Luis Ricardo tem o riso solto. Não é para menos, afinal, o homem foi intérprete do palhaço mais famoso do mundo, o Bozo, figura que animava a programação do SBT nos anos 80.
O personagem, que fazia sucesso nos EUA desde os anos 1940, foi desenvolvido por Larry Harmon (1925-2008) e inspirou até mesmo a imagem de Ronald McDonald e sua rede de fast food. Todo o processo de importação do Bozo para o Brasil foi supervisionado pelo ator americano até Wandeko Pipoca (1951-2024) estrear na fantasia icônica.
Em 1984, depois da saída de Wandeko do SBT, Luis Ricardo assumiu o papel e honrou a vestimenta por quase uma década, tornando-se o mais longevo Bozo brasileiro. Para ele, o sucesso estava atrelado à relação que tinha com Silvio Santos (1930-2024), patrão igualmente “genial” e “imprevisível” ao qual ele sempre tentava se adequar, mas sem suprimir sua personalidade.
Agora, aos 62 anos, e por coincidência no momento em que o SBT anuncia a volta do palhaço à sua programação, o apresentador revê sua trajetória com leveza e sinceridade em biografia escrita por William Sanches. Nesta entrevista ao Estadão, conduzida em sua casa na região de Santana de Parnaíba, em São Paulo, ele fala de si mesmo e do personagem na 3ª pessoa, como se fossem entidades separadas. “Não é preciso terapia, é só para não misturar a vida profissional e a pessoal”, explica.
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A vocação para o entretenimento aflorou cedo, graças à herança circense, que remonta ao fim do século 19, na Espanha, quando sua bisavó deu início à tradição. Dona Mercedes Corominas fazia acrobacias aéreas e era conhecida como a Rainha dos Ares. No Brasil, seu pai, o palhaço Xuxu, perpetuou o legado e contou com a ajuda de Luis no circo desde que ele era um garoto.
Aos fãs do filme Bingo: O Rei Das Manhãs (2017), um desalento: Ricardo não vê com bons olhos o longa dirigido por Daniel Rezende e estrelado por Vladimir Brichta. Nem assistiu, confessa, mas alega ser um trabalho de “fantasia” que expôs um período sombrio do palhaço na pele de Arlindo Barreto, ex-colega com quem ele teria tido desavenças.
Por que que você decidiu contar a sua história agora nesse livro?
Há 5 ou 6 anos, eu sonhei que tinha feito um livro, sobre a história do Luis com o Silvio Santos. Então, fui até o William Sanches, um baita escritor e amigo da família. Ele é muito espiritualista e falou assim: ‘Luis, não tá na hora ainda’. Porra, não tá na hora? (risos) Eu já tinha 32 anos de carreira. Passaram 5 anos, ele olha pra mim e fala: ‘Tive um sonho, está na hora de você fazer um livro’. Falei que não queria um livro chato, não é autodivulgação, eu queria mostrar a minha vida. O que mais me emocionou foi a história da minha bisavó, da qual eu não tinha consciência.
Conte um pouco sobre essa sua herança circense, você até brincava com os leões...
Tudo foi sempre muito precário no circo. Meu pai era palhaço, e uma hora ele resolveu parar de ser funcionário e comprar o primeiro circo dele. E começamos a tocar. Eu resolvi largar os estudos, mas a minha mãe, que era bailarina, sempre foi persistente. A cada cidade que o circo mudava, ela se preocupava em ir uma semana antes para poder fazer a matrícula pra mim. A vida de circo é essa. E aí o circo foi crescendo, foi contratando, e eu percebi que os artistas vinham, mas iam embora. Isso defasava os números do circo. Fui me adequando às nossas necessidades. Até que nós compramos três leões, com as jaulas e o domador. Então o domador ia embora, e como é que ficava o número? Não tinha jeito, eu tinha que fazer. Entrei na jaula e aprendi. Era muito moleque, nunca tive medo de porra nenhuma. Chegou uma hora onde eu estava fazendo praticamente tudo. Aí um dia veio a oportunidade de ir para a TV.
E seu pai era contra você ir para a TV...
Ele achava que não era o mundo para mim. Eu tinha 14 anos. Mas aí não teve jeito. Eu já tinha uma visão diferente - de que se eu aparecesse na TV, o público iria me ver. Eu iria falar o nome do circo que eu trabalhava, e traria mais pessoas ao circo. A mentalidade era divulgar o circo para o meu pai.
Você virou Bozo após a saída do Wandeko Pipoca, em 1984. Qual foi sua reação quando recebeu a notícia?
Porra, não dormi 15 dias. O Silvio foi me preparando sem ninguém saber. Porque ele falava: ‘chama o menino do circo, veste ele de Bozo e coloca para dublar o Wandeko’. Acho que era para saber se funcionava. Eu comecei a fazer, mas aí ele terminou o programa. Uma semana depois o Valentino [Guzzo, produtor] me liga: ’o Silvio quer que você entre no ar como Bozo’. Eu não sabia o que era ‘entrar no ar’. Não tinha nem carteira de trabalho.
E qual foi o momento que você percebeu que seria o Bozo mais popular e mais longevo de todos?
