Por que os jovens com diploma em países ricos estão em apuros hoje?


Em todo o Ocidente, jovens diplomados estão perdendo sua posição privilegiada no mercado de trabalho

Por The Economist
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De acordo com dados do IBGE, mais de 45 milhões de brasileiros pertencem à geração Z, nascida entre 1995 e 2012. Até 2030, esse grupo deve representar quase 30%

Pobre do jovem ambicioso. Durante décadas, o caminho para uma vida confortável era claro: fazer faculdade, conseguir um bom emprego e, então, ver o dinheiro entrar. No entanto, os jovens trabalhadores de hoje parecem ter menos opções do que antes.

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Entrar para a área de tecnologia? As grandes empresas estão cortando empregos. E o setor público? Menos prestigiado do que costumava ser. Tornar-se engenheiro? Muitas inovações, de veículos elétricos a energia renovável, acontecem agora na China. Advogado? A inteligência artificial em breve tomará seu lugar. Nem pense em se tornar jornalista.

Em todo o Ocidente, jovens diplomados estão perdendo sua posição privilegiada — e, em alguns casos, já a perderam. Dados de emprego apontam essa mudança. Matthew Martin, da consultoria Oxford Economics, analisou americanos de 22 anos a 27 anos com diploma universitário. Pela primeira vez na história, a taxa de desemprego deles está consistentemente acima da média nacional. O aumento do desemprego entre recém-formados é impulsionado por aqueles que estão procurando trabalho pela primeira vez.

Aumento do desemprego entre recém-formados é impulsionado por aqueles que estão procurando trabalho pela primeira vez Foto: Marcelo Chello/Estadão
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Essa tendência não ocorre apenas nos Estados Unidos. Em toda a União Europeia, a taxa de desemprego de jovens com ensino superior está se aproximando da média geral da faixa etária. Reino Unido, Canadá, Japão — todos parecem seguir caminho semelhante. Até mesmo jovens da elite, como formandos em MBA, estão sofrendo. Em 2024, 80% dos formandos da escola de negócios de Stanford tinham emprego três meses após se formarem — abaixo dos 91% em 2021. À primeira vista, os estudantes comendo ao ar livre no refeitório da escola parecem felizes. Mas, olhando de novo, é possível ver o medo em seus olhos.

Até recentemente, o chamado “prêmio salarial universitário” — a diferença salarial entre quem tem diploma e quem não tem — vinha crescendo. Mais recentemente, no entanto, ele diminuiu, inclusive nos EUA, Reino Unido e Canadá. Usando dados da filial de Nova York do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), estimamos que, em 2015, o graduado americano mediano ganhava 69% a mais do que um colega com ensino médio. No ano passado, esse prêmio caiu para 50%.

Os empregos também estão menos gratificantes. Uma ampla pesquisa sugere que a “lacuna de satisfação dos graduados” nos Estados Unidos — a probabilidade de os graduados se declararem “muito satisfeitos” com seus empregos em comparação com os não graduados — está agora em torno de três pontos percentuais, abaixo da vantagem de longo prazo de sete.

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Mas será que é algo ruim os graduados perderem seus privilégios? Do ponto de vista ético, não necessariamente. Nenhum grupo tem o direito de se sair melhor do que a média. Mas, do ponto de vista prático, talvez sim. A história mostra que, quando pessoas inteligentes — ou que se consideram inteligentes — se saem pior do que acreditam merecer, coisas ruins acontecem.

Peter Turchin, cientista da Universidade de Connecticut, argumenta que a “superprodução de elites” foi a causa imediata de vários tipos de agitação ao longo dos séculos, com “contra-elites” liderando os protestos. Historiadores identificam o “problema do excesso de homens educados” como um fator que contribuiu para as revoluções europeias de 1848.

Luigi Mangione poderia ser membro dessa contra-elite. Formado pela Universidade da Pensilvânia, ele deveria estar levando uma vida próspera. Em vez disso, está sendo julgado pelo suposto assassinato do CEO de uma seguradora de saúde. Mais revelador é o grau de empatia das pessoas com sua frustração: Mangione já recebeu mais de US$ 1 milhão em doações.

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Por que os diplomados estão perdendo privilégios? Talvez a enorme expansão das universidades tenha reduzido os padrões. Se as faculdades passaram a admitir alunos menos talentosos — e a forma como elas ensinam piorou —, os empregadores podem, com o tempo, perceber menos diferença entre o graduado médio e o não graduado médio.

Um estudo recente de Susan Carlson, da Pittsburg State University, e colegas, sugere que muitos estudantes hoje são funcionalmente analfabetos. Um número preocupante de estudantes de Letras tem dificuldade em entender Bleak House, de Charles Dickens. Muitos se perdem já na frase de abertura: “O período de Michaelmas acabou, e o Lorde Chanceler estava sentado no Lincoln’s Inn Hall.”

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De fato, algumas universidades oferecem cursos inúteis para candidatos que não deveriam estar lá. Por outro lado, há pouca correlação entre o número de graduados e o prêmio salarial no longo prazo: ambos cresceram nos EUA nos anos 1980, por exemplo. Além disso, converse com estudantes da maioria das universidades, especialmente as de elite, e você deixará de pensar que eles são estúpidos. Os alunos de Stanford são extremamente inteligentes.

Um novo estudo de Leila Bengali, da filial de São Francisco do Fed, e colegas, é outro motivo para duvidar da explicação “os graduados são fracos”. Eles descobriram que a mudança no prêmio universitário reflete principalmente fatores de demanda, especificamente uma desaceleração no ritmo da mudança tecnológica voltada para habilidades. Em outras palavras: os empregadores conseguem, cada vez mais, contratar não diplomados para fazer trabalhos antes restritos a quem tinha diploma.

Diploma com distinção? Ninguém liga

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Isso é especialmente verdadeiro para empregos que exigem apenas o uso básico de tecnologia. Até recentemente, muita gente só aprendia a usar um computador indo para a faculdade. Agora, todo mundo tem um smartphone, e os não diplomados também dominam a tecnologia. As consequências são claras. Em quase todos os setores da economia, as exigências educacionais estão diminuindo, segundo o site de empregos Indeed. A indústria de serviços profissionais e empresariais dos EUA emprega hoje mais pessoas sem diploma universitário do que há 15 anos — mesmo havendo menos dessas pessoas disponíveis.

Empregadores também cortaram vagas em setores tradicionalmente favoráveis a diplomados. Na União Europeia, o número de jovens de 15 a 24 anos empregados em finanças e seguros caiu 16% entre 2009 e 2024. Nos EUA, há hoje apenas um pouco mais de empregos em “serviços jurídicos” do que havia em 2006. Até pouco tempo atrás, o caminho óbvio para um britânico que queria ganhar dinheiro era entrar em um programa de trainee bancário.

Mas desde 2016, o número de jovens britânicos nas áreas de direito e finanças caiu 10%. Na terceira temporada de Industry, série dramática sobre jovens profissionais de um banco em Londres, boa parte do elenco original já havia sido demitido — ou morrido.

É tentador culpar a inteligência artificial por essas oportunidades em declínio.

A tecnologia parece capaz de automatizar o trabalho “intelectual” de entrada, como arquivamento ou tarefas paralegais. No entanto, as tendências descritas neste texto começaram antes do ChatGPT. Diversos setores que tradicionalmente contratavam diplomados vêm enfrentando dificuldades. Anos de fraca atividade em fusões e aquisições reduziram a demanda por advogados. Bancos de investimento estão menos ambiciosos do que eram antes da crise financeira global de 2007-2009.

Vale a pena fazer faculdade?

Os americanos parecem ter decidido que não. Entre 2013 e 2022, o número de pessoas matriculadas em cursos de bacharelado caiu 5%, segundo dados da OCDE. Mas, na maioria dos países ricos — onde o ensino superior é mais barato graças ao Estado — os jovens continuam indo para a universidade. Excluindo os EUA, a matrícula na OCDE subiu de 28 milhões para 31 milhões na década até 2022. Na França, o número de estudantes aumentou 36%; na Irlanda, 45%. Governos estão subsidiando diplomas inúteis e incentivando jovens a desperdiçar tempo estudando.

Os estudantes também podem não estar escolhendo os cursos certos.

Fora dos EUA, a participação nas áreas de artes, humanidades e ciências sociais cresce — e, inexplicavelmente, o número de alunos em cursos de jornalismo também. Se essas tendências refletem a visão dos jovens sobre o futuro do trabalho, então eles estão, de fato, em apuros.

