79 anos, tem muitas razões para estar no palco. “O mundo se esmigalhando. Mas estamos vivos nele. Tenho fé no Brasil. Para mim, o Brasil é como se fosse uma entidade que eu acredito. Como um santo. Uma hora, o Brasil me salva. Uma hora o Brasil se salva”, diz, para, depois completar: “Vivo muito agarrada a isso. Por isso, ainda canto. Se não, estaria em casa, calada, quieta, triste e deprimida. Não estou! Quero subir ao palco e falar sobre tudo o que me interessa.”
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Chegar aos 60 anos de carreira e aos 80 anos de idade no próximo ano. Qual dessas marcas te surpreende ou te toca mais?
60 anos de palco. Isso que priorizo.
O que temos de informação sobre o show comemorativo de 60 anos, até o momento, está escrito no release, é que os espetáculos ‘Rosa dos Ventos’ (1971) e ‘A Cena Muda’ (1974) serão referências. São shows bastante intensos. Rosa abria as portas que dão para dentro. ‘A Cena Muda’ imprimia o que estava ocorrendo no País naquele momento. A partir disso, o que mais você pode nos adiantar?
Esses dois shows são importantes na minha carreira porque foram escritos para mim pelo Fauzi Arap, com cenografia de Flávio Império. Quem descobriu o meu modo de eu ser feliz no palco foi o Fauzi. Felicidade no sentido de me expressar. Me expressar por completa. De esquecer a coisa de uma cantora que deve ser afinada, que deve trabalhar, que deve estudar. Mais do que isso, aprender a se expressar. O palco é para isso. É essa escola, essa iniciação que eu reverencio (nesse show de 60 anos). Também vou colocar músicas de outros espetáculos que fiz.
Acho que a pergunta mais importante talvez seja: O que você quer cantar agora?
Pois é, isso que estou vendo. O mundo está muito difícil, não? Subir ao palco e se expressar quando o mundo está revolto para o pior lado. Guerras, autoridades roubadas. Ninguém autoriza ninguém a ser prepotente em um grau tão louco. O mundo se esmigalhando. Mas estamos vivos nele. Tenho fé no Brasil. Para mim, o Brasil é como se fosse uma entidade que eu acredito. Como um santo. Uma hora, o Brasil me salva. Uma hora o Brasil se salva. Uma hora o Brasil ainda faz um milagre. Eu vivo muito agarrada a isso. Por isso, ainda canto. Se não, estaria em casa, calada, quieta, triste e deprimida. Não estou! Quero subir ao palco e falar sobre tudo o que me interessa, inclusive isso.
Ao longo desses 60 anos de carreira, sua voz atravessou a ditadura, democracias frágeis, retomadas e retrocessos — sempre afirmando liberdade, identidade e resistência. O que a música ainda pode — e deve — fazer politicamente no Brasil de hoje, para mudar a cena ou impedir que ela fique muda?
Eu estreei no auge da ditadura! A música pode mudar a cena e jamais ficar muda. Música contribui para mudanças fundamentais. Se você olhar as plateias dos shows da minha geração, há uma criançada, uma juventude, o encantamento. O aprendizado que eles tiveram que ter na pandemia, quando ficaram travados... Eles conseguiram alcançar a música do Brasil. Uma garotada estudiosa, atenta. Ver os [artistas] oitentões se expressando lindamente, fazendo shows vigorosos, vitoriosos. Fico emocionada!
O que sente quando vê a juventude na plateia, cantando ‘Negue’ com você, um samba-canção de 1960?
Uma alegria profunda! A juventude misturada à minha geração! É muito bonito!
Você apresentará músicas inéditas nesse novo show?
Sim, eu exijo que tenha músicas inéditas em meus shows. Quero aprender, ouvir outros pensamentos e sensações dos autores. Derramamentos amorosos ou conversas sérias sobre a vida. A situação do nosso País e do mundo. Tenho novas composições de Chico César, Xande de Pilares, Rita Lee, Paulo César Pinheiro e Roque Ferreira. Também irei passar pelos compositores que durante 60 anos mantiveram a cantora ali, com músicas fundamentais para os seus espetáculos.
Rita deixou essa canção feita especialmente para você.
