Decisões políticas, amadorismo e estrutura: por que arbitragem brasileira está em crise


Ex-árbitros afirmam que profissionalização ajudaria, mas não seria suficiente para resolver os problemas, e dizem que afastamento deixa juízes tensos e inseguros

Por Ricardo Magatti
Atualização:

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O Explica Aí, Rizzo desta semana apresenta três cenários que a confederação projeta, a curto e médio prazo, na tentativa de reduzir as falhas recorrentes

Algumas coisas não mudam no futebol brasileiro ano após ano, rodada após rodada do Brasileirão: as críticas à arbitragem devidos aos erros em profusão, os afastamentos constantes dos profissionais e a falta de vínculo empregatício com as entidades com as quais estão ligados. Nesta temporada, as cobranças se tornaram mais intensas após falhas de juízes que apitaram Red Bull Bragantino 1 x 0 Grêmio e São Paulo 2 x 3 Palmeiras em duelos da 27ª rodada.

As falhas dos árbitros são “combatidas” com as mesmas medidas há anos: a curto prazo, mandando os profissionais para a geladeira por alguns dias; a longo prazo, trocando o comando da arbitragem brasileira. Seguirá a crise no apito se não for profissionalizado o trabalho da arbitragem de futebol no Brasil, avalia Carlos Eugênio Simon, comentarista de arbitragem e ex-árbitro brasileiro que mais apitou jogos de Copas do Mundo (Japão/Coreia do Sul-2002, Alemanha-2006 e África do Sul-2010).

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O árbitro é uma figura amadora cobrada como profissional. Eles têm de ter salário e estrutura, com médicos, psicólogos, fisioterapeutas, além de um centro de treinamento para onde eles possam ir convocados pela CBF

Carlos Eugênio Simon

Neste ano, cobrado, o então presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, promoveu uma espécie de reformulação ao demitir Wilson Luiz Seneme, substituído pelo ex-árbitro Rodrigo Martins Cintra, que coordena uma equipe com seis profissionais: Luiz Flávio de Oliveira, Marcelo Van Gasse, Fabrício Vilarinho, Luis Carlos Câmara Bezerra, Eveliny Almeida e Emerson Filipino Coelho.

Crise no apito assombra a CBF, que planeja mudanças Foto: Thais Magalhães/CBF
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A CBF também criou um comitê consultivo permanente para acomodar o chamado Comitê Consultivo de Especialistas Internacionais (CCEI). Esse grupo tem o italiano Nicola Rizzoli e o argentino Néstor Pitana, que apitaram as finais da Copa do Mundo de 2014 e 2018, além do brasileiro Sandro Meira Ricci. Cintra está na berlinda, segundo apurou o Estadão.

O fato de essa estrutura ter sido formada na gestão anterior pesa contra o grupo, principalmente após a sequência de erros recentes. A comissão de arbitragem tem atuado em defesa de alguns profissionais, mesmo após falhas claras como as ocorridas no último fim de semana, pelo Brasileirão.

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Os afastamentos de Ramon Abatti Abel, árbitro do clássico São Paulo 2 x 3 Palmeiras, e de Lucas Casagrande, que comandou Bragantino 1 x 0 Grêmio, foram decisões tomadas pela direção da CBF após pedidos das diretorias de São Paulo e Grêmio, clubes que reclamaram de erros. Como o presidente, Samir Xaud, está na Ásia com a delegação da seleção brasileira para os amistosos contra Coreia do Sul e Japão, não haverá mudanças até ele retornar, na semana que vem. Há quem defenda, dentro da entidade, esperar o fim da temporada para uma análise “de cabeça fria” sobre o trabalho da comissão.

Idealizador do VAR e por 15 anos o profissional que fazia análise sobre o desempenho dos árbitros dentro da CBF, o baiano Manoel Serapião entende que mandar os juízes pra geladeira é uma medida inócua.

Para mim, ninguém pode ser punido por incapacidade. Tem de ser punido por um ato antiético ou ilegal. Tem de ser corrigido no treinamento. O incapacitado você treina, você acolhe e dá base para ele se fortalecer.

Manoel Serapião, analista de arbitragem

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Ele argumenta que o afastamento baixa a autoestima dos juízes, provoca tensão e insegurança e causa uma exposição desnecessária.

