O fogo vai atravessar o Atlântico. Depois de reunir dezenas de cozinheiros em Cascais, o festival português Chefs on Fire confirma sua chegada oficial a São Paulo em abril de 2027, em data e local ainda a definir. Criado em 2019 pelo empresário Gonçalo Castel-Branco, o projeto aposta em uma regra simples: cozinhar exclusivamente com fogo e fumaça, em uma festança que junta gastronomia, música e convívio, algo que o criador chama de “fire dining”.
Na última edição, no fim de semana passado (19 e 20 de setembro), o Parque Marechal Carmona recebeu mais de 40 chefs em dois dias de maratona, do meio-dia à meia-noite. Em meio a 13 estrelas Michelin, o Brasil marcou presença com Nelson Soares (Sult), Liz Almeida (Pils), Angélica Salvador (In Diferente), Michele Marques (Mercearia Gadanha), Nathalie Inês (Sála) e a confeiteira Juliana Penteado.
“Foi a melhor edição de sempre: mais chefs internacionais, mais mulheres, mais brasileiros, mais público e mais patrocinadores. O local novo é maravilhoso. Não podia estar mais orgulhoso”, comemora Gonçalo. E emenda: “Depois de descansar dois ou três dias, o próximo passo é agarrar o desafio de São Paulo. Receber tantos jornalistas e cozinheiros brasileiros nos mostrou que a cidade vai nos receber de braços abertos”.
Foram quase 30 receitas por dia, entre doces e salgados, além de coquetéis, cervejas e vinhos. No sábado, logo na entrada do prado, os sames de bacalhau de João Rodrigues (Canalha) chegaram supermacios, numa “dobrada” de grão-de-bico coroada com ovo frito. Debaixo de 30°C, eram colagenudos, colantes e totalmente irresistíveis. A bexiga natatória do bacalhau, ingrediente histórico da cozinha dos antigos pescadores da Terra Nova, era o charme do prato.
Na estação ao lado, Vasco Coelho Santos (Euskalduna Studio, no Porto) se inspirou em tradições turcas para assar cabrito com tudo dentro, num espeto giratório. Torradinho por fora, veio com batata e cinza. Profissionais se divertindo a sério. Fazendo pratos sem condescendência ao calor ou ao que é mais pop. Foi queimar a largada? Ah, foi.
Na descida para a praia, o risco só aumentava. Zé Paulo Rocha (O Velho Eurico), chef que virou um dos xodós da cena gastronômica lisboeta, preparou 1.500 unidades do sanduíche de salada de atum, um belisquete praieiro tradicional dos portugueses. A estação vizinha tinha ostras na brasa. Dava para pegar um de cada, uma garrafa de vinho e se assentar na areia, sobre cangas e almofadas.
Em outro canto, havia o ótimo taco vegano de aspargos com avelã de João Sálio (Mãe). Num novo gramadão, brilhava o peixe charuteiro fumado com salmorejo, melancia e hortícolas assadas de Pedro Pena Bastos (Broto); mais adiante, pizza de kimchi; quase escondido croissant com sorvete e nectarinas assadas.
No domingo, a sequência continuou: espetada de língua e pancetta com iogurte e salada de João Magalhães (Bar Alimentar); peixe português com vichyssoise, cogumelos e tutano, preparado por Ricardo Costa (do duplamente estrelado The Yeatman); e o iwashi yaki sando, sanduíche japonês de sardinha grelhada de Fagner Buzinhani (GoJuu).
Mais: a absurdidade do shawarma de polvo de Louise Bourrat (Mammarua), vencedora do Top Chef França em 2022. A chef empilhou tentáculos do molusco no espeto giratório vertical, como se faz com a carne de cordeiro nos clássicos shawarmas, e serviu as lascas com salada de tomate, garum e la-yu.
A graça está justamente nessa sucessão de descobertas e no tête-à-tête com as chamas e com quem cozinha. Não é um restaurante a céu aberto, tampouco um festival de música com comida de apoio. Também não é um passeio barato, assim como nenhum Lollapalooza é: o bilhete diário custava €85, com direito à entrada, cinco pratos de 140 gramas, duas bebidas e acesso livre aos shows; o passe para os dois dias saía por €200, com 15 pratos e dez bebidas.
Ainda não dá para saber quanto custará nem como será a edição paulistana. No entanto, depois do sucesso em Madri e do pop-up no Rio de Janeiro, a promessa de um banquete bombástico do Chefs on Fire em São Paulo deve se cumprir.