Passada a festa da vitória e curada a ressaca, o presidente Lula tem de retomar o fôlego para enfrentar adversários de peso: a crise fiscal, o mercado financeiro, o agronegócio e um bolsonarismo forte, mas sem liderança. Logo, uma força à deriva, desgovernada, com o único objetivo de infernizar o governo.
O Brasil caminha para 2027 com um desequilíbrio descomunal entre receitas e gastos, uma herança maldita que Lula deixa para o seu próprio quarto mandato e deu o empurrão final para a turma da Faria Lima deixar o pragmatismo de lado, apostar errado e perder com Flávio Bolsonaro.
Lula venceu, a Bolsa despenca e o dólar dispara. Só isso já sugere um início conturbado, com falta de soluções e excesso de confusão e uma pergunta no ar: Lula vai cumprir as promessas de gastos sem receita, para manter apoio popular, ou vai descumpri-las, cortando despesas e aumentando receitas, pela governabilidade?
O Congresso, dominado pelo PL bolsonarista, está a postos à espera da resposta, pronto para atazanar Lula qualquer que seja ela. Antes, porém, o bolsonarismo precisa resolver sua própria crise, com Jair Bolsonaro com chances mínimas de se livrar da prisão e da tornozeleira, e Flávio sob o risco de seguir o mesmo caminho.
Flávio escapou de investigações sobre rachadinhas e lavagem de dinheiro quando o pai era presidente, demitiu o chefe da PF no Rio, o diretor-geral da corporação e o ministro da Justiça. Eleito agora, escaparia de novo, pois presidentes não podem ser investigados por atos anteriores ao mandato. Derrotado, já começa a sentir a barra.
Alexandre de Moraes (que está nas mãos do Congresso, não de Lula) mandou apreender seu passaporte, para evitar que fosse para os EUA, deixando claro que as investigações vão em frente. Material não falta contra Flávio. E ele perdeu uma boa chance de, na primeira fala após a derrota, se colocar como líder, como estadista – por menos que o seja de fato.
Com seu sobrenome, metade dos votos do País, maioria no Congresso e nos governos estaduais, Flávio cometeu o grave erro de tirar a fantasia e, em vez de capitalizar os ganhos, que não são poucos, mostrou-se um mau perdedor e expôs o DNA golpista da família, pedindo a anulação da eleição. Os aliados mais sensatos tentam dissuadi-lo e ele pode ficar falando sozinho.
Sem o comando inquestionável de Jair e a frustrada liderança de Flávio, a direita tem uma boa chance de se reorganizar em torno de políticos mais confiáveis e em bases mais respeitáveis e menos perigosas para o País.
Enquanto a esquerda comemora a vitória de Lula, mas lambe as feridas da derrota do PT para o Congresso e para os governos, que deixou um lastro de dúvidas sobre seu futuro. E a pressão já começou: quem será o sucessor de Lula no partido?
Entre uma direita forte, mas sem liderança, e uma esquerda fraca, mas com líder forte, o Centrão já está em campo para se tornar o ponto de equilíbrio no Congresso, na relação com o Executivo e nas negociações com o Supremo – que vai perder, mas o quê? Só os anéis, ou também os dedos?
Lula já se reuniu com Davi Alcolumbre, do Senado, e Hugo Motta, da Câmara, para selar o compromisso mútuo: ele ajuda na reeleição de ambos às presidências das duas Casas, e eles ajudam o Planalto a enfrentar a tremenda força do PL no Congresso. Até porque, cá pra nós, tudo o que o Centrão não quer é ficar a reboque do PL.
Assim, é com o Centrão que Lula vai responder à pergunta que não quer calar: responsabilidade fiscal, ou populismo que corrói contas e credibilidade?