Os impactos da crise climática vão muito além do meio ambiente. Recortes de raça, gênero e território interferem diretamente em como meninas e jovens mulheres têm suas vidas transformadas por eventos extremos como secas, enchentes e queimadas, especialmente em contextos de desigualdade social e vulnerabilidade histórica.
Em conversa com Júlia Gouveia, especialista em mudanças climáticas e emergências da Plan International Brasil, o Blog abordou os impactos da crise climática na vida desse grupo em questões como casamento infantil, violência sexual e evasão escolar. Este é o primeiro post de uma série de quatro textos, que abordarão o assunto, destacando a importância de meninas e mulheres serem reconhecidas como protagonistas na construção de soluções justas, sustentáveis e sensíveis à infância. Acompanhe!
As meninas mais afetadas: os impactos da crise climática sobre quem já vive em vulnerabilidade
Júlia Gouveia: As mudanças climáticas vêm se consolidando como uma ameaça severa, complexa e cada vez mais concreta aos direitos humanos, atingindo de forma desproporcional as populações historicamente mais vulneráveis. Seus efeitos ultrapassam a dimensão ambiental e revelam como as desigualdades estruturais de raça, gênero, renda e faixa etária determinam quem sofre mais e quem tem menos recursos para se adaptar ou se proteger.
Meninas, adolescentes e mulheres, especialmente aquelas que vivem em comunidades rurais, periféricas ou tradicionais, são as primeiras a sentir os impactos múltiplos de uma crise climática que agrava ciclos de pobreza, violência e exclusão. Em situações de desastre, como secas severas, estiagens prolongadas, enchentes ou eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, as perdas não são apenas materiais: elas comprometem o acesso à água potável, à alimentação de qualidade, à moradia digna, à saúde física e mental e à continuidade de redes de apoio comunitário. Esses fatores resultam na intensificação das violências baseadas em gênero, no aumento de casamentos precoces e uniões forçadas como estratégias de sobrevivência, na evasão escolar de meninas e no sobrepeso emocional gerado por traumas, ansiedade climática e perda de perspectivas.
A sobreposição de desigualdades (ser mulher, negra, jovem, pobre e moradora de área vulnerável) torna o impacto ainda mais profundo. Fenômenos como secas prolongadas e inundações comprometem os meios de subsistência de famílias inteiras, destroem sistemas produtivos locais e afetam diretamente a segurança alimentar. Quando falta alimento, a má nutrição impacta principalmente meninas, gestantes e crianças pequenas, resultando em problemas de saúde, agravamento de doenças crônicas e aumento do risco de complicações na gravidez e no parto.
Em comunidades tradicionais, essa insegurança mina também o sentido de pertencimento, a memória coletiva e a continuidade cultural. Pessoas negras e indígenas, mulheres chefes de família, meninas e idosos concentram menos renda, têm menos acesso à terra, vivem em territórios mais ameaçados por múltiplos riscos e contam com menos recursos institucionais para se proteger. São justamente essas populações que mais conhecem o território, que guardam conhecimentos tradicionais de convivência com o clima, mas que seguem invisibilizadas nas decisões e sem representação suficiente nos espaços de poder.