Self-service de humor

Opinião|Bom dia, tristeza


Por Carlos Castelo

Tristeza, encerramento das atividades.

(Freepik)  
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A tristeza está com os dias contados. Depois de séculos de bons serviços prestados à humanidade, inspirando poetas, alimentando cantores de fossa e garantindo o sustento dos psicanalistas do planeta, vem aí a molécula PA-915, uma espécie de exterminadora de melancolia em pílula. Um comprimido e pronto: oito semanas de alma lavada, coração leve e olhar límpido como de quem acabou de sair de um comercial de iogurte probiótico.

Segundo os cientistas japoneses, o remédio bloqueia o receptor PAC1, responsável por regular o estresse e o humor. Em outras palavras, é o equivalente neurológico de puxar o fio do roteador e reiniciar o cérebro. A diferença é que, quando o modem da internet volta, você continua irritado. Já com a PA-915, você só suspira e diz: "Tudo bem, o importante é a conexão interna estar funcionando."

Sim, é o fim de uma era. Imagine um mundo sem tristeza: ninguém mais chorando ao som de Legião Urbana, nenhuma mensagem bêbada às três da manhã, nenhum "estou ótimo" que significa o contrário. Com a PA-915, poderemos enfrentar a rejeição amorosa, a demissão ou até o noticiário político de Brasília com a serenidade de um monge nepalês dopado com maracujina.

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Os artistas estão em pânico, naturalmente. Que será da música se ninguém mais tiver o coração partido? O sertanejo universitário então precisará de rebranding urgente. Ou alguém já viu um sertanejo emocionalmente estável? A MPB, sem dor de cotovelo, vira jingle de margarina. E os poetas, coitados, terão de voltar a trabalhar em empregos de verdade.

Mas o que mais preocupa é o fim das desculpas. Sem tristeza, como justificar aquele domingo inteiro em que você ficou de pijama, encarando o teto, comendo pão velho e pensando na vida?

"Desculpe, não fui à academia porque meu receptor PAC1 estava sobrecarregado" soa bem mais respeitável do que "porque eu não quis ir". A PA-915 nos livrará da melancolia, mas também nos deixará nus diante da própria preguiça.

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Ainda assim, há quem veja esperança. Talvez, pela primeira vez, possamos tratar o sofrimento emocional não com os coaches, mas com a ciência. É bonito pensar nisso. Mas confesso: tenho certo apego à minha tristeza. Cuido dela com carinho, dou ração de saudade e banho de lembranças ruins. Às vezes, ela até dorme no meu colo. Não, não quero apertar reset. Vai que, junto com a tristeza, a PA-915 apague também aquele pedacinho da alma que ainda se comove com um pôr do sol. Ou com um verso de Drummond.

 

 

Tristeza, encerramento das atividades.

(Freepik)  

A tristeza está com os dias contados. Depois de séculos de bons serviços prestados à humanidade, inspirando poetas, alimentando cantores de fossa e garantindo o sustento dos psicanalistas do planeta, vem aí a molécula PA-915, uma espécie de exterminadora de melancolia em pílula. Um comprimido e pronto: oito semanas de alma lavada, coração leve e olhar límpido como de quem acabou de sair de um comercial de iogurte probiótico.

Segundo os cientistas japoneses, o remédio bloqueia o receptor PAC1, responsável por regular o estresse e o humor. Em outras palavras, é o equivalente neurológico de puxar o fio do roteador e reiniciar o cérebro. A diferença é que, quando o modem da internet volta, você continua irritado. Já com a PA-915, você só suspira e diz: "Tudo bem, o importante é a conexão interna estar funcionando."

Sim, é o fim de uma era. Imagine um mundo sem tristeza: ninguém mais chorando ao som de Legião Urbana, nenhuma mensagem bêbada às três da manhã, nenhum "estou ótimo" que significa o contrário. Com a PA-915, poderemos enfrentar a rejeição amorosa, a demissão ou até o noticiário político de Brasília com a serenidade de um monge nepalês dopado com maracujina.