“O certo é após cada jogo, você analisar o vídeo com o árbitro. A gente só ataca o problema com punição e vê apenas os erros a cada jogo. Se os árbitros se dedicassem, com filosofia pré-definida, eles estariam em campo mais bem preparados”, avalia Serapião, segundo o qual a CBF tira o árbitro que erra da escala geralmente por causa de “gritaria” de presidentes de clubes, como o do São Paulo, Julio Casares, revoltado com a não marcação de pênalti marcado a favor de seu time, além de outros lances.

Ramon Abatti Abel foi afastado por decisões que tomou em São Paulo 2 x 3 Palmeiras Foto: Werther Santana/Estadão
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“A CBF adota uma postura política e abominável. Você só pune o árbitro que prejudicou o clube que grita? E o clube que não grita você deixa pra lá?”, questiona. “A CBF pensa apenas em dar satisfação política”.

Simon concorda que não é eficaz a chamada “reciclagem”. “O árbitro precisa de tranquilidade para exercer sua função na plenitude. Punir árbitro assim não dá tranquilidade”.

Mesmo pensamento tem o ex-árbitro e comentarista de arbitragem da Record, Sálvio Spínola. “A CBF não corrige a arbitragem. Ela pune pra galera”.

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Spínola considera que uma das razões da crise no apito é não existir segurança jurídica para os árbitros, uma vez que eles não são vinculados juridicamente a nenhuma entidade. Hoje, Segundo a legislação vigente, juízes e bandeirinhas são trabalhadores autônomos, pagos a cada partida realizada.

Acho que o problema crônico é não haver uma relação formal com as entidades. O árbitro é um ‘camelô’, falta uma relação formal.

Sálvio Spínola, ex-árbitro e comentarista da Record

Mesmo arrecadando mais de R$ 1 bilhão em 2023, a CBF, sob a antiga gestão de Ednaldo, engavetou projeto apresentado por Seneme para construção um centro de treinamento exclusivo para árbitros, como mostrou reportagem da revista Piauí, e cortou verba para qualificar os juízes a partir de uma escola de arbitragem.

“A CBF é a única confederação no mundo que não forma árbitro. Quem forma árbitro no Brasil são as 27 federações. Ela qualifica, dá treinamento, mas é a única que não forma”, constata Spínola.

Serapião e Spínola apontam decisões políticas da CBF, e não técnicas, como outros motivos que impedem o avanço da arbitragem do futebol brasileiro. “A CBF pensa apenas em dar satisfação política. Toda a estrutura precisa mudar”, critica Serapião.

Quanto ganha um árbitro no Brasil?

Os árbitros mais bem remunerados no Brasil são os que têm pertencem ao quadro da Fifa: ganham R$ 7.280,00. Os quem tem escudo da CBF recebem R$ 5.250,00. Já bandeirinha e árbitro de vídeo faturam R$ 4.370,00 (Fifa) e R$ 3.150,00 (CBF) a cada jogo. Os valores foram atualizados neste ano. Há, também, o pagamento de diárias e taxas de deslocamento. Os valores contrastam com os altos salários de algumas das estrelas da elite do futebol brasileiro, que recebem mais de R$ 1 milhão por mês.

A remuneração é justa, avaliam os ex-árbitros ouvidos pelo Estadão. No entanto, eles apontam a necessidade de haver um salário fixo, e não apenas o pagamento por jogo. “Reduzir por jogo e pôr um fixo para os árbitros dá segurança para os árbitros”, opina Spínola, segundo o qual os donos do apito vivem inseguros e tenso à espera da escala de cada partida. “A CBF é quem melhor paga por jogo e quem pior paga por mês”.

Todos os árbitros são formados, embora a maioria dos que compõem a elite não atuem mais em suas áreas porque obtêm remuneração alta apitando jogos importantes. Juiz que revoltou o Sport ao marcar pênalti para o Palmeiras no último domingo, Bruno Arleu de Araújo é policial militar do Rio de Janeiro. Já Edina Alves é professora de educação física e Flavio Rodrigues de Souza, representante comercial.

Como é em outras ligas

Segundo o The Athletic, LaLiga é quem melhor remunera seus árbitros. Árbitros espanhóis têm salário de US$ 157,1 mil (R$ 944 mil), além de um adicional de US$ 5,31 mil (R$ 31 mil) por partida. No caso de árbitros de vídeo, o valor adicional é de US$ 2,65 mil (R$ 16 mil). Eles ainda recebem US$ 27,68 mil (R$ 166 mil) por ano, referentes a direitos de imagens pelas propagandas no uniforme.