Não é nem uma composição, é uma coisa, uma carta dela. Um texto muito forte!
Vai voltar a usar o microfone com fio nesse show?
Atualmente, os técnicos dizem que o microfone de fio não dá a segurança necessária para sonorização, banda, efeitos etc. É isso que eles me dizem. Eu acho meio capenguinha aquilo (microfone sem fio). Falta um pedaço.
Você ainda tem vontade ou necessidade de se expressar no palco de maneira mais teatral, com marcações, ou prefere algo como ‘Fevereiros’, com roteiro, mas mais próximo a um recital?
Não! Desde que Fauzi descobriu que eu poderia fazer apenas cantando, que eu adorei! É nesse barato que vou! (risos). Ser atriz é para Fernandinha (Fernanda Torres), Fernandona (Fernanda Montenegro), Renata (Sorrah). Para esse pessoal mais forte! A dramaturgia organiza o roteiro. Desse modo, posso falar, dizer textos, poemas. Essa é a minha escolinha. Atriz, como eu dizia (que seria), em Santo Amaro, não.
Clarice Lispector estará no espetáculo?
Para variar (risos). Clarice e Fernando (Pessoa) estarão.
Os jovens estão lendo Clarice, inclusive fora do Brasil...
Graças a Deus!
A cantora neozelandesa Lorde, de 28 anos, em entrevista ao Estadão, citou Clarice como uma inspiração para as composições que faz...
Clarice inspira grandes estrelas de Hollywood, inspira todo mundo. Clarice não tem fim!
Você teve uma relação com ela? É verdade que ela ficava em seu camarim?
Não! Ela era amiga do Fauzi! Ela o visitava. Ficavam os dois em uma sala separada. Em Rosa dos Ventos, ela foi à estreia, sentou-se na primeira fila. O camarim do Teatro da Praia [no Rio de Janeiro] era no subterrâneo, havia uma escada. Quando eu abri a porta para atender o público, ela era a primeira. Lá de cima da escada, ela só disse: “Faíscas! Faíscas no palco! Muito obrigada!” E saiu. Quando eu estava fazendo Brasileiro, Profissão Esperança [em 1970], com direção da Bibi Ferreira, ela, em um dia de espetáculo, foi ao meu camarim me cumprimentar. Ficou um pouco. Clarice era muito feminina. Gostava de maquiagem. Me perguntava: “Isso aqui é para quê?”. Conversa de mulher. Simples.
Você conseguiu decifrar que mistérios tinham Clarice?
Quem sou eu? E nem quero! Quero que Clarice siga o maior mistério do mundo! Aí está o deslumbramento dela.
Você tem por ela uma admiração muito grande. Mas também já declarou, no passado, que sentia certa intimidação na presença dela, embora tivessem uma relação afetuosa. Por quê?
Nunca gostei de me aproximar muito dos meus ídolos. Não! Mas sou amiga de muitos (ídolos). Não sei, gosto de entender o pensamento de quem admiro. Entender a sensação deles relevadas em seus trabalhos. O pessoal, tenho medo. Sou muito tímida, muito reservada. Tenho medo de gente.
É o mesmo sentimento que os fãs possam ter em relação a você?
Não sei, amor. Você tem que perguntar a eles (risos).
Eles se referem a você como Abelha Rainha, Minha Senhora, Dona Maria, Diva... Esses epítetos podem te tirar a humanidade, e criar mitos em torno de você. Como lida com isso? Alguma vez jogou com isso?
São criativos! Não, não escorrego nessa casca de banana.
Se mostrar humana é um caminho para escapar disso?
Penso que sim. Me manter humana. Eu sou muito quieta.
Aparecer tomando cerveja em copo normal, frequentar as festas de rua...
Tenho direito. Não sou prisioneira de nada. Me permito tomar um copo de cerveja na hora que quero, com meus amigos, nas ruas de Salvador, no [bairro] Dois de Julho, onde passei minha adolescência. Passar ali, sentar com o pessoal da feira, é uma delícia!
Ouvir Pablo [cantor de arrocha]...
Tô amorosa! (risos).
Você disse no programa Globo Repórter que deseja cantar canções de amor.
