Coluna semanal do antropólogo Roberto DaMatta com reflexões sobre o Brasil

Opinião|Um até logo às utopias?


Quem não gostaria de viver num mundo perfeito ou semelhante ao Paraíso? Quem não se sente traído por ideologias e credos que respondam a todas as suas dúvidas?

Por Roberto DaMatta
Atualização:

Apesar dessas ansiedades, deve-se compreender que um país só pode dar o que pode. E tal princípio é imprescindível como um guia para o momento.

O dramático impedimento de um chefe de Estado num regime presidencialista, cuja presidente sai do papel sem, entretanto, deixar o palácio, teve uma trajetória singular. Começou com as promessas igualitárias de um metalúrgico pobre e terminou marcada pela ladroagem no melhor estilo patrimonialista, mas com seus cabeças e mediadores bilionários presos por corrupção. O patrimonialismo não acabou, mas entrou em conflito com a esfera burocrática representada pela justiça e pela pressão das redes sociais. O populismo, que prometia honestidade e transformação igualitária, acabou tirando do prumo o elo entre governo e sociedade, na medida em que a mensagem do petismo foi ficando lulista.

Se esse enredo fosse escrito no fim dos anos 1990, dir-se-ia que tal reviravolta seria impossível. Subestimamos a força do personalismo no Brasil, lido mais como um país do que como um sistema de costumes e valores. Nele, as “superpessoas” canibalizam programas. Lula englobou o PT. Pela mesma moeda, deixamos de lado o poder das formas impessoais e anônimas de atuação política vigentes num Brasil globalizado. Continuamos pensando em “povo” numa sociedade de massa e de opinião.

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O mais espantoso não foi prender os ricos, mas realizar um afastamento muito mais ético (absolutamente contra a corrupção e a ausência de sinceridade a certos papéis) do que meramente político. Afastamento feito sem soldados, bravatas e tanques nas ruas. Esse é o sinal de uma maturidade institucional que chega, justamente quando o governo aparelha o Estado e tenta dirigir a economia, quebrando o País.

A verdade é que estes tempos de distopia e de desgraça financeira obrigaram a entender como a vida republicana, que iguala, contém tanto o utópico quanto o seu contrário. Virtude e vício não vão embora, eles se alternam. O que, entrementes, um “governo de salvação” não pode fazer é ser conivente com o vício, já que salvar é, por definição, uma virtude. Quando se fala em “utopia perdida”, é preciso indagar se as utopias não são também dispositivos antiemancipatórios, que impingem amarras à autonomia e à responsabilidade pública e particular em nome de um regime acabado. Um sistema que, ao fim e ao cabo, revoga o humano, pois liquida a história, como diz aquele famoso manifesto de esperança e onipotência evolucionista de uma dada época.

O republicanismo tem como novidade o diálogo entre utopias e distopias, as quais duvidam do canto de sereia das fórmulas que resolveriam de uma vez por todas os nossos problemas. Nesse sentido, Kafka e Orwell contêm Platão. As distopias lembram que sociedades não são “consertadas” como os relógios, pois levamos os relógios para relojoeiros e não para políticos!

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No nosso caso, a ruína real da economia apresenta uma barreira intransponível para a tal “vontade política”. Sejamos marxistas: se a infraestrutura vai à falência motivada por uma ideologia enganadora, a saída é a reformulação da superestrutura.

Esse governo é de salvação por um motivo simples: ele é, obviamente, hiperpolítico, mas é também um governo que pode dizer não aos amigos. E dizer não aos amigos, é o que se precisa para mudar o Brasil. Com o não aos amigos se faz a tão pretendida revolução e a tão procurada utopia. Nas emergências, salvam-se todos pela “ética da negação” – esse oposto da nossa tradicional “ética de condescendência” incapaz, como remarca Oliveira Vianna, de negar tudo, menos o pedido de um amigo.  * PS: O professor Moneygrand chama minha atenção para a edição do dia 14 do New York Times. Ele diz: “DaMatta, não deixe de ler a matéria na qual o parlamento brasileiro é descrito como tendente à corrupção é comparado a um circo com palhaço e tudo. Mas não perca o texto sobre Donald Trump e as mulheres. Pois se o parlamento brasileiro é um circo – complementa Moneygrand – o pré-candidato do partido de Lincoln e Eisenhower tem potencial de ser um “vaudeville” muito mais interessante do que os vossos bem pagos representantes. Se uma reportagem semelhante fosse feita no Brasil – aí, sim! –‚ teríamos um circo. Trump, candidato a presidente desta minha maior potência mundial, vale tanto ou mais do que todos os vossos palhaços reunidos”.