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De acordo com dados do IBGE, mais de 45 milhões de brasileiros pertencem à geração Z, nascida entre 1995 e 2012. Até 2030, esse grupo deve representar quase 30%

Pobre do jovem ambicioso. Durante décadas, o caminho para uma vida confortável era claro: fazer faculdade, conseguir um bom emprego e, então, ver o dinheiro entrar. No entanto, os jovens trabalhadores de hoje parecem ter menos opções do que antes.

Entrar para a área de tecnologia? As grandes empresas estão cortando empregos. E o setor público? Menos prestigiado do que costumava ser. Tornar-se engenheiro? Muitas inovações, de veículos elétricos a energia renovável, acontecem agora na China. Advogado? A inteligência artificial em breve tomará seu lugar. Nem pense em se tornar jornalista.

Em todo o Ocidente, jovens diplomados estão perdendo sua posição privilegiada — e, em alguns casos, já a perderam. Dados de emprego apontam essa mudança. Matthew Martin, da consultoria Oxford Economics, analisou americanos de 22 anos a 27 anos com diploma universitário. Pela primeira vez na história, a taxa de desemprego deles está consistentemente acima da média nacional. O aumento do desemprego entre recém-formados é impulsionado por aqueles que estão procurando trabalho pela primeira vez.

Aumento do desemprego entre recém-formados é impulsionado por aqueles que estão procurando trabalho pela primeira vez Foto: Marcelo Chello/Estadão

Essa tendência não ocorre apenas nos Estados Unidos. Em toda a União Europeia, a taxa de desemprego de jovens com ensino superior está se aproximando da média geral da faixa etária. Reino Unido, Canadá, Japão — todos parecem seguir caminho semelhante. Até mesmo jovens da elite, como formandos em MBA, estão sofrendo. Em 2024, 80% dos formandos da escola de negócios de Stanford tinham emprego três meses após se formarem — abaixo dos 91% em 2021. À primeira vista, os estudantes comendo ao ar livre no refeitório da escola parecem felizes. Mas, olhando de novo, é possível ver o medo em seus olhos.

Até recentemente, o chamado “prêmio salarial universitário” — a diferença salarial entre quem tem diploma e quem não tem — vinha crescendo. Mais recentemente, no entanto, ele diminuiu, inclusive nos EUA, Reino Unido e Canadá. Usando dados da filial de Nova York do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), estimamos que, em 2015, o graduado americano mediano ganhava 69% a mais do que um colega com ensino médio. No ano passado, esse prêmio caiu para 50%.

Os empregos também estão menos gratificantes. Uma ampla pesquisa sugere que a “lacuna de satisfação dos graduados” nos Estados Unidos — a probabilidade de os graduados se declararem “muito satisfeitos” com seus empregos em comparação com os não graduados — está agora em torno de três pontos percentuais, abaixo da vantagem de longo prazo de sete.

Mas será que é algo ruim os graduados perderem seus privilégios? Do ponto de vista ético, não necessariamente. Nenhum grupo tem o direito de se sair melhor do que a média. Mas, do ponto de vista prático, talvez sim. A história mostra que, quando pessoas inteligentes — ou que se consideram inteligentes — se saem pior do que acreditam merecer, coisas ruins acontecem.

Peter Turchin, cientista da Universidade de Connecticut, argumenta que a “superprodução de elites” foi a causa imediata de vários tipos de agitação ao longo dos séculos, com “contra-elites” liderando os protestos. Historiadores identificam o “problema do excesso de homens educados” como um fator que contribuiu para as revoluções europeias de 1848.

Luigi Mangione poderia ser membro dessa contra-elite. Formado pela Universidade da Pensilvânia, ele deveria estar levando uma vida próspera. Em vez disso, está sendo julgado pelo suposto assassinato do CEO de uma seguradora de saúde. Mais revelador é o grau de empatia das pessoas com sua frustração: Mangione já recebeu mais de US$ 1 milhão em doações.

Por que os diplomados estão perdendo privilégios? Talvez a enorme expansão das universidades tenha reduzido os padrões. Se as faculdades passaram a admitir alunos menos talentosos — e a forma como elas ensinam piorou —, os empregadores podem, com o tempo, perceber menos diferença entre o graduado médio e o não graduado médio.