Sempre quis. Por acaso, quando estreei, existia a ditadura e o grande espetáculo, Opinião, era político. Era um freio contra a ditadura. Um “para com isso!”. Um homem do Nordeste, preto (João do Vale), um preto do Rio da Janeiro, da favela (Zé Keti), e Nara Leão, uma menina da zona sul carioca, rica, branca, de cabelo riso. Opinião foi um deslumbramento. Trabalhar com Boal (Augusto, diretor), Vale e Zé Keti foi um grande aprendizado.
Você foi dirigida por grandes nomes do teatro, como Boal, Fauzi Arap e Bibi Ferreira, que te deram uma personalidade cênica. Vendo, porém, a sua performance em Iansã, por exemplo, não parece que alguém poderia dirigi-la naquele momento, a não ser você mesma. Como encontrou esse limite de até onde os diretores poderiam ir?
Esses diretores nunca chegaram para mim e disseram: “Faça dessa maneira”. Não era essa linha. Tem que me compreender e me ajudar a fortalecer, clarear, iluminar o que eu quero dizer. Mas, em nenhum momento, algum deles me disse: “Agora você faz isso, levanta a mão, sorri, vira para cá”. Jamais. Eles foram geniais em compreender que uma artista para se expressar precisa ser livre.
Você disse no documentário Ninguém Sabe Quem Sou Eu, que há um acontecimento quando você cruza a linha da coxia para o palco, e disse que é algo humano. Chico Buarque já afirmou que ficava impressionado ao ver esse fenômeno...
(risos) Tem uma frase ótima dele! Chico disse que quando chegava na camarim para me dar boa noite [Chico e Bethânia fizeram uma turnê juntos em 1975] eu era uma pessoa igual a ele. Depois de 10 minutos, quando estrávamos no palco, ele continuava sendo Chico e eu era outra pessoa, que ele não conhecia.
Há algo espiritual, uma força, uma entidade que te governa no palco?
Deve ter. Mas não sou estudiosa a ponto de saber explicar. E nem quero muito saber.
Não quer saber que mistérios têm Bethânia?
(risos) Nem os de Clarice.
Você professa sua fé em Nossa Senhora e também nos orixás, e em entidades como caboclos. Um retrato de um País que já existiu, de se ir à missa, mas de também tomar uma passe em um terreiro. Mãe Menininha [ialorixá da Bahia] se dizia católica. Hoje, o campo religioso está bastante conflituoso. Caetano já se justificou algumas vezes por ter gravado um louvor. Como enxerga essa questão?
Mãe Menininha tinha um terço na cabeceira da cama e lia a Bíblia. Eu não fico pensando. Faço o que minha intuição indica e o que me dá prazer. Se vão achar se é bom ou não é, não tenho que dar satisfação. Acredito no que acho que é bom acreditar, no que é possível, no que me dá razões para acreditar. Para mim, a religião é fundamental. Sou religiosa. Fui criada em colégio de freiras. Sou mariana. Descobri o candomblé já mocinha, quando fui estudar em Salvador, com minha Mãe Menininha. Tive essa sorte. Ela era uma sábia. Foi um passo iluminado. Tudo que cerca a religião africana é muito bonito, forte, caloroso e real. Não é em latim, entende? É franca, aberta! A beleza das músicas, das danças, dos toques, as comidas, me conquistaram.
No início de sua carreira, o sucesso veio de forma quase instantânea — da noite para o dia — e, naquela época, você disse a ele: “O senhor me respeita, e eu respeito o senhor.” Agora, celebrando 60 anos de trajetória, sendo cultuada como sempre, o que você acha que o sucesso teria a lhe dizer atualmente? E o que você diria a ele?
Continuamos namorando nessa mesma sentença. Não mudamos. Seguimos apaixonados, mas modernos. Vivemos separados. Na hora que um precisa do outro, está ali.
Você conheceu muito pouco o fracasso na vida artística. No disco Olho d’Água [de 1992], talvez. Não fracassar também pode ser muito perigoso, não?
Deus me livre [é possível ouvir Bethânia bater três vezes na madeira]. Nunca passei por essa área. Navego em outro mar. Não suporto essa palavra, a princípio de conversa [Bethânia fala seriamente]. Essa palavra carrega uma vibração ruim. Não é luminosa, é parda e parada. Ela não se mexe. não me inspira. Não gosto de falar sobre isso. Não sei se você está querendo dizer que o Olho d’ Água não fez sucesso. Muitos discos meus não fizeram sucesso. Mas isso não quer dizer que chama essa outra coisa horrível que você disse aí.
