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Com riscos e benefícios, o Brasil terá de agir para não perder mais uma revolução tecnológica
Talvez o grande desafio do futuro governo Lula 4.0, eleito há poucos dias, seja conseguir reagir na velocidade dos avanços exponenciais da inteligência artificial. Os primeiros testes vieram antes mesmo da posse. Em 21 de outubro, quatro dias antes do segundo turno, órgãos públicos como a Anatel e tribunais federais cortaram o acesso externo a sistemas escritos em PHP, uma linguagem usada em cerca de 70% dos sites.
As falhas que motivaram os bloqueios passaram mais de uma década escondidas no código até serem encontradas pelo GPT-5.6 Sol. Governos da Holanda, França e Canadá também tiraram páginas oficiais do ar, e uma empresa de nuvem registrou milhões de tentativas de invasão.
Episódios como esse vão se repetir. Modelos capazes de ler milhões de linhas de código vão expor falhas esquecidas há anos, e a vantagem será de quem chegar primeiro. O governo precisará de um inventário atualizado dos seus sistemas, de rotinas de correção que funcionem em horas e das mesmas IAs para auditar o código antes dos ataques.
A segunda frente reativa será contra a enxurrada de novas demandas automatizadas, como petições, recursos, reclamações e pedidos de informação, que agora são muito baratas de produzir. Nos tribunais federais americanos, a participação de litigantes sem advogado chegou a 16,8% em 2025, quando era 11% cinco anos antes.
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Depois da defesa vem a parte boa, sobretudo para o SUS. Os modelos preditivos de IA irão apoiar a triagem nas emergências e ordenar as filas de consultas e cirurgias de acordo com o risco clínico específico de cada paciente.
O Brasil tem o maior sistema público de transplantes do mundo, com 31 mil procedimentos em 2025 e 48 mil pessoas à espera de um órgão. Os algoritmos de IA irão predizer quem mais se beneficiará de cada doação e reduzir perdas na ligação entre doador e receptor.
A burocracia na atenção à saúde também vai encolher, principalmente com modelos que escutam a consulta e preenchem o prontuário eletrônico sem a necessidade de digitação.
O ganho mais importante, porém, virá do apoio às decisões de diagnóstico e prognóstico. Para o médico generalista de uma cidade pequena, um algoritmo treinado com milhões de casos do SUS funcionará como uma segunda opinião disponível a qualquer momento.
Nenhum médico acumula experiência com todos os perfis de uma população tão diversa quanto a do SUS, com doenças que mudam da Amazônia ao Pampa gaúcho. Treinados e validados com dados brasileiros, esses modelos irão trazer a qualquer unidade básica uma boa parte do conhecimento hoje concentrado nos grandes centros urbanos.
Haverá, claro, muita resistência, como houve com toda tecnologia disruptiva. Entre 1811 e 1816, os ludistas destruíram milhares de máquinas têxteis na Inglaterra. Ainda assim, a industrialização seguiu em frente, e os países que demoraram a adotá-la pagam essa conta até hoje. O Brasil conhece muito bem esse preço.
O terceiro governo Lula começou um mês depois do lançamento do ChatGPT. O Lula 4.0, que tomará posse no dia 5 de janeiro, governará em plena ascensão da indústria 4.0 e terá uma chance de ouro para impedir que o Brasil perca mais uma revolução industrial.