Um estudo recente de Susan Carlson, da Pittsburg State University, e colegas, sugere que muitos estudantes hoje são funcionalmente analfabetos. Um número preocupante de estudantes de Letras tem dificuldade em entender Bleak House, de Charles Dickens. Muitos se perdem já na frase de abertura: “O período de Michaelmas acabou, e o Lorde Chanceler estava sentado no Lincoln’s Inn Hall.”

De fato, algumas universidades oferecem cursos inúteis para candidatos que não deveriam estar lá. Por outro lado, há pouca correlação entre o número de graduados e o prêmio salarial no longo prazo: ambos cresceram nos EUA nos anos 1980, por exemplo. Além disso, converse com estudantes da maioria das universidades, especialmente as de elite, e você deixará de pensar que eles são estúpidos. Os alunos de Stanford são extremamente inteligentes.

Um novo estudo de Leila Bengali, da filial de São Francisco do Fed, e colegas, é outro motivo para duvidar da explicação “os graduados são fracos”. Eles descobriram que a mudança no prêmio universitário reflete principalmente fatores de demanda, especificamente uma desaceleração no ritmo da mudança tecnológica voltada para habilidades. Em outras palavras: os empregadores conseguem, cada vez mais, contratar não diplomados para fazer trabalhos antes restritos a quem tinha diploma.

Diploma com distinção? Ninguém liga

Isso é especialmente verdadeiro para empregos que exigem apenas o uso básico de tecnologia. Até recentemente, muita gente só aprendia a usar um computador indo para a faculdade. Agora, todo mundo tem um smartphone, e os não diplomados também dominam a tecnologia. As consequências são claras. Em quase todos os setores da economia, as exigências educacionais estão diminuindo, segundo o site de empregos Indeed. A indústria de serviços profissionais e empresariais dos EUA emprega hoje mais pessoas sem diploma universitário do que há 15 anos — mesmo havendo menos dessas pessoas disponíveis.

Empregadores também cortaram vagas em setores tradicionalmente favoráveis a diplomados. Na União Europeia, o número de jovens de 15 a 24 anos empregados em finanças e seguros caiu 16% entre 2009 e 2024. Nos EUA, há hoje apenas um pouco mais de empregos em “serviços jurídicos” do que havia em 2006. Até pouco tempo atrás, o caminho óbvio para um britânico que queria ganhar dinheiro era entrar em um programa de trainee bancário.

Mas desde 2016, o número de jovens britânicos nas áreas de direito e finanças caiu 10%. Na terceira temporada de Industry, série dramática sobre jovens profissionais de um banco em Londres, boa parte do elenco original já havia sido demitido — ou morrido.

É tentador culpar a inteligência artificial por essas oportunidades em declínio.

A tecnologia parece capaz de automatizar o trabalho “intelectual” de entrada, como arquivamento ou tarefas paralegais. No entanto, as tendências descritas neste texto começaram antes do ChatGPT. Diversos setores que tradicionalmente contratavam diplomados vêm enfrentando dificuldades. Anos de fraca atividade em fusões e aquisições reduziram a demanda por advogados. Bancos de investimento estão menos ambiciosos do que eram antes da crise financeira global de 2007-2009.

Vale a pena fazer faculdade?

Os americanos parecem ter decidido que não. Entre 2013 e 2022, o número de pessoas matriculadas em cursos de bacharelado caiu 5%, segundo dados da OCDE. Mas, na maioria dos países ricos — onde o ensino superior é mais barato graças ao Estado — os jovens continuam indo para a universidade. Excluindo os EUA, a matrícula na OCDE subiu de 28 milhões para 31 milhões na década até 2022. Na França, o número de estudantes aumentou 36%; na Irlanda, 45%. Governos estão subsidiando diplomas inúteis e incentivando jovens a desperdiçar tempo estudando.

Os estudantes também podem não estar escolhendo os cursos certos.

Fora dos EUA, a participação nas áreas de artes, humanidades e ciências sociais cresce — e, inexplicavelmente, o número de alunos em cursos de jornalismo também. Se essas tendências refletem a visão dos jovens sobre o futuro do trabalho, então eles estão, de fato, em apuros.

