Coluna semanal do antropólogo Roberto DaMatta com reflexões sobre o Brasil

Opinião|O messianismo salvador empolga pela promessa utópica de tudo resolver


Hoje, vivemos uma patológica tensão entre dois salvadores da pátria e um poderoso gângster americano

Por Roberto DaMatta

O salvacionismo seduz porque promete um governo capaz de consertar ou curar esse Brasil por gerações tido como doente. Ele exibe o divórcio entre Estado e sociedade, e como esse transtorno responde pelas crises que são muito mais conflitos éticos do que políticos. Os salvacionistas chegam das margens. De militâncias ideológicas estrangeiras como a democracia liberal e o comunismo, do palácio do governo e dos partidos; do STF, do primarismo de Jair Bolsonaro, da aliança de bolsonarismo e Trump.

O salvador que promete cuidar dos pobres e oprimidos vem da periferia: do operariado, do baixo clero e possui, como Jânio, Ademar, Maluf e Bolsonaro, esquisitices carismáticas. O messianismo salvador é o discurso que empolga pela sua promessa utópica de tudo saber e tudo resolver. Comigo, ele afirma, você não precisa fazer nada...

Hoje, vivemos uma patológica tensão entre dois salvadores da pátria e um poderoso gângster americano.

continua após a publicidade
No Brasil, o discurso político estabelecido é o da salvação e do milagre Foto: Bruno Martins Imagens 2021/Adobe Stock

O que marca os salvacionistas é a contradição entre o discurso de renúncia desse nosso mundo estruturado por ladra politicagem e a ansiosa aristocratização do salvador logo que eleito e passa a viver em palácio gozando dos privilégios que ele e seus companheiros ferozmente combatem. A ambiguidade do patriarcalismo, que faculta anular os conflitos de interesse, mostra como a ideologia nada tem a ver com ética, pois, no Brasil, a esfera política define como é o espaço da ambiguidade que, em nome da democracia, “blinda” recriando a lei privada – o privilégio –, aristocratizando os eleitos, separando-os contraditoriamente do povo que os elegeu.

No Brasil, o discurso político estabelecido é o da salvação e do milagre. A tal “mudança social” deve ser realizada pelo governo, pois tudo cabe ao Estado e a seus agentes, que pertencem às elites responsáveis pelo atraso e pelo viés enraizado na nossa vida pública afeita à monarquia e escravidão.

continua após a publicidade

O apelo do milagre a ser realizado pelo Estado, sem custo para a sociedade que o constitui e sustenta, caracteriza o embuste de um inconsciente cultural aristocrático que ninguém quer enxergar.

Pessoas se decepcionam com pessoas, jamais com programas. Sem medir o peso do passado, vivemos crises recorrentes, porque achamos que as leis são isentas do peso dos costumes e das singularidades do passado. Um passado que acolheu um rei que escapuliu e sua corte. Um rei que foge para a colônia, inaugura sem saber um anticolonialismo que merece reflexão. No Brasil, colonizador e colonizado trocaram de lugar e se misturaram numa excepcional experiência. Seria o salvacionismo uma expressão de saudade de realeza? Penso que a fusão de colonizador com colonizado elucida a permanência do salvador, do jeitinho e do fascistoide, mas trivial, você sabe com quem está falando.

continua após a publicidade

O salvacionismo seduz porque promete um governo capaz de consertar ou curar esse Brasil por gerações tido como doente. Ele exibe o divórcio entre Estado e sociedade, e como esse transtorno responde pelas crises que são muito mais conflitos éticos do que políticos. Os salvacionistas chegam das margens. De militâncias ideológicas estrangeiras como a democracia liberal e o comunismo, do palácio do governo e dos partidos; do STF, do primarismo de Jair Bolsonaro, da aliança de bolsonarismo e Trump.

O salvador que promete cuidar dos pobres e oprimidos vem da periferia: do operariado, do baixo clero e possui, como Jânio, Ademar, Maluf e Bolsonaro, esquisitices carismáticas. O messianismo salvador é o discurso que empolga pela sua promessa utópica de tudo saber e tudo resolver. Comigo, ele afirma, você não precisa fazer nada...

Hoje, vivemos uma patológica tensão entre dois salvadores da pátria e um poderoso gângster americano.

No Brasil, o discurso político estabelecido é o da salvação e do milagre Foto: Bruno Martins Imagens 2021/Adobe Stock

O que marca os salvacionistas é a contradição entre o discurso de renúncia desse nosso mundo estruturado por ladra politicagem e a ansiosa aristocratização do salvador logo que eleito e passa a viver em palácio gozando dos privilégios que ele e seus companheiros ferozmente combatem. A ambiguidade do patriarcalismo, que faculta anular os conflitos de interesse, mostra como a ideologia nada tem a ver com ética, pois, no Brasil, a esfera política define como é o espaço da ambiguidade que, em nome da democracia, “blinda” recriando a lei privada – o privilégio –, aristocratizando os eleitos, separando-os contraditoriamente do povo que os elegeu.

