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No programa fronteiras, Rodrigo da Silva examina o processo de apuração das eleições brasileiras
Desde a primeira eleição de Donald Trump, há uma década, a imprensa noticia o fenômeno: a ascensão eleitoral de uma nova direita pós-liberal.
Você já conhece os nomes: Orbán, Marine Le Pen, AfD, JD Vance, Nigel Farage, Jair Bolsonaro.
O crescimento do grupo é real. Segundo a PopuList, quase um em cada quatro eleitores europeus vota hoje nesse grupo. Em 2016, era um em cada nove.
O problema é que crescer eleitoralmente é uma coisa, governar é outra. Desde 2016, a nova direita não chefiou um único governo nacional na Alemanha, na França, no Reino Unido, na Áustria, na Holanda ou em qualquer país nórdico. E quando ficou em primeiro, foi barrada: o FPÖ, o Partido da Liberdade austríaco, venceu em 2024, com 28,85% dos votos, mas ficou fora do governo. No mesmo ano, o partido de Le Pen liderou o primeiro turno das eleições legislativas francesas, mas terminou em terceiro na hora de contar as cadeiras.
A nova direita também não parece muito boa disputando segundo turno. Le Pen teve 33% em 2017 e 41% em 2022. George Simion até chegou a vencer o primeiro turno na Romênia, em 2025, mas perdeu o segundo. Agora é Flávio Bolsonaro quem repete o ciclo.
É verdade que há exemplos na direção contrária. Trump venceu duas vezes; Javier Milei e Jair Bolsonaro chegaram ao poder na América Latina. Mas repare contra quem. Milei derrotou o ministro da Economia de um país com uma inflação de três dígitos. Jair Bolsonaro derrotou o campeão de derrotas eleitorais – Fernando Haddad – quando Lula estava preso. A nova direita parece vencer quando a alternativa é uma esquerda desgastada.
E mesmo quando governa, perde. Trump perdeu em 2020, Bolsonaro em 2022, o PiS em 2023. Não há projeto que tenha resistido ao tempo.
Dos 27 governos da União Europeia, a nova direita chefia hoje apenas um: o de Andrej Babiš, na Tchéquia – que acaba de passar por um massacre eleitoral. No Parlamento Europeu eleito em 2024, os três grupos que reúnem esses partidos somavam 187 cadeiras. Só o Partido Popular Europeu, da centro-direita tradicional, tinha 188.
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Compare com a direita tradicional. Os democratas-cristãos da CDU chefiaram o governo alemão em mais de 53 dos 77 anos da República Federal. Margaret Thatcher venceu três eleições seguidas; Helmut Kohl e Angela Merkel, quatro cada um. Desde 2016, as reeleições da nova direita se contam nos dedos de uma mão.
Em nome da alternância de poder, o Brasil não precisa apenas de uma direita que saiba perder – mas de uma direita que saiba ganhar.
O que falta no nosso país não é uma direita envergonhada dos seus próprios valores, em consonância com o establishment político, mas de uma direita coerente com a tradição do pensamento conservador: que dialogue diretamente com as dores de um eleitor de carne e osso, não apenas com o usuário condenado pelo vício das guerras culturais alienantes das redes sociais, onde a lacração gera likes ao custo do aumento da rejeição política no mundo real.
Mais do que em qualquer outro momento da história, o Brasil precisa de uma direita cética com a concentração de poder e o populismo, em condições de estabelecer prioridades e compreender que os interesses de um país estão muito acima das ambições de um clã.
O Brasil precisa de uma direita comprometida com a agenda econômica que elegeu e reelegeu partidos de direita mundo afora ao longo de décadas – que abandone o populismo fiscal e as promessas irreais que mais parecem colocar o eleitor num leilão de contos de fadas. Uma direita que não entregue à esquerda o controle sobre o pobre e o preto, as minorias sexuais e as mulheres, o trabalhador e a periferia urbana; que rejeite o anti-intelectualismo e a truculência, e seja capaz de superar a viuvez do período militar e se libertar do identitarismo do homem branco evangélico.
Nós precisamos, enfim, de uma direita que seja verdadeiramente comprometida com a liberdade – que não recorra à liberdade apenas como um slogan político – e saiba traduzir essa defesa em possibilidades concretas de melhoria de vida. Que compreenda a frustração de quem muito trabalha e pouco tem, e encontre algo a oferecer ao brasileiro médio além de um inimigo para odiar. De uma direita que trate o dinheiro público com respeito por quem o sustenta e por quem depende dele, e que entenda que há uma exigência moral na tarefa de fazer uma escola ensinar, um posto de saúde atender e uma obra ser entregue. É também dever dos conservadores cuidar de quem mais precisa.
Alguém diria que o Supremo não é imparcial; que a imprensa não é neutra; que o petismo conta com a simpatia do establishment. Eu ouvi e conheço todas as críticas. Mas autocomiseração não conquista a vontade popular. E neste momento, o que o país precisa não é de uma direita desconfiada e reativa, mas de uma direita que saiba trilhar o caminho para alternar o poder.
A esquerda permanecerá elegendo e reelegendo presidentes enquanto não houver uma direita que entenda que o brasileiro médio não é oprimido pela cultura woke, mas por problemas do mundo real que demandam soluções do mundo real que vão muito além da carteirada de um sobrenome.
Edmund Burke, o pai do conservadorismo moderno, escreveu em 1790 que um Estado sem os meios de alguma mudança está sem os meios da sua conservação. A lição vale para os partidos de direita.
É a hora de tirar as crianças da sala e devolver os adultos. No mundo inteiro, a direita pós-liberal aprendeu a ganhar o primeiro turno e perder reeleições. A tradicional é quem tem condições de vencer o segundo – e governar de verdade depois disso.