O acesso aos gastos do cartão corporativo da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro (PL) vieram a público, no dia 12 de janeiro, a partir de uma decisão do Tribunal de Contas da União (TCU). As informações foram obtidas pela Fiquem Sabendo – agência de dados públicos especializada na Lei de Acesso à Informação (LAI) – e compartilhadas em primeira mão com o Estadão.
Inicialmente, com a resposta do primeiro pedido – uma base de dados extensa apenas com os gastos –, chegou-se à conclusão de que a gestão Bolsonaro usou o cartão corporativo para pagar R$ 27,6 milhões em despesas da presidência. Posteriormente, o governo liberou também as notas fiscais dos gastos, o que ajudou esclarecer algumas informações sobre as despesas, com a descrição do que foi comprado e a quantidade.
Na comparação com gestões anteriores, Bolsonaro está longe de ser o ex-presidente que mais gastou com cartão corporativo. O topo da lista cabe ao primeiro primeiro mandato de Lula, que, em valores corrigidos pela inflação pagou R$ 59,1 milhões entre 2003 e 2006 por meio do cartão; no segundo mandato foram R$ 47,9 milhões. Entre 2011 e 2014, Dilma Rousseff gastou R$ 42,4 milhões.
Bolsonaro foi, entretanto, o único presidente da República a dizer publicamente que não fazia uso do cartão. Agora, com a divulgação dos extratos, sabe-se que isso não é verdade e é possível entender o que ele fazia com o dinheiro dos contribuintes em sua conta privativa de presidente. Os valores referentes ao ex-chefe do Executivo podem ser maiores, porque nem todos os dados de despesas com cartão foram consolidados.
Confira os gastos que já foram divulgados:
Sorvetes e cosméticos
A predileção por doces aparece em diversas notas fiscais. Em cinco sorveterias foram feitas 62 compras, que somaram R$ 8,6 mil. Em uma única vez, foram gastos R$ 540. Não é ilegal comprar sorvete com o cartão corporativo - mas esse recurso deve ser usado para ações fundamentais ao governo, principalmente em deslocamentos – e todas as sorveterias listadas no sistema são de Brasília, assim como as 11 despesas em lojas de cosméticos, que somam R$ 1 mil.
Panificadoras também se destacam nas notas fiscais, com gastos que passavam de R$ 10 mil – quase oito salários mínimos de uma única vez. Por 20 vezes ao longo do mandato de Bolsonaro, foram realizados gastos significativos em uma das filiais da padaria carioca Santa Marta. Confira outras despesas.
Gastos elevados coincidem com motociatas
Os gastos no cartão corporativo apontam que foram registradas despesas expressivas durante motociatas - os passeios de moto do então presidente com seus apoiadores. Ao menos três exemplos revelam isso. Para chegar a essa conclusão, o Estadão pesquisou registros de notas fiscais em datas próximas aos eventos, de caráter nitidamente político. Geralmente, os passeios eram associados a outros compromissos da agenda oficial, mas pairavam dúvidas sobre os custos relacionados a essas atividades.
Por exemplo, na véspera de uma motociata realizada no Rio de Janeiro, em maio de 2021, foram gastos R$ 33 mil em uma panificadora. Já entre os dias 9 e 10 de julho do mesmo ano, na Serra Gaúcha e em Porto Alegre – onde ele foi seguido de moto por apoiadores –, foram mais R$ 166 mil no cartão corporativo, em 46 despesas, concentradas em hospedagem, alimentação e combustível. Outro caso aconteceu em Ribeirão Preto (SP), em maio de 2022, onde foi feito pagamento de R$ 16 mil em uma padaria. Confira mais detalhes.
Viagens à praia
O cartão corporativo custeou 11 viagens de férias de Bolsonaro à praia do Guarujá. Ao longo de seu mandato, foram R$ 1,46 milhão gastos somente no hotel Ferraretto, no centro da cidade, a um quarteirão da praia. O Ferraretto chega a cobrar R$ 1 mil pela diária. Em outro hotel, na Praia do Tombo, o cartão corporativo custeou R$ 291 mil em diárias. Este, mais espaçoso, tem uma suíte de frente para o mar que chega a custar R$ 2 mil. O Estadão visitou o local; veja mais informações.
Custo médio de passeios foi de R$ 100 mil
Toda vez que Jair Bolsonaro decidia viajar a lazer ou passear de moto por capitais do País ele gerava um custo médio de R$ 100 mil para os cofres públicos. Isso porque ele era acompanhado por até 300 militares que davam suporte no local de destino ao ex-presidente. Um passeio de moto de Bolsonaro no Rio, por exemplo, em maio de 2021, custou R$ 116 mil, contando com o suporte local de policiais militares, tropa de choque, socorristas e agentes do Exército. Confira outros eventos e suas despesas.
Despensa farta na residência oficial
As notas fiscais das despesas da residência oficial mostram que o cardápio era composto por cortes nobres de carne, camarão e bacalhau. No dia 7 de junho de 2019, foram comprados 6,3 kg de picanha maturatta, 15 kg de filé mignon sem cordão e ainda peças de costela defumada, batata palha, potes de palmito e azeitona. A conta deu R$ 1.443,07, com R$ 147,28 em descontos.
Os pescados também aparecem na lista de compras da residência oficial. Em abril de 2019 foram adquiridos 4,2 kg de camarão rosa, 7,2 kg de bacalhau e 10,8 kg de filé de robalo ao preço de R$ 2.241,55. No intervalo de um ano foram ao menos 14 compras de picanha, 47 de mignon e 15 de bacalhau. Essas despesas eram frequentes – às vezes mais do que uma vez na semana. Confira as notas fiscais na íntegra.
Viagens de Michelle, Carlos e Jair Renan
Notas fiscais do cartão corporativo revelam que o governo gastou R$ 16,2 mil para bancar a hospedagem de uma equipe de servidores que foi para Alagoas dar proteção a Michelle Bolsonaro, numa viagem de lazer na região conhecida como rota ecológica do litoral nordestino, no município de São Miguel dos Milagres. Agentes de segurança que a acompanharam tiveram as despesas pagas com o cartão.
Os documentos apontam ainda gastos do mesmo gênero em viagens privadas de Carlos e Jair Renan, filhos de Jair Bolsonaro. Em abril de 2021, Jair Renan foi para Resende (RJ). Os custos da equipe de segurança também foram pagos com o cartão corporativo. Situação semelhante ocorreu Carlos, quando viajou a Brasília e também foi acompanhado de seguranças. Somente em abril de 2021 há registros de notas emitidas em sete viagens de parentes do então presidente. Confira imagens das notas fiscais.