Acho que foi o momento que o Silvio me liberou para fazer o que eu quisesse com o Bozo. Quando o Larry Harmon descobriu que teria um novo Bozo, ele veio dos EUA para poder dar aula para mim, num hotel chique para caramba. Mas eu falei para o Silvio que não iria dar em nada, porque o humor americano é diferente do humor brasileiro. O palhaço americano é mais pomposo, quando ele dá um tropicão lá, o povo morre de rir. Aqui no Brasil não é assim. Aqui você tem que levar torta na cara, cair na água. Então, o Silvio confiou em mim. Quando comecei a fazer o Bozo do jeito do palhaço de circo, sem perder as características do americano, e começou a dar certo, ele me ligou e disse: ‘você tem razão’.
Com o passar do tempo houve outros Bozos, inclusive o do Arlindo Barreto, que teve problemas com drogas e inspirou o filme ‘Bingo’. Foi um período sombrio do personagem?
Porra... (em tom afirmativo, com gargalhadas)
Foi com ele que você chegou a trocar socos, conforme relata no livro?
Não vou falar! (gargalhadas)
Você não gosta do filme?
Eu não assisti. Vivi tudo aquilo que me contam como é o filme. Não é nessa magnitude e fantasia que fizeram. O público não precisava saber disso. O Bozo é um personagem muito puro, velho.
O Bozo é puro, mas os homens não...
Mas aí que está o pulo do gato. Eu nunca deixei me inflamar com o que estava acontecendo com ele, entendeu? Quando explodiu o Bingo, eu saía na rua e era uma coisa terrível. Pegavam na minha mão e falavam: ‘ainda bem que você largou as drogas!’. Porra! Eu nunca fumei na minha vida. Quadrado ao extremo.
Mas dá para dizer que havia um cenário obscuro por trás de toda aquela alegria? Com muita luxúria, oferta de drogas...
Não, não, não. O filme está fora de cogitação. Não é nada daquilo, que fulano comeu não sei quem no camarim. Nada dessa porra. Muito pelo contrário. Nossa vida ali na Vila Guilherme [antiga sede do SBT] era muito precária. Era tudo muito aberto e lúdico. Agora, eu sofri? Sofri. Foi uma época terrível [com Arlindo Barreto]. Mas lá dentro, não teve nada disso.
Era difícil trabalhar com o Silvio Santos ou a relação sempre foi boa?
O Silvio sempre foi exigente. Eu me adequei ao ritmo de trabalho dele. Porque eu acho correto ele, como empresário e artista que era, pensar da forma que pensava. Ele dizia: ‘8 horas são 8 horas’. Não era 7h59, nem 8h01. Era muito rigoroso. Mas a nossa relação foi sempre supercordial. Ele, às vezes, batia de frente e eu falava algumas coisas, mas seguíamos.
Como você vê o futuro do SBT sob gestão das filhas do Silvio?
O Silvio faz falta, mas eu acho que elas estão numa direção correta. Contra números, não há argumentos. Tanto é que a Patrícia [Abravanel] está indo muito bem no programa, com resultado de Ibope satisfatório. Eu só teria um pouco de medo da mudança do tradicional para a modernização. A modernização, às vezes, tem que ser um pouco cautelosa.
Os programas de auditório tendem a acabar por causa do streaming?
Não, eu acho que eles se sustentam. O programa de auditório é necessário para a grade. Hoje temos uma divisão muito grande da internet com a TV. Mas são públicos diferentes. Havia uma época que só tinha AM, depois implantaram o FM e foi aquele boom. Mesma coisa com vinil e CD. Então há uma transição. O streaming está aí, mas a TV tem que explorar o programa ao vivo – é uma forma de você ter a atenção de todos.
Houve o famoso acidente no ‘Programa do Ratinho’, em 2014, quando você ateou fogo no seu rosto. Temeu a morte naquele dia?
Não, eu temi a aposentadoria mais cedo! (gargalhadas) Vou te mostrar... [Luis mostra ao repórter fotografias de seu rosto com severas queimaduras logo após o ocorrido] Não tenho coragem de postar ou mostrar isso na TV. Foi um erro bobo. A primeira coisa que a criança de circo aprende a fazer é a pirofogia. Foram queimaduras de 3º grau, mas a recuperação foi muito boa.
O que passou pela sua cabeça?
Eu estava com a boca cheia de querosene. Fiz o primeiro [sopro] e ia fazer o segundo. Então, a preocupação era eu engolir o fogo. Por isso eu jogo no pé do Ratinho. Quase pegou na perna dele. Pensei que ia sair deformado e que não ia voltar a trabalhar. O cirurgião plástico falou que precisaria fazer enxerto, mas não precisou. Deus está do meu lado. Foi milagre.
Para finalizar, quais seus planos para futuro? Pretende ter um programa ou migrar para a internet?
Não tenho essa competência para internet. Gosto de TV aberta, continuo fazendo na parte da manhã no SBT os sorteios do Baú da Felicidade e da Tele Sena. Estou fazendo há uns 5 meses. Eu só mostro os números e faço a premiação, mas para você ter uma ideia, esse sorteio é a vice-liderança da emissora. Eu acredito no carisma do Luis Ricardo. Então o plano para o futuro é segurar um pouco mais na TV aberta pra ver se há oportunidade de um programa. Acho que ainda tem um caldo pela frente, porque eu gosto do que faço. Como diz um amigo meu: ‘8 horas são 8 horas’.
Luis Ricardo: Muito Além do Palhaço Mais Famoso do Mundo
- Autor: William Sanches
- Editora: Citadel (198 págs.; R$ 62,90; R$ 39,90 o e-book)