Seu navegador não suporta esse video.

De acordo com dados do IBGE, mais de 45 milhões de brasileiros pertencem à geração Z, nascida entre 1995 e 2012. Até 2030, esse grupo deve representar quase 30%

Pobre do jovem ambicioso. Durante décadas, o caminho para uma vida confortável era claro: fazer faculdade, conseguir um bom emprego e, então, ver o dinheiro entrar. No entanto, os jovens trabalhadores de hoje parecem ter menos opções do que antes.

Entrar para a área de tecnologia? As grandes empresas estão cortando empregos. E o setor público? Menos prestigiado do que costumava ser. Tornar-se engenheiro? Muitas inovações, de veículos elétricos a energia renovável, acontecem agora na China. Advogado? A inteligência artificial em breve tomará seu lugar. Nem pense em se tornar jornalista.

Em todo o Ocidente, jovens diplomados estão perdendo sua posição privilegiada — e, em alguns casos, já a perderam. Dados de emprego apontam essa mudança. Matthew Martin, da consultoria Oxford Economics, analisou americanos de 22 anos a 27 anos com diploma universitário. Pela primeira vez na história, a taxa de desemprego deles está consistentemente acima da média nacional. O aumento do desemprego entre recém-formados é impulsionado por aqueles que estão procurando trabalho pela primeira vez.

Aumento do desemprego entre recém-formados é impulsionado por aqueles que estão procurando trabalho pela primeira vez Foto: Marcelo Chello/Estadão

Essa tendência não ocorre apenas nos Estados Unidos. Em toda a União Europeia, a taxa de desemprego de jovens com ensino superior está se aproximando da média geral da faixa etária. Reino Unido, Canadá, Japão — todos parecem seguir caminho semelhante. Até mesmo jovens da elite, como formandos em MBA, estão sofrendo. Em 2024, 80% dos formandos da escola de negócios de Stanford tinham emprego três meses após se formarem — abaixo dos 91% em 2021. À primeira vista, os estudantes comendo ao ar livre no refeitório da escola parecem felizes. Mas, olhando de novo, é possível ver o medo em seus olhos.

Até recentemente, o chamado “prêmio salarial universitário” — a diferença salarial entre quem tem diploma e quem não tem — vinha crescendo. Mais recentemente, no entanto, ele diminuiu, inclusive nos EUA, Reino Unido e Canadá. Usando dados da filial de Nova York do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), estimamos que, em 2015, o graduado americano mediano ganhava 69% a mais do que um colega com ensino médio. No ano passado, esse prêmio caiu para 50%.

Os empregos também estão menos gratificantes. Uma ampla pesquisa sugere que a “lacuna de satisfação dos graduados” nos Estados Unidos — a probabilidade de os graduados se declararem “muito satisfeitos” com seus empregos em comparação com os não graduados — está agora em torno de três pontos percentuais, abaixo da vantagem de longo prazo de sete.

Mas será que é algo ruim os graduados perderem seus privilégios? Do ponto de vista ético, não necessariamente. Nenhum grupo tem o direito de se sair melhor do que a média. Mas, do ponto de vista prático, talvez sim. A história mostra que, quando pessoas inteligentes — ou que se consideram inteligentes — se saem pior do que acreditam merecer, coisas ruins acontecem.

Peter Turchin, cientista da Universidade de Connecticut, argumenta que a “superprodução de elites” foi a causa imediata de vários tipos de agitação ao longo dos séculos, com “contra-elites” liderando os protestos. Historiadores identificam o “problema do excesso de homens educados” como um fator que contribuiu para as revoluções europeias de 1848.

Luigi Mangione poderia ser membro dessa contra-elite. Formado pela Universidade da Pensilvânia, ele deveria estar levando uma vida próspera. Em vez disso, está sendo julgado pelo suposto assassinato do CEO de uma seguradora de saúde. Mais revelador é o grau de empatia das pessoas com sua frustração: Mangione já recebeu mais de US$ 1 milhão em doações.

Por que os diplomados estão perdendo privilégios? Talvez a enorme expansão das universidades tenha reduzido os padrões. Se as faculdades passaram a admitir alunos menos talentosos — e a forma como elas ensinam piorou —, os empregadores podem, com o tempo, perceber menos diferença entre o graduado médio e o não graduado médio.