Na Inglaterra, o pagamento é feito conforme uma escala que depende do nível de experiência e classificação do árbitro, podendo pagar entre U$ 92,37 mil (R$ 555 mil), US$ 132,84 mil (R$ 800 mil) e US$ 185,84 (R$ 1,1 mil). Por jogo, há o pagamento de US$ 1,4 mil (R$ 8,4 mil) ou US$ 1,05 mil (R$ 6 mil) em caso de assistentes de vídeo.

A Premier League também oferece um bônus de desempenho e acertos, com base na supervisão do Professional Game Match Officials Limited (PGMOL), órgão responsável pelo desenvolvimento e as nomeações de árbitros no futebol inglês. Conforme o The Athletic, os valores pagos na MLS, liga norte-americana, são similares aos dessas duas ligas europeias. Na sequência, vêm Itália, Alemanha e França.

A Inglaterra é um dos poucos países onde a arbitragem é profissionalizada, com uma estrutura que disponibiliza preparador físico, psicólogo, médico e fisioterapeuta aos juízes. Lá, os contratos são por temporada e, ao final de cada jornada, o desempenho dos profissionais é avaliado. Os piores não têm seus contratos renovados. Em Portugal, apenas árbitros com escudo Fifa podem aderir à profissionalização. A federação do país limita o número argumentando os altos custos com encargos trabalhistas.

*Este texto foi publicado originalmente em 9 de abril e adaptado posteriormente

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O Explica Aí, Rizzo desta semana apresenta três cenários que a confederação projeta, a curto e médio prazo, na tentativa de reduzir as falhas recorrentes

Algumas coisas não mudam no futebol brasileiro ano após ano, rodada após rodada do Brasileirão: as críticas à arbitragem devidos aos erros em profusão, os afastamentos constantes dos profissionais e a falta de vínculo empregatício com as entidades com as quais estão ligados. Nesta temporada, as cobranças se tornaram mais intensas após falhas de juízes que apitaram Red Bull Bragantino 1 x 0 Grêmio e São Paulo 2 x 3 Palmeiras em duelos da 27ª rodada.

As falhas dos árbitros são “combatidas” com as mesmas medidas há anos: a curto prazo, mandando os profissionais para a geladeira por alguns dias; a longo prazo, trocando o comando da arbitragem brasileira. Seguirá a crise no apito se não for profissionalizado o trabalho da arbitragem de futebol no Brasil, avalia Carlos Eugênio Simon, comentarista de arbitragem e ex-árbitro brasileiro que mais apitou jogos de Copas do Mundo (Japão/Coreia do Sul-2002, Alemanha-2006 e África do Sul-2010).

O árbitro é uma figura amadora cobrada como profissional. Eles têm de ter salário e estrutura, com médicos, psicólogos, fisioterapeutas, além de um centro de treinamento para onde eles possam ir convocados pela CBF

Carlos Eugênio Simon

Neste ano, cobrado, o então presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, promoveu uma espécie de reformulação ao demitir Wilson Luiz Seneme, substituído pelo ex-árbitro Rodrigo Martins Cintra, que coordena uma equipe com seis profissionais: Luiz Flávio de Oliveira, Marcelo Van Gasse, Fabrício Vilarinho, Luis Carlos Câmara Bezerra, Eveliny Almeida e Emerson Filipino Coelho.

Crise no apito assombra a CBF, que planeja mudanças Foto: Thais Magalhães/CBF

A CBF também criou um comitê consultivo permanente para acomodar o chamado Comitê Consultivo de Especialistas Internacionais (CCEI). Esse grupo tem o italiano Nicola Rizzoli e o argentino Néstor Pitana, que apitaram as finais da Copa do Mundo de 2014 e 2018, além do brasileiro Sandro Meira Ricci. Cintra está na berlinda, segundo apurou o Estadão.

O fato de essa estrutura ter sido formada na gestão anterior pesa contra o grupo, principalmente após a sequência de erros recentes. A comissão de arbitragem tem atuado em defesa de alguns profissionais, mesmo após falhas claras como as ocorridas no último fim de semana, pelo Brasileirão.