Os artistas estão em pânico, naturalmente. Que será da música se ninguém mais tiver o coração partido? O sertanejo universitário então precisará de rebranding urgente. Ou alguém já viu um sertanejo emocionalmente estável? A MPB, sem dor de cotovelo, vira jingle de margarina. E os poetas, coitados, terão de voltar a trabalhar em empregos de verdade.

Mas o que mais preocupa é o fim das desculpas. Sem tristeza, como justificar aquele domingo inteiro em que você ficou de pijama, encarando o teto, comendo pão velho e pensando na vida?

"Desculpe, não fui à academia porque meu receptor PAC1 estava sobrecarregado" soa bem mais respeitável do que "porque eu não quis ir". A PA-915 nos livrará da melancolia, mas também nos deixará nus diante da própria preguiça.

Ainda assim, há quem veja esperança. Talvez, pela primeira vez, possamos tratar o sofrimento emocional não com os coaches, mas com a ciência. É bonito pensar nisso. Mas confesso: tenho certo apego à minha tristeza. Cuido dela com carinho, dou ração de saudade e banho de lembranças ruins. Às vezes, ela até dorme no meu colo. Não, não quero apertar reset. Vai que, junto com a tristeza, a PA-915 apague também aquele pedacinho da alma que ainda se comove com um pôr do sol. Ou com um verso de Drummond.

 

 

Tristeza, encerramento das atividades.

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A tristeza está com os dias contados. Depois de séculos de bons serviços prestados à humanidade, inspirando poetas, alimentando cantores de fossa e garantindo o sustento dos psicanalistas do planeta, vem aí a molécula PA-915, uma espécie de exterminadora de melancolia em pílula. Um comprimido e pronto: oito semanas de alma lavada, coração leve e olhar límpido como de quem acabou de sair de um comercial de iogurte probiótico.

Segundo os cientistas japoneses, o remédio bloqueia o receptor PAC1, responsável por regular o estresse e o humor. Em outras palavras, é o equivalente neurológico de puxar o fio do roteador e reiniciar o cérebro. A diferença é que, quando o modem da internet volta, você continua irritado. Já com a PA-915, você só suspira e diz: "Tudo bem, o importante é a conexão interna estar funcionando."

Sim, é o fim de uma era. Imagine um mundo sem tristeza: ninguém mais chorando ao som de Legião Urbana, nenhuma mensagem bêbada às três da manhã, nenhum "estou ótimo" que significa o contrário. Com a PA-915, poderemos enfrentar a rejeição amorosa, a demissão ou até o noticiário político de Brasília com a serenidade de um monge nepalês dopado com maracujina.

Os artistas estão em pânico, naturalmente. Que será da música se ninguém mais tiver o coração partido? O sertanejo universitário então precisará de rebranding urgente. Ou alguém já viu um sertanejo emocionalmente estável? A MPB, sem dor de cotovelo, vira jingle de margarina. E os poetas, coitados, terão de voltar a trabalhar em empregos de verdade.

Mas o que mais preocupa é o fim das desculpas. Sem tristeza, como justificar aquele domingo inteiro em que você ficou de pijama, encarando o teto, comendo pão velho e pensando na vida?

"Desculpe, não fui à academia porque meu receptor PAC1 estava sobrecarregado" soa bem mais respeitável do que "porque eu não quis ir". A PA-915 nos livrará da melancolia, mas também nos deixará nus diante da própria preguiça.

Ainda assim, há quem veja esperança. Talvez, pela primeira vez, possamos tratar o sofrimento emocional não com os coaches, mas com a ciência. É bonito pensar nisso. Mas confesso: tenho certo apego à minha tristeza. Cuido dela com carinho, dou ração de saudade e banho de lembranças ruins. Às vezes, ela até dorme no meu colo. Não, não quero apertar reset. Vai que, junto com a tristeza, a PA-915 apague também aquele pedacinho da alma que ainda se comove com um pôr do sol. Ou com um verso de Drummond.

 

 

Opinião por Carlos Castelo

Carlos Castelo. Cronista, compositor e frasista. É ainda sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo.

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