No Brasil, o discurso político estabelecido é o da salvação e do milagre. A tal “mudança social” deve ser realizada pelo governo, pois tudo cabe ao Estado e a seus agentes, que pertencem às elites responsáveis pelo atraso e pelo viés enraizado na nossa vida pública afeita à monarquia e escravidão.

O apelo do milagre a ser realizado pelo Estado, sem custo para a sociedade que o constitui e sustenta, caracteriza o embuste de um inconsciente cultural aristocrático que ninguém quer enxergar.

Pessoas se decepcionam com pessoas, jamais com programas. Sem medir o peso do passado, vivemos crises recorrentes, porque achamos que as leis são isentas do peso dos costumes e das singularidades do passado. Um passado que acolheu um rei que escapuliu e sua corte. Um rei que foge para a colônia, inaugura sem saber um anticolonialismo que merece reflexão. No Brasil, colonizador e colonizado trocaram de lugar e se misturaram numa excepcional experiência. Seria o salvacionismo uma expressão de saudade de realeza? Penso que a fusão de colonizador com colonizado elucida a permanência do salvador, do jeitinho e do fascistoide, mas trivial, você sabe com quem está falando.

O salvacionismo seduz porque promete um governo capaz de consertar ou curar esse Brasil por gerações tido como doente. Ele exibe o divórcio entre Estado e sociedade, e como esse transtorno responde pelas crises que são muito mais conflitos éticos do que políticos. Os salvacionistas chegam das margens. De militâncias ideológicas estrangeiras como a democracia liberal e o comunismo, do palácio do governo e dos partidos; do STF, do primarismo de Jair Bolsonaro, da aliança de bolsonarismo e Trump.

O salvador que promete cuidar dos pobres e oprimidos vem da periferia: do operariado, do baixo clero e possui, como Jânio, Ademar, Maluf e Bolsonaro, esquisitices carismáticas. O messianismo salvador é o discurso que empolga pela sua promessa utópica de tudo saber e tudo resolver. Comigo, ele afirma, você não precisa fazer nada...

Hoje, vivemos uma patológica tensão entre dois salvadores da pátria e um poderoso gângster americano.

No Brasil, o discurso político estabelecido é o da salvação e do milagre Foto: Bruno Martins Imagens 2021/Adobe Stock

O que marca os salvacionistas é a contradição entre o discurso de renúncia desse nosso mundo estruturado por ladra politicagem e a ansiosa aristocratização do salvador logo que eleito e passa a viver em palácio gozando dos privilégios que ele e seus companheiros ferozmente combatem. A ambiguidade do patriarcalismo, que faculta anular os conflitos de interesse, mostra como a ideologia nada tem a ver com ética, pois, no Brasil, a esfera política define como é o espaço da ambiguidade que, em nome da democracia, “blinda” recriando a lei privada – o privilégio –, aristocratizando os eleitos, separando-os contraditoriamente do povo que os elegeu.

No Brasil, o discurso político estabelecido é o da salvação e do milagre. A tal “mudança social” deve ser realizada pelo governo, pois tudo cabe ao Estado e a seus agentes, que pertencem às elites responsáveis pelo atraso e pelo viés enraizado na nossa vida pública afeita à monarquia e escravidão.

O apelo do milagre a ser realizado pelo Estado, sem custo para a sociedade que o constitui e sustenta, caracteriza o embuste de um inconsciente cultural aristocrático que ninguém quer enxergar.

Pessoas se decepcionam com pessoas, jamais com programas. Sem medir o peso do passado, vivemos crises recorrentes, porque achamos que as leis são isentas do peso dos costumes e das singularidades do passado. Um passado que acolheu um rei que escapuliu e sua corte. Um rei que foge para a colônia, inaugura sem saber um anticolonialismo que merece reflexão. No Brasil, colonizador e colonizado trocaram de lugar e se misturaram numa excepcional experiência. Seria o salvacionismo uma expressão de saudade de realeza? Penso que a fusão de colonizador com colonizado elucida a permanência do salvador, do jeitinho e do fascistoide, mas trivial, você sabe com quem está falando.

Opinião por Roberto DaMatta

É antropólogo social, escritor e autor de 'Fila e Democracia'

Atualizamos nossa política de cookies

Ao utilizar nossos serviços, você aceita a política de monitoramento de cookies.