Os afastamentos de Ramon Abatti Abel, árbitro do clássico São Paulo 2 x 3 Palmeiras, e de Lucas Casagrande, que comandou Bragantino 1 x 0 Grêmio, foram decisões tomadas pela direção da CBF após pedidos das diretorias de São Paulo e Grêmio, clubes que reclamaram de erros. Como o presidente, Samir Xaud, está na Ásia com a delegação da seleção brasileira para os amistosos contra Coreia do Sul e Japão, não haverá mudanças até ele retornar, na semana que vem. Há quem defenda, dentro da entidade, esperar o fim da temporada para uma análise “de cabeça fria” sobre o trabalho da comissão.

Idealizador do VAR e por 15 anos o profissional que fazia análise sobre o desempenho dos árbitros dentro da CBF, o baiano Manoel Serapião entende que mandar os juízes pra geladeira é uma medida inócua.

Para mim, ninguém pode ser punido por incapacidade. Tem de ser punido por um ato antiético ou ilegal. Tem de ser corrigido no treinamento. O incapacitado você treina, você acolhe e dá base para ele se fortalecer.

Manoel Serapião, analista de arbitragem

Ele argumenta que o afastamento baixa a autoestima dos juízes, provoca tensão e insegurança e causa uma exposição desnecessária.

“O certo é após cada jogo, você analisar o vídeo com o árbitro. A gente só ataca o problema com punição e vê apenas os erros a cada jogo. Se os árbitros se dedicassem, com filosofia pré-definida, eles estariam em campo mais bem preparados”, avalia Serapião, segundo o qual a CBF tira o árbitro que erra da escala geralmente por causa de “gritaria” de presidentes de clubes, como o do São Paulo, Julio Casares, revoltado com a não marcação de pênalti marcado a favor de seu time, além de outros lances.

Ramon Abatti Abel foi afastado por decisões que tomou em São Paulo 2 x 3 Palmeiras Foto: Werther Santana/Estadão

“A CBF adota uma postura política e abominável. Você só pune o árbitro que prejudicou o clube que grita? E o clube que não grita você deixa pra lá?”, questiona. “A CBF pensa apenas em dar satisfação política”.

Simon concorda que não é eficaz a chamada “reciclagem”. “O árbitro precisa de tranquilidade para exercer sua função na plenitude. Punir árbitro assim não dá tranquilidade”.

Mesmo pensamento tem o ex-árbitro e comentarista de arbitragem da Record, Sálvio Spínola. “A CBF não corrige a arbitragem. Ela pune pra galera”.

Spínola considera que uma das razões da crise no apito é não existir segurança jurídica para os árbitros, uma vez que eles não são vinculados juridicamente a nenhuma entidade. Hoje, Segundo a legislação vigente, juízes e bandeirinhas são trabalhadores autônomos, pagos a cada partida realizada.

Acho que o problema crônico é não haver uma relação formal com as entidades. O árbitro é um ‘camelô’, falta uma relação formal.

Sálvio Spínola, ex-árbitro e comentarista da Record

Mesmo arrecadando mais de R$ 1 bilhão em 2023, a CBF, sob a antiga gestão de Ednaldo, engavetou projeto apresentado por Seneme para construção um centro de treinamento exclusivo para árbitros, como mostrou reportagem da revista Piauí, e cortou verba para qualificar os juízes a partir de uma escola de arbitragem.

“A CBF é a única confederação no mundo que não forma árbitro. Quem forma árbitro no Brasil são as 27 federações. Ela qualifica, dá treinamento, mas é a única que não forma”, constata Spínola.

Serapião e Spínola apontam decisões políticas da CBF, e não técnicas, como outros motivos que impedem o avanço da arbitragem do futebol brasileiro. “A CBF pensa apenas em dar satisfação política. Toda a estrutura precisa mudar”, critica Serapião.

Quanto ganha um árbitro no Brasil?

Os árbitros mais bem remunerados no Brasil são os que têm pertencem ao quadro da Fifa: ganham R$ 7.280,00. Os quem tem escudo da CBF recebem R$ 5.250,00. Já bandeirinha e árbitro de vídeo faturam R$ 4.370,00 (Fifa) e R$ 3.150,00 (CBF) a cada jogo. Os valores foram atualizados neste ano. Há, também, o pagamento de diárias e taxas de deslocamento. Os valores contrastam com os altos salários de algumas das estrelas da elite do futebol brasileiro, que recebem mais de R$ 1 milhão por mês.