Um estudo recente de Susan Carlson, da Pittsburg State University, e colegas, sugere que muitos estudantes hoje são funcionalmente analfabetos. Um número preocupante de estudantes de Letras tem dificuldade em entender Bleak House, de Charles Dickens. Muitos se perdem já na frase de abertura: “O período de Michaelmas acabou, e o Lorde Chanceler estava sentado no Lincoln’s Inn Hall.”

De fato, algumas universidades oferecem cursos inúteis para candidatos que não deveriam estar lá. Por outro lado, há pouca correlação entre o número de graduados e o prêmio salarial no longo prazo: ambos cresceram nos EUA nos anos 1980, por exemplo. Além disso, converse com estudantes da maioria das universidades, especialmente as de elite, e você deixará de pensar que eles são estúpidos. Os alunos de Stanford são extremamente inteligentes.

Um novo estudo de Leila Bengali, da filial de São Francisco do Fed, e colegas, é outro motivo para duvidar da explicação “os graduados são fracos”. Eles descobriram que a mudança no prêmio universitário reflete principalmente fatores de demanda, especificamente uma desaceleração no ritmo da mudança tecnológica voltada para habilidades. Em outras palavras: os empregadores conseguem, cada vez mais, contratar não diplomados para fazer trabalhos antes restritos a quem tinha diploma.

Diploma com distinção? Ninguém liga

Isso é especialmente verdadeiro para empregos que exigem apenas o uso básico de tecnologia. Até recentemente, muita gente só aprendia a usar um computador indo para a faculdade. Agora, todo mundo tem um smartphone, e os não diplomados também dominam a tecnologia. As consequências são claras. Em quase todos os setores da economia, as exigências educacionais estão diminuindo, segundo o site de empregos Indeed. A indústria de serviços profissionais e empresariais dos EUA emprega hoje mais pessoas sem diploma universitário do que há 15 anos — mesmo havendo menos dessas pessoas disponíveis.

Empregadores também cortaram vagas em setores tradicionalmente favoráveis a diplomados. Na União Europeia, o número de jovens de 15 a 24 anos empregados em finanças e seguros caiu 16% entre 2009 e 2024. Nos EUA, há hoje apenas um pouco mais de empregos em “serviços jurídicos” do que havia em 2006. Até pouco tempo atrás, o caminho óbvio para um britânico que queria ganhar dinheiro era entrar em um programa de trainee bancário.

Mas desde 2016, o número de jovens britânicos nas áreas de direito e finanças caiu 10%. Na terceira temporada de Industry, série dramática sobre jovens profissionais de um banco em Londres, boa parte do elenco original já havia sido demitido — ou morrido.

É tentador culpar a inteligência artificial por essas oportunidades em declínio.

A tecnologia parece capaz de automatizar o trabalho “intelectual” de entrada, como arquivamento ou tarefas paralegais. No entanto, as tendências descritas neste texto começaram antes do ChatGPT. Diversos setores que tradicionalmente contratavam diplomados vêm enfrentando dificuldades. Anos de fraca atividade em fusões e aquisições reduziram a demanda por advogados. Bancos de investimento estão menos ambiciosos do que eram antes da crise financeira global de 2007-2009.

Vale a pena fazer faculdade?

Os americanos parecem ter decidido que não. Entre 2013 e 2022, o número de pessoas matriculadas em cursos de bacharelado caiu 5%, segundo dados da OCDE. Mas, na maioria dos países ricos — onde o ensino superior é mais barato graças ao Estado — os jovens continuam indo para a universidade. Excluindo os EUA, a matrícula na OCDE subiu de 28 milhões para 31 milhões na década até 2022. Na França, o número de estudantes aumentou 36%; na Irlanda, 45%. Governos estão subsidiando diplomas inúteis e incentivando jovens a desperdiçar tempo estudando.

Os estudantes também podem não estar escolhendo os cursos certos.

Fora dos EUA, a participação nas áreas de artes, humanidades e ciências sociais cresce — e, inexplicavelmente, o número de alunos em cursos de jornalismo também. Se essas tendências refletem a visão dos jovens sobre o futuro do trabalho, então eles estão, de fato, em apuros.

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