Apesar dessas ansiedades, deve-se compreender que um país só pode dar o que pode. E tal princípio é imprescindível como um guia para o momento.

O dramático impedimento de um chefe de Estado num regime presidencialista, cuja presidente sai do papel sem, entretanto, deixar o palácio, teve uma trajetória singular. Começou com as promessas igualitárias de um metalúrgico pobre e terminou marcada pela ladroagem no melhor estilo patrimonialista, mas com seus cabeças e mediadores bilionários presos por corrupção. O patrimonialismo não acabou, mas entrou em conflito com a esfera burocrática representada pela justiça e pela pressão das redes sociais. O populismo, que prometia honestidade e transformação igualitária, acabou tirando do prumo o elo entre governo e sociedade, na medida em que a mensagem do petismo foi ficando lulista.

Se esse enredo fosse escrito no fim dos anos 1990, dir-se-ia que tal reviravolta seria impossível. Subestimamos a força do personalismo no Brasil, lido mais como um país do que como um sistema de costumes e valores. Nele, as “superpessoas” canibalizam programas. Lula englobou o PT. Pela mesma moeda, deixamos de lado o poder das formas impessoais e anônimas de atuação política vigentes num Brasil globalizado. Continuamos pensando em “povo” numa sociedade de massa e de opinião.

O mais espantoso não foi prender os ricos, mas realizar um afastamento muito mais ético (absolutamente contra a corrupção e a ausência de sinceridade a certos papéis) do que meramente político. Afastamento feito sem soldados, bravatas e tanques nas ruas. Esse é o sinal de uma maturidade institucional que chega, justamente quando o governo aparelha o Estado e tenta dirigir a economia, quebrando o País.

A verdade é que estes tempos de distopia e de desgraça financeira obrigaram a entender como a vida republicana, que iguala, contém tanto o utópico quanto o seu contrário. Virtude e vício não vão embora, eles se alternam. O que, entrementes, um “governo de salvação” não pode fazer é ser conivente com o vício, já que salvar é, por definição, uma virtude. Quando se fala em “utopia perdida”, é preciso indagar se as utopias não são também dispositivos antiemancipatórios, que impingem amarras à autonomia e à responsabilidade pública e particular em nome de um regime acabado. Um sistema que, ao fim e ao cabo, revoga o humano, pois liquida a história, como diz aquele famoso manifesto de esperança e onipotência evolucionista de uma dada época.

O republicanismo tem como novidade o diálogo entre utopias e distopias, as quais duvidam do canto de sereia das fórmulas que resolveriam de uma vez por todas os nossos problemas. Nesse sentido, Kafka e Orwell contêm Platão. As distopias lembram que sociedades não são “consertadas” como os relógios, pois levamos os relógios para relojoeiros e não para políticos!

No nosso caso, a ruína real da economia apresenta uma barreira intransponível para a tal “vontade política”. Sejamos marxistas: se a infraestrutura vai à falência motivada por uma ideologia enganadora, a saída é a reformulação da superestrutura.

Esse governo é de salvação por um motivo simples: ele é, obviamente, hiperpolítico, mas é também um governo que pode dizer não aos amigos. E dizer não aos amigos, é o que se precisa para mudar o Brasil. Com o não aos amigos se faz a tão pretendida revolução e a tão procurada utopia. Nas emergências, salvam-se todos pela “ética da negação” – esse oposto da nossa tradicional “ética de condescendência” incapaz, como remarca Oliveira Vianna, de negar tudo, menos o pedido de um amigo.  * PS: O professor Moneygrand chama minha atenção para a edição do dia 14 do New York Times. Ele diz: “DaMatta, não deixe de ler a matéria na qual o parlamento brasileiro é descrito como tendente à corrupção é comparado a um circo com palhaço e tudo. Mas não perca o texto sobre Donald Trump e as mulheres. Pois se o parlamento brasileiro é um circo – complementa Moneygrand – o pré-candidato do partido de Lincoln e Eisenhower tem potencial de ser um “vaudeville” muito mais interessante do que os vossos bem pagos representantes. Se uma reportagem semelhante fosse feita no Brasil – aí, sim! –‚ teríamos um circo. Trump, candidato a presidente desta minha maior potência mundial, vale tanto ou mais do que todos os vossos palhaços reunidos”.

Apesar dessas ansiedades, deve-se compreender que um país só pode dar o que pode. E tal princípio é imprescindível como um guia para o momento.

O dramático impedimento de um chefe de Estado num regime presidencialista, cuja presidente sai do papel sem, entretanto, deixar o palácio, teve uma trajetória singular. Começou com as promessas igualitárias de um metalúrgico pobre e terminou marcada pela ladroagem no melhor estilo patrimonialista, mas com seus cabeças e mediadores bilionários presos por corrupção. O patrimonialismo não acabou, mas entrou em conflito com a esfera burocrática representada pela justiça e pela pressão das redes sociais. O populismo, que prometia honestidade e transformação igualitária, acabou tirando do prumo o elo entre governo e sociedade, na medida em que a mensagem do petismo foi ficando lulista.

Se esse enredo fosse escrito no fim dos anos 1990, dir-se-ia que tal reviravolta seria impossível. Subestimamos a força do personalismo no Brasil, lido mais como um país do que como um sistema de costumes e valores. Nele, as “superpessoas” canibalizam programas. Lula englobou o PT. Pela mesma moeda, deixamos de lado o poder das formas impessoais e anônimas de atuação política vigentes num Brasil globalizado. Continuamos pensando em “povo” numa sociedade de massa e de opinião.

O mais espantoso não foi prender os ricos, mas realizar um afastamento muito mais ético (absolutamente contra a corrupção e a ausência de sinceridade a certos papéis) do que meramente político. Afastamento feito sem soldados, bravatas e tanques nas ruas. Esse é o sinal de uma maturidade institucional que chega, justamente quando o governo aparelha o Estado e tenta dirigir a economia, quebrando o País.

A verdade é que estes tempos de distopia e de desgraça financeira obrigaram a entender como a vida republicana, que iguala, contém tanto o utópico quanto o seu contrário. Virtude e vício não vão embora, eles se alternam. O que, entrementes, um “governo de salvação” não pode fazer é ser conivente com o vício, já que salvar é, por definição, uma virtude. Quando se fala em “utopia perdida”, é preciso indagar se as utopias não são também dispositivos antiemancipatórios, que impingem amarras à autonomia e à responsabilidade pública e particular em nome de um regime acabado. Um sistema que, ao fim e ao cabo, revoga o humano, pois liquida a história, como diz aquele famoso manifesto de esperança e onipotência evolucionista de uma dada época.

O republicanismo tem como novidade o diálogo entre utopias e distopias, as quais duvidam do canto de sereia das fórmulas que resolveriam de uma vez por todas os nossos problemas. Nesse sentido, Kafka e Orwell contêm Platão. As distopias lembram que sociedades não são “consertadas” como os relógios, pois levamos os relógios para relojoeiros e não para políticos!

No nosso caso, a ruína real da economia apresenta uma barreira intransponível para a tal “vontade política”. Sejamos marxistas: se a infraestrutura vai à falência motivada por uma ideologia enganadora, a saída é a reformulação da superestrutura.

Esse governo é de salvação por um motivo simples: ele é, obviamente, hiperpolítico, mas é também um governo que pode dizer não aos amigos. E dizer não aos amigos, é o que se precisa para mudar o Brasil. Com o não aos amigos se faz a tão pretendida revolução e a tão procurada utopia. Nas emergências, salvam-se todos pela “ética da negação” – esse oposto da nossa tradicional “ética de condescendência” incapaz, como remarca Oliveira Vianna, de negar tudo, menos o pedido de um amigo.  * PS: O professor Moneygrand chama minha atenção para a edição do dia 14 do New York Times. Ele diz: “DaMatta, não deixe de ler a matéria na qual o parlamento brasileiro é descrito como tendente à corrupção é comparado a um circo com palhaço e tudo. Mas não perca o texto sobre Donald Trump e as mulheres. Pois se o parlamento brasileiro é um circo – complementa Moneygrand – o pré-candidato do partido de Lincoln e Eisenhower tem potencial de ser um “vaudeville” muito mais interessante do que os vossos bem pagos representantes. Se uma reportagem semelhante fosse feita no Brasil – aí, sim! –‚ teríamos um circo. Trump, candidato a presidente desta minha maior potência mundial, vale tanto ou mais do que todos os vossos palhaços reunidos”.

Apesar dessas ansiedades, deve-se compreender que um país só pode dar o que pode. E tal princípio é imprescindível como um guia para o momento.

O dramático impedimento de um chefe de Estado num regime presidencialista, cuja presidente sai do papel sem, entretanto, deixar o palácio, teve uma trajetória singular. Começou com as promessas igualitárias de um metalúrgico pobre e terminou marcada pela ladroagem no melhor estilo patrimonialista, mas com seus cabeças e mediadores bilionários presos por corrupção. O patrimonialismo não acabou, mas entrou em conflito com a esfera burocrática representada pela justiça e pela pressão das redes sociais. O populismo, que prometia honestidade e transformação igualitária, acabou tirando do prumo o elo entre governo e sociedade, na medida em que a mensagem do petismo foi ficando lulista.

Se esse enredo fosse escrito no fim dos anos 1990, dir-se-ia que tal reviravolta seria impossível. Subestimamos a força do personalismo no Brasil, lido mais como um país do que como um sistema de costumes e valores. Nele, as “superpessoas” canibalizam programas. Lula englobou o PT. Pela mesma moeda, deixamos de lado o poder das formas impessoais e anônimas de atuação política vigentes num Brasil globalizado. Continuamos pensando em “povo” numa sociedade de massa e de opinião.

O mais espantoso não foi prender os ricos, mas realizar um afastamento muito mais ético (absolutamente contra a corrupção e a ausência de sinceridade a certos papéis) do que meramente político. Afastamento feito sem soldados, bravatas e tanques nas ruas. Esse é o sinal de uma maturidade institucional que chega, justamente quando o governo aparelha o Estado e tenta dirigir a economia, quebrando o País.

A verdade é que estes tempos de distopia e de desgraça financeira obrigaram a entender como a vida republicana, que iguala, contém tanto o utópico quanto o seu contrário. Virtude e vício não vão embora, eles se alternam. O que, entrementes, um “governo de salvação” não pode fazer é ser conivente com o vício, já que salvar é, por definição, uma virtude. Quando se fala em “utopia perdida”, é preciso indagar se as utopias não são também dispositivos antiemancipatórios, que impingem amarras à autonomia e à responsabilidade pública e particular em nome de um regime acabado. Um sistema que, ao fim e ao cabo, revoga o humano, pois liquida a história, como diz aquele famoso manifesto de esperança e onipotência evolucionista de uma dada época.

O republicanismo tem como novidade o diálogo entre utopias e distopias, as quais duvidam do canto de sereia das fórmulas que resolveriam de uma vez por todas os nossos problemas. Nesse sentido, Kafka e Orwell contêm Platão. As distopias lembram que sociedades não são “consertadas” como os relógios, pois levamos os relógios para relojoeiros e não para políticos!

No nosso caso, a ruína real da economia apresenta uma barreira intransponível para a tal “vontade política”. Sejamos marxistas: se a infraestrutura vai à falência motivada por uma ideologia enganadora, a saída é a reformulação da superestrutura.

Esse governo é de salvação por um motivo simples: ele é, obviamente, hiperpolítico, mas é também um governo que pode dizer não aos amigos. E dizer não aos amigos, é o que se precisa para mudar o Brasil. Com o não aos amigos se faz a tão pretendida revolução e a tão procurada utopia. Nas emergências, salvam-se todos pela “ética da negação” – esse oposto da nossa tradicional “ética de condescendência” incapaz, como remarca Oliveira Vianna, de negar tudo, menos o pedido de um amigo.  * PS: O professor Moneygrand chama minha atenção para a edição do dia 14 do New York Times. Ele diz: “DaMatta, não deixe de ler a matéria na qual o parlamento brasileiro é descrito como tendente à corrupção é comparado a um circo com palhaço e tudo. Mas não perca o texto sobre Donald Trump e as mulheres. Pois se o parlamento brasileiro é um circo – complementa Moneygrand – o pré-candidato do partido de Lincoln e Eisenhower tem potencial de ser um “vaudeville” muito mais interessante do que os vossos bem pagos representantes. Se uma reportagem semelhante fosse feita no Brasil – aí, sim! –‚ teríamos um circo. Trump, candidato a presidente desta minha maior potência mundial, vale tanto ou mais do que todos os vossos palhaços reunidos”.

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