A remuneração é justa, avaliam os ex-árbitros ouvidos pelo Estadão. No entanto, eles apontam a necessidade de haver um salário fixo, e não apenas o pagamento por jogo. “Reduzir por jogo e pôr um fixo para os árbitros dá segurança para os árbitros”, opina Spínola, segundo o qual os donos do apito vivem inseguros e tenso à espera da escala de cada partida. “A CBF é quem melhor paga por jogo e quem pior paga por mês”.

Todos os árbitros são formados, embora a maioria dos que compõem a elite não atuem mais em suas áreas porque obtêm remuneração alta apitando jogos importantes. Juiz que revoltou o Sport ao marcar pênalti para o Palmeiras no último domingo, Bruno Arleu de Araújo é policial militar do Rio de Janeiro. Já Edina Alves é professora de educação física e Flavio Rodrigues de Souza, representante comercial.

Como é em outras ligas

Segundo o The Athletic, LaLiga é quem melhor remunera seus árbitros. Árbitros espanhóis têm salário de US$ 157,1 mil (R$ 944 mil), além de um adicional de US$ 5,31 mil (R$ 31 mil) por partida. No caso de árbitros de vídeo, o valor adicional é de US$ 2,65 mil (R$ 16 mil). Eles ainda recebem US$ 27,68 mil (R$ 166 mil) por ano, referentes a direitos de imagens pelas propagandas no uniforme.

Na Inglaterra, o pagamento é feito conforme uma escala que depende do nível de experiência e classificação do árbitro, podendo pagar entre U$ 92,37 mil (R$ 555 mil), US$ 132,84 mil (R$ 800 mil) e US$ 185,84 (R$ 1,1 mil). Por jogo, há o pagamento de US$ 1,4 mil (R$ 8,4 mil) ou US$ 1,05 mil (R$ 6 mil) em caso de assistentes de vídeo.

A Premier League também oferece um bônus de desempenho e acertos, com base na supervisão do Professional Game Match Officials Limited (PGMOL), órgão responsável pelo desenvolvimento e as nomeações de árbitros no futebol inglês. Conforme o The Athletic, os valores pagos na MLS, liga norte-americana, são similares aos dessas duas ligas europeias. Na sequência, vêm Itália, Alemanha e França.

A Inglaterra é um dos poucos países onde a arbitragem é profissionalizada, com uma estrutura que disponibiliza preparador físico, psicólogo, médico e fisioterapeuta aos juízes. Lá, os contratos são por temporada e, ao final de cada jornada, o desempenho dos profissionais é avaliado. Os piores não têm seus contratos renovados. Em Portugal, apenas árbitros com escudo Fifa podem aderir à profissionalização. A federação do país limita o número argumentando os altos custos com encargos trabalhistas.

*Este texto foi publicado originalmente em 9 de abril e adaptado posteriormente

Seu navegador não suporta esse video.

O Explica Aí, Rizzo desta semana apresenta três cenários que a confederação projeta, a curto e médio prazo, na tentativa de reduzir as falhas recorrentes

Algumas coisas não mudam no futebol brasileiro ano após ano, rodada após rodada do Brasileirão: as críticas à arbitragem devidos aos erros em profusão, os afastamentos constantes dos profissionais e a falta de vínculo empregatício com as entidades com as quais estão ligados. Nesta temporada, as cobranças se tornaram mais intensas após falhas de juízes que apitaram Red Bull Bragantino 1 x 0 Grêmio e São Paulo 2 x 3 Palmeiras em duelos da 27ª rodada.

As falhas dos árbitros são “combatidas” com as mesmas medidas há anos: a curto prazo, mandando os profissionais para a geladeira por alguns dias; a longo prazo, trocando o comando da arbitragem brasileira. Seguirá a crise no apito se não for profissionalizado o trabalho da arbitragem de futebol no Brasil, avalia Carlos Eugênio Simon, comentarista de arbitragem e ex-árbitro brasileiro que mais apitou jogos de Copas do Mundo (Japão/Coreia do Sul-2002, Alemanha-2006 e África do Sul-2010).

O árbitro é uma figura amadora cobrada como profissional. Eles têm de ter salário e estrutura, com médicos, psicólogos, fisioterapeutas, além de um centro de treinamento para onde eles possam ir convocados pela CBF

Carlos Eugênio Simon

Neste ano, cobrado, o então presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, promoveu uma espécie de reformulação ao demitir Wilson Luiz Seneme, substituído pelo ex-árbitro Rodrigo Martins Cintra, que coordena uma equipe com seis profissionais: Luiz Flávio de Oliveira, Marcelo Van Gasse, Fabrício Vilarinho, Luis Carlos Câmara Bezerra, Eveliny Almeida e Emerson Filipino Coelho.

Crise no apito assombra a CBF, que planeja mudanças Foto: Thais Magalhães/CBF

A CBF também criou um comitê consultivo permanente para acomodar o chamado Comitê Consultivo de Especialistas Internacionais (CCEI). Esse grupo tem o italiano Nicola Rizzoli e o argentino Néstor Pitana, que apitaram as finais da Copa do Mundo de 2014 e 2018, além do brasileiro Sandro Meira Ricci. Cintra está na berlinda, segundo apurou o Estadão.

O fato de essa estrutura ter sido formada na gestão anterior pesa contra o grupo, principalmente após a sequência de erros recentes. A comissão de arbitragem tem atuado em defesa de alguns profissionais, mesmo após falhas claras como as ocorridas no último fim de semana, pelo Brasileirão.

Os afastamentos de Ramon Abatti Abel, árbitro do clássico São Paulo 2 x 3 Palmeiras, e de Lucas Casagrande, que comandou Bragantino 1 x 0 Grêmio, foram decisões tomadas pela direção da CBF após pedidos das diretorias de São Paulo e Grêmio, clubes que reclamaram de erros. Como o presidente, Samir Xaud, está na Ásia com a delegação da seleção brasileira para os amistosos contra Coreia do Sul e Japão, não haverá mudanças até ele retornar, na semana que vem. Há quem defenda, dentro da entidade, esperar o fim da temporada para uma análise “de cabeça fria” sobre o trabalho da comissão.

Idealizador do VAR e por 15 anos o profissional que fazia análise sobre o desempenho dos árbitros dentro da CBF, o baiano Manoel Serapião entende que mandar os juízes pra geladeira é uma medida inócua.

Para mim, ninguém pode ser punido por incapacidade. Tem de ser punido por um ato antiético ou ilegal. Tem de ser corrigido no treinamento. O incapacitado você treina, você acolhe e dá base para ele se fortalecer.

Manoel Serapião, analista de arbitragem

Ele argumenta que o afastamento baixa a autoestima dos juízes, provoca tensão e insegurança e causa uma exposição desnecessária.

“O certo é após cada jogo, você analisar o vídeo com o árbitro. A gente só ataca o problema com punição e vê apenas os erros a cada jogo. Se os árbitros se dedicassem, com filosofia pré-definida, eles estariam em campo mais bem preparados”, avalia Serapião, segundo o qual a CBF tira o árbitro que erra da escala geralmente por causa de “gritaria” de presidentes de clubes, como o do São Paulo, Julio Casares, revoltado com a não marcação de pênalti marcado a favor de seu time, além de outros lances.

Ramon Abatti Abel foi afastado por decisões que tomou em São Paulo 2 x 3 Palmeiras Foto: Werther Santana/Estadão

“A CBF adota uma postura política e abominável. Você só pune o árbitro que prejudicou o clube que grita? E o clube que não grita você deixa pra lá?”, questiona. “A CBF pensa apenas em dar satisfação política”.

Simon concorda que não é eficaz a chamada “reciclagem”. “O árbitro precisa de tranquilidade para exercer sua função na plenitude. Punir árbitro assim não dá tranquilidade”.

Mesmo pensamento tem o ex-árbitro e comentarista de arbitragem da Record, Sálvio Spínola. “A CBF não corrige a arbitragem. Ela pune pra galera”.

Spínola considera que uma das razões da crise no apito é não existir segurança jurídica para os árbitros, uma vez que eles não são vinculados juridicamente a nenhuma entidade. Hoje, Segundo a legislação vigente, juízes e bandeirinhas são trabalhadores autônomos, pagos a cada partida realizada.

Acho que o problema crônico é não haver uma relação formal com as entidades. O árbitro é um ‘camelô’, falta uma relação formal.

