Acompanhei de perto o que aconteceu com empresas brasileiras nos últimos anos. Conversei com fundadores que tentaram manter folha de pagamento com crédito inacessível quando a Selic, a taxa básica de juros do Brasil definida pelo Banco Central, chegou a 13,75% ao ano em 2022 e ficou lá por meses. Dinheiro caro para todo mundo.
O empresário que precisava de capital de giro pagou caro. O que queria expandir, mais ainda. E o que tinha dívida contratada quando os juros subiram, descobriu que o custo do passivo cresceu mais rápido do que o faturamento. Essa conta ainda está sendo paga.
Por isso, o primeiro movimento que qualquer negócio precisa fazer agora é proteger o caixa. Empresa não quebra por falta de lucro. Quebra por falta de caixa. Toda despesa que não gera resultado direto precisa ser revisada sem piedade. Não é pessimismo. É gestão. E é exatamente o que empresas que atravessaram crises longas aprenderam: sobrevive quem controla o caixa antes de precisar.
Leia também
O segundo movimento é construir geração de caixa própria. Quem depende de empréstimo para operar está jogando com regras que o banco define, não você. Em ciclo de juro alto, a empresa criativa é a que encontra dentro do próprio negócio formas de gerar liquidez: antecipação de recebíveis com clientes âncora, venda de estoque parado, revisão de mix de produto priorizando o que tem margem maior e giro mais rápido.
Uma marca brasileira de vestuário que acompanhei de perto fez exatamente isso quando passou por reestruturação: reduziu a quantidade de produtos do portfólio, concentrou energia nos itens que geravam caixa real e saiu do ciclo de expansão para um ciclo de eficiência. Não cresceu para fora. Cresceu para dentro. E foi essa disciplina que manteve a empresa de pé enquanto o setor inteiro sangrava.
O que você está pagando de juro hoje, e quanto desse custo poderia ser eliminado com uma negociação que você ainda não fez?
O terceiro ponto é vender mais e melhor. Em tempo difícil, o cliente fica mais seletivo. Ele não para de comprar, mas passa a escolher com mais cuidado. Ganha quem tem time comercial treinado, processo de vendas estruturado e marketing gerando demanda todo dia. Não de vez em quando. Todo dia. Empresa que depende de indicação e de cliente antigo para sobreviver está em terreno frágil num ciclo de juros altos, porque o cliente antigo também está apertado.
E o quarto ponto é dos que poucos estão levando a sério ainda: a reforma tributária. A transição começa em 2027. Parece longe. Não é. O novo sistema vai mudar alíquotas, regimes e a forma como o imposto incide sobre cada setor. Empresa que não revisar preço, margem e enquadramento tributário com o contador antes disso vai descobrir tarde demais que o modelo que funcionava no sistema antigo não funciona mais no novo. Esse é o tipo de problema que não aparece no balanço do mês. Aparece quando já é difícil corrigir.
O que o setor produtivo cobra do Lula 4, portanto, não é só política econômica. É condição de operação. Juro que caiba no fluxo de caixa. Crédito que chegue antes da empresa quebrar. Regulamentação da reforma tributária que dê tempo de adaptação real, não só legal. E um governo que entenda que previsibilidade não é luxo. É o mínimo que qualquer negócio precisa para tomar decisão de contratação, de investimento e de crescimento. Essa é a conta que, como empresária, espero que feche.