O que estão compartilhando: que os canais da Transposição do São Francisco estão sem água em Mauriti (CE) e que a sede voltou ao Nordeste brasileiro.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Assim como as cascatas da Barragem de Jati (CE), os canais em Mauriti estão sem água porque o governo cearense ainda não pediu água da Transposição ao Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional (MIDR) em 2025. Os reservatórios da região estão com volume médio de água armazenada de 62,95%. Segundo a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh), o município de Mauriti é “plenamente abastecido por uma bateria de poços e não passa por problemas de desabastecimento atualmente”.
O Verifica procurou o autor do vídeo, mas não recebeu resposta até o fechamento deste texto.
Saiba mais: O vídeo investigado foi gravado por um blogueiro em uma das margens de um canal da Transposição – como é popularmente conhecido o Projeto de Integração do São Francisco (PISF). Ele segura uma placa de papelão com a frase “A sede no Nordeste voltou”. Ao fundo, é possível ver uma ponte e uma pessoa que também estaciona um carro do outro lado do canal.
O autor do conteúdo diz não conhecer o homem do outro lado da margem, mas o questiona sobre a água, enquanto o outro responde que a água está “trancada nas barragens” e que não é liberada por “falta de gestão”. O homem que fez este comentário foi vereador de Mauriti pelo PDT de 2017 a 2020 e hoje figura como sócio em uma empresa de perfuração de poços com sede em Mauriti.
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Ceará ainda não pediu água da Transposição este ano
Nesta quarta-feira, 14, o Verifica mostrou que as cascatas da Barragem de Jati, também no Ceará, estão sem água desde o início de abril porque o Estado ainda não pediu água do PISF ao governo federal. Procurado, o Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional informou que o caso é o mesmo de Mauriti, no Eixo Norte da Transposição.
“O trecho mostrado nas imagens está seco porque não há pedidos de entrega de água por parte dos estados”, disse a nota divulgada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom).
“Além disso, o trecho seco está entre os reservatórios Boi II, que atualmente apresenta volume de 50% da capacidade total de armazenamento (13.242.913,32 m³ de água), e Morros, com 18% da capacidade operacional (855.562,17 m³ de água)”, informou.
A falta de demanda se explica porque a água da Transposição do São Francisco não serve para fazer um abastecimento ininterrupto dos locais por onde passam os canais. O objetivo é suprir a demanda dos Estados atendidos quando não for possível atender a população com os recursos hídricos locais.
A Secretaria dos Recursos Hídricos do Estado do Ceará informou que, “até o presente momento do ano de 2025, não houve necessidade de demanda de água proveniente do Projeto de Integração do Rio São Francisco para o abastecimento hídrico no Estado”.
O planejamento de demanda de água da Transposição é feito anualmente e aprovado pela Agência Nacional de Águas (ANA). Nele, os Estados apontam quando e quanto de vazão de água devem solicitar por mês em cada reservatório.
Para este ano, não há demanda mínima de água para o reservatório Boi II, que atende a região. Mas há pedido de vazão máxima de 0,200 m³/s até junho, o que indica que, se houver necessidade, é possível pedir a liberação de água do PISF ao MIDR até este limite. Enquanto não há demanda, o ministério faz manutenção em outro reservatório perto dali, o de Atalho.
Ainda de acordo com a Secretaria dos Recursos Hídricos do Estado do Ceará, o que existe atualmente é uma liberação mínima de vazão apenas para manter uma lâmina d’água nos canais, o que não se configura como um aporte significativo de água da Transposição. Essa lâmina d’água fica visível nesta imagem de satélite captada pela plataforma Copernicus, da União Europeia, em 2 de maio de 2025:
Nível dos reservatórios é satisfatório, apontam dados
De acordo com a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará, nenhum município do Estado está em racionamento de água atualmente. Questionada como o município de Mauriti é abastecido, a Cogerh explicou que a cidade recebe água de uma cadeia de poços e que não há desabastecimento por lá.
Uma das razões para que o Ceará não tenha solicitado água da Transposição é o fato de os principais reservatórios do Estado estarem com níveis satisfatórios, como é o caso do Castanhão e do Orós, que atingiu 100% do volume recentemente, o que não acontecia há 14 anos.
O canal da Transposição que passa por Mauriti, além disso, fica entre os reservatórios de Boi II (com 50% da capacidade de armazenamento) e Morros (18% da capacidade). Os reservatórios do Eixo Norte, como um todo, estão com acumulação média de água de 74%, de acordo com o MIDR.
O município conta, também, com dois açudes dentro de seus limites: o Quixabinha está com 14,01% da capacidade, o que é considerado um volume crítico, conforme este mapa da Cogerh. O outro açude, chamado Gomes, tem 61,62% do volume, o que é considerado uma situação confortável. Próximo dali fica o açude Atalho, com 52,41% do volume acumulado, também tido como um volume confortável.
Se considerado o volume médio de todos os açudes da região hidrográfica do Salgado, onde fica Mauriti, o acumulado nesta quinta-feira, 15, era de 62,95% da capacidade de armazenamento.
Nesta mesma região, de fevereiro a maio, choveu uma média de 400,1 a 700 mm, de acordo com dados preliminares da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme).