Nelson Rodrigues dizia que um jogador com problemas emocionais, mentais e/ou pessoais não conseguiria chutar uma bola ou chupar um Chicabon. Ele repetia tanto essa ideia que não tem como colocar entre aspas. A miopia o impedia de ver o futebol como ele era no Maracanã, ou mesmo na TV a lenha da época. Mas o que ele enxergava do jogo ia muito além do campo. Como o esporte sempre será algo maior do que a bola que rola dentro das “quatro linhas” tão conspurcadas nestes trópicos.
O que Nelson sentia e falava então parecia - infelizmente - coisa mais “burra” do que o videoteipe e a unanimidade, nas célebres definições dele. Tanto que, em 1958, o psicólogo João Carvalhaes foi achincalhado pelo retrógrado mundinho da pelota por ajudar a comissão técnica da CBD a ser campeã mundial pela primeira vez, em 1958.
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O professor foi detonado também com notícias plantadas e deturpadas. Carvalhaes em momento algum sugeriu o corte de Garrincha depois do exame psicotécnico. Apenas traçou o perfil psicológico do genial Mané e constatou cientificamente o que o mundo sabia: ele era uma criança que jogava bola como gente grande, driblando certo por pernas tortas, mesmo com mentalidade do passarinho de quem ganhou o apelido.
Psicólogos foram e são demonizados desde sempre por treinadores, atletas, outros cientistas do esporte, cartolas e imprensa. Como são ainda diariamente negligenciados por nós mesmos que tememos assumir fantasmas e limites, crenças limitantes, traumas infantis e adultos, e todos os nossos problemas dos quais fugimos. Escamoteamos. Chutamos. Não tratamos. Destratamos.
Depois da pandemia, a coisa ficou ainda pior. E nós não melhoramos. E não tratamos os transtornos que impediram Tite de dizer “sim” ao amor profissional dele - Corinthians. E maltratamos o Adenor querendo e criando outras justificativas para o dolorido “não” dele. Resposta que não tem remédio. Ou até tem: mas passa por vários processos e procedimentos que não queremos tomar. Adotar. Ou pior: respeitar.
Enquanto seguirmos não dando bola aos sintomas da mente mais do que do corpo, continuaremos nos matando em qualquer campo. Quando não nos matamos mesmo nos casos extremos.
E quem acha que é “mimimi” não morreu por dentro; nem nasceu. Até por a pessoa que usa o termo teletubbie “mimimi” ser o próprio mimimizento: alguém que se dói com a dor alheia, em vez de a respeitar.
Vivemos dias doentes. O que não tem vacina. E nem cura quando não aceitamos médicos e remédios.