Uma propina de R$ 200 mil em dinheiro vivo foi estocada em uma caixa de sapatos destinada ao ex-deputado federal Uldurico Júnior, preso no último dia 16, na Operação Duas Rosas. A investigação do Ministério Público da Bahia apura a fuga em massa de 16 presidiários, entre eles o líder do Primeiro Comando de Eunápolis, braço do Comando Vermelho no sul da Bahia.
Segundo a investigação, o recipiente de papelão com as cédulas foi apanhado pessoalmente pela então diretora do presídio, Joneuma Silva Neres, que o entregou na residência do pai do ex-parlamentar, Uldurico Alves Pinto, em Teixeira de Freitas. Antes de chegar às mãos de Uldurico Júnior, a caixa foi esvaziada parcialmente – R$ 150 mil teriam ficado sob posse de Uldurico pai, que também foi deputado federal.
O Estadão busca contato com a defesa de pai e filho. O espaço está aberto.
As informações sobre o trajeto percorrido pela caixa de sapatos por 160 quilômetros – distância de Eunápolis a Teixeira de Freitas – estão no inquérito Duas Rosas, ao qual o Estadão teve acesso.
Joneuma, que dirigiu por um ano e meio a penitenciária de Eunápolis, contou que Júnior a informou que “necessitava com urgência de um adiantamento de R$ 350 mil para a prestação de contas e em razão de dívidas que possuía”.
Segundo a Promotoria, verificou‑se que a expressão “rosa” era utilizada de forma codificada para se referir a dinheiro, aparecendo em diálogos e tratativas sob termos como “as rosas”, “quando as rosas vão chorar” ou “choram as rosas”, em alusão ao pagamento dos valores negociados.
Ao todo, Júnior receberia R$ 2 milhões em troca da execução do plano de fuga de Ednaldo Pereira Souza, o “Dadá”, líder da facção, o que ocorreu no dia 22 de dezembro de 2024. O ex-deputado Geddel Vieira Lima também é alvo do Ministério Público da Bahia. O Estadão teve acesso a documentos que citam expressamente “o investigado Geddel”. As suspeitas dos promotores é que o ex-deputado seria destinatário de 50% do valor global da propina que seria paga por Ednaldo “Dadá”. Geddel nega ligação com o esquema.
‘Adiantamento’
“Dadá” aceitou adiantar o pagamento de R$ 200 mil, antes mesmo da data de sua fuga, segundo a investigação. A entrega do dinheiro do adiantamento ocorreu no dia 4 de novembro de 2024, à noite. Joneuma dirigiu-se sozinha a uma residência no bairro Juca Rosa, que possuía um adesivo com o nome “Cley” colado no muro. Ela parou o carro em frente à casa e uma pessoa de confiança de “Dadá” entregou-lhe a caixa de sapatos contendo o dinheiro.
No dia seguinte, Joneuma enviou uma mensagem de WhatsApp ao pai de Uldurico Júnior, perguntando onde deveria encontrá-lo para entregar o dinheiro. Uldurico Alves Pinto respondeu que a então diretora do presídio deveria ir à sua residência, no bairro Santa Rita, em Teixeira de Freitas.
Com Uldurico pai estavam na residência a madrasta de Júnior, uma funcionária doméstica e um “assessor” que trabalha com a família. O “assessor” conferiu o dinheiro, sendo que R$ 150 mil permaneceram com o pai do ex-parlamentar.
“É possível confirmar (a visita de Joneuma), através de ERB”, afirmam os promotores do Gaeco, unidade do Ministério Público que combate o crime organizado. Segundo a investigação, depois de passar na casa de Uldurico pai, ela seguiu diretamente para uma agência do Banco do Brasil.
Joneuma diz que depositou R$ 21,6 mil na conta de Júnior no dia 5 de novembro e fez um Pix de R$ 24 mil de sua conta para a conta de Gustavo Frazão, aliado do ex-deputado.
Papel de pão
Em nova abordagem, passados alguns dias, em 25 de novembro de 2024, Uldurico Júnior requereu mais um “adiantamento” a Ednaldo “Dadá” no valor de R$ 20 mil. Segundo Joneuma, como o faccionado informou que não tinha o dinheiro, ela própria fez um empréstimo a Júnior. Entregou R$ 15 mil em dinheiro para a mãe de um assessor de Júnior que foi à sua casa para buscar a quantia. E também realizou depósito via Pix de R$ 5 mil para a mãe do assessor. “Tal fato restou comprovado no comprovante de Pix extraído do celular de Joneuma”, indicam os promotores nos autos da Operação Duas Rosas.
Joneuma foi ressarcida por Ednaldo “Dadá” via o mesmo modelo adotado para ocultar o dinheiro. Ele enviou uma pessoa de sua confiança para entregar uma caixa de sapato com o dinheiro em espécie à então diretora do presídio, na frente do Hotel Oceania, no dia 2 de dezembro de 2024. Ela estava sozinha quando o emissário de Ednaldo “Dadá” passou de carro e entregou-lhe a caixa com R$ 15 mil em espécie.
Os R$ 5 mil restantes ela recebeu em dinheiro pelas mãos de “Cley da Autoescola”, que foi candidato a vereador de Eunápolis em 2024. Ele repassou a quantia em espécie “enrolada em papel de pão, em frente à agência do Banco do Brasil de Eunápolis, no dia 2 de dezembro de 2024″.