Gil deixou uma declaração muito interessante no Globo Repórter, de que você é uma referência para ele do ponto de vista da atuação como cantor. Ele já havia te participado sobre isso?
Gil sempre achou minha mão direita no violão interessante. Ele me ensinava violão na Bahia. E dizia que eu cantava de outra maneira. Gil gosta disso! É muito bonito! Gil, da nossa geração, é o melhor músico. Ele e Milton [Nascimento].
Recentemente, Jaime Além [maestro de Bethânia por 25 anos] me disse que você poderia fazer arranjos, reger...
Todos os meus maestros, meus músicos, dizem que eu tenho algo, que não sei explicar, é uma avaliação dos músicos, muito sofisticada, que não alcanço. Me chamam de maestrina. Faço para facilitar o jeito de me expressar. Eu, maestrina? Imagine!
Falamos de Gil. Sabemos da importância de Caetano na sua vida, como o comandante do seu leme. Quero saber do outro pedaço do doce bárbaro, de Gal. O que ela tem de influência em sua vida pessoal e trajetória artística?
Morro de saudade de Gal. Nos últimos anos, não estávamos muito próximas. Ela tinha uma vida muito corrida. Trabalhou muito nos últimos anos de vida. E eu sou muito caseira. Mas nossa amizade nunca precisou da presença física, do contato diário. É muito mais profundo, real e nobre do que isso. Sinto uma falta imensa, pois não se ouvirá mais a voz de Gal. Não sei quais experiências a voz dela queria fazer ainda, que novidades ela poderia trazer. Nada igual a Gal. No estilo dela, não conheço. Assim como Nana [Caymmi] e Billie Holiday.
E quais experiências você ainda quer fazer com s sua voz?
Minha voz é dom de Deus. Enquanto eu puder cantar e me expressar do jeito que eu acho que está certo, que a voz estiver inteira, não estiver machucada, eu vou cantar. Quando eu sentir que não está completa, não canto mais.
Com a turnê Bethânia & Caetano, você teve a experiência de cantar em grandes estádios, lotados. Como foi?
Maravilhoso. Um aprendizado. Tudo incrível! Amei esse show. Eu e Caetano fomos felizes nele! Havia alegria. Era engraçado, tinha uma certa ginástica. Estádio é diferente de teatro, que você sai do camarim, dá quatro passos ou sobe quatro degraus e está no palco. Teve lugares que andei quase 1km para subir ao palco. As duas horas de show eram perfeitas; o resto era chato. Aeroporto, hotel...um saco! A vida diária é chata: trânsito, assalto, medo...
Show Maria Bethânia - 60 anos de carreira
Datas:
- 4 de outubro (sábado)
- 5 de outubro (domingo)
- 11 de outubro (sábado)
- 12 de outubro (domingo)
Onde:
Tokio Marine Hall. R. Bragança Paulista, 1281 - Santo Amaro
Preços:
- Setor Diamante: R$ 980 (inteira) e R$ 490 (meia-entrada)
- Setor Vip: R$ 820 (inteira) e R$ 410 (meia-entrada)
- Setor 1: R$ 720 (inteira) e R$ 360 (meia-entrada)
- Setor 2: R$ 580 (inteira) e R$ 290 (meia-entrada)
- Camarote: R$ 980 (inteira) e R$ 490 (meia-entrada)
- Frisa: R$ 940 (inteira) e R$ 470 (meia-entrada)
- Cadeira Alta: R$ 440 (inteira) e R$ 220 (meia-entrada)
Como comprar:
A venda de ingressos para o público geral acontece a partir do dia 3 de julho no site da Ticketmaster, às 10h.
Haverá ainda uma pré-venda para clientes da seguradora Tokio Marine, que batiza a casa de shows, em 2 de julho, a partir das 10h no site da Ticketmaster e das 11h às 17h na bilheteria física, sem taxa de serviço.
E também uma pré-venda para clientes do cartão Elo nos dias 30 de junho e 1º de julho, a partir das 10h, no site da Ticketmaster.