Sálvio Spínola, ex-árbitro e comentarista da Record

Mesmo arrecadando mais de R$ 1 bilhão em 2023, a CBF, sob a antiga gestão de Ednaldo, engavetou projeto apresentado por Seneme para construção um centro de treinamento exclusivo para árbitros, como mostrou reportagem da revista Piauí, e cortou verba para qualificar os juízes a partir de uma escola de arbitragem.

“A CBF é a única confederação no mundo que não forma árbitro. Quem forma árbitro no Brasil são as 27 federações. Ela qualifica, dá treinamento, mas é a única que não forma”, constata Spínola.

Serapião e Spínola apontam decisões políticas da CBF, e não técnicas, como outros motivos que impedem o avanço da arbitragem do futebol brasileiro. “A CBF pensa apenas em dar satisfação política. Toda a estrutura precisa mudar”, critica Serapião.

Quanto ganha um árbitro no Brasil?

Os árbitros mais bem remunerados no Brasil são os que têm pertencem ao quadro da Fifa: ganham R$ 7.280,00. Os quem tem escudo da CBF recebem R$ 5.250,00. Já bandeirinha e árbitro de vídeo faturam R$ 4.370,00 (Fifa) e R$ 3.150,00 (CBF) a cada jogo. Os valores foram atualizados neste ano. Há, também, o pagamento de diárias e taxas de deslocamento. Os valores contrastam com os altos salários de algumas das estrelas da elite do futebol brasileiro, que recebem mais de R$ 1 milhão por mês.

A remuneração é justa, avaliam os ex-árbitros ouvidos pelo Estadão. No entanto, eles apontam a necessidade de haver um salário fixo, e não apenas o pagamento por jogo. “Reduzir por jogo e pôr um fixo para os árbitros dá segurança para os árbitros”, opina Spínola, segundo o qual os donos do apito vivem inseguros e tenso à espera da escala de cada partida. “A CBF é quem melhor paga por jogo e quem pior paga por mês”.

Todos os árbitros são formados, embora a maioria dos que compõem a elite não atuem mais em suas áreas porque obtêm remuneração alta apitando jogos importantes. Juiz que revoltou o Sport ao marcar pênalti para o Palmeiras no último domingo, Bruno Arleu de Araújo é policial militar do Rio de Janeiro. Já Edina Alves é professora de educação física e Flavio Rodrigues de Souza, representante comercial.

Como é em outras ligas

Segundo o The Athletic, LaLiga é quem melhor remunera seus árbitros. Árbitros espanhóis têm salário de US$ 157,1 mil (R$ 944 mil), além de um adicional de US$ 5,31 mil (R$ 31 mil) por partida. No caso de árbitros de vídeo, o valor adicional é de US$ 2,65 mil (R$ 16 mil). Eles ainda recebem US$ 27,68 mil (R$ 166 mil) por ano, referentes a direitos de imagens pelas propagandas no uniforme.

Na Inglaterra, o pagamento é feito conforme uma escala que depende do nível de experiência e classificação do árbitro, podendo pagar entre U$ 92,37 mil (R$ 555 mil), US$ 132,84 mil (R$ 800 mil) e US$ 185,84 (R$ 1,1 mil). Por jogo, há o pagamento de US$ 1,4 mil (R$ 8,4 mil) ou US$ 1,05 mil (R$ 6 mil) em caso de assistentes de vídeo.

A Premier League também oferece um bônus de desempenho e acertos, com base na supervisão do Professional Game Match Officials Limited (PGMOL), órgão responsável pelo desenvolvimento e as nomeações de árbitros no futebol inglês. Conforme o The Athletic, os valores pagos na MLS, liga norte-americana, são similares aos dessas duas ligas europeias. Na sequência, vêm Itália, Alemanha e França.

A Inglaterra é um dos poucos países onde a arbitragem é profissionalizada, com uma estrutura que disponibiliza preparador físico, psicólogo, médico e fisioterapeuta aos juízes. Lá, os contratos são por temporada e, ao final de cada jornada, o desempenho dos profissionais é avaliado. Os piores não têm seus contratos renovados. Em Portugal, apenas árbitros com escudo Fifa podem aderir à profissionalização. A federação do país limita o número argumentando os altos custos com encargos trabalhistas.

*Este texto foi publicado originalmente em 9 de abril e adaptado posteriormente

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