Uma pesquisa realizada no Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (UFG) sugere que a cera de ouvido poderia ser usada para identificar se uma pessoa tem câncer. O cerúmen também poderia indicar estágios pré-cancerosos, isto é, quando o tumor ainda não se formou, e ajudar a monitorar a remissão do câncer após o tratamento.
Em um primeiro momento, o teste, batizado de cerumenograma, mostrou que a cera de ouvido carrega biomarcadores que funcionam como uma “impressão digital do câncer”, indicando a presença de tumor no organismo — o exame não indica a localização da doença no corpo. Agora, novos resultados publicados na revista Scientific Reports, do grupo Nature, expandem a aplicação do exame para a detecção de estágios pré-cancerosos e o acompanhamento da doença.
Um dos casos mencionados na pesquisa é o de um voluntário de 75 anos. Ele havia enfrentado um câncer de próstata há mais de cinco anos e exames prévios indicavam a remissão da doença, mas o cerumenograma classificou a amostra como “risco oncológico”. Foi solicitado um PET-CT e o exame de imagem confirmou a existência de lesão em um gânglio linfático. Após nove meses de radioterapia, um novo cerumenograma indicou que ele estava “livre de risco oncológico”, resultado que coincidiu com os exames de imagem.
A pesquisa é vista como inovadora por especialistas independentes, que destacam o fato de o teste não ser invasivo e usar um material de fácil coleta. Mas eles alertam que um longo caminho de validação ainda precisa ser percorrido para que o cerumenograma prove sua eficácia e possa ser transformado em um teste clínico.
A ciência por trás da cera de ouvido
Em 2019, a equipe da UFG coletou amostras de cera de ouvido de 102 voluntários, 52 deles com diagnóstico de câncer e 50 considerados saudáveis. Nessas amostras, foram identificados os biomarcadores considerados como determinantes para o diagnóstico do câncer e estes foram transformados em um banco de dados.
Os cientistas, então, aplicaram o aprendizado de máquina, um subconjunto da inteligência artificial, a esse banco de dados para selecionar as variáveis mais importantes para diferenciar os grupos de pacientes com e sem a doença. O teste demonstrou ser eficaz na diferenciação entre indivíduos saudáveis e pacientes com diversos tipos de câncer.
Nos anos seguintes, os pesquisadores ampliaram para 751 o número de participantes voluntários. Com isso, o modelo de classificação alcançou uma sensibilidade de 90,4% (capacidade de identificar corretamente os doentes) e uma especificidade de 88% (capacidade de identificar corretamente os saudáveis).
O foco do segundo estudo, publicado em 2025, também foi estendido: o objetivo passou a ser detectar etapas iniciais que indicam a futura formação de um câncer, antes mesmo de existir um tumor. Isso foi feito por meio da identificação de um perfil químico diferente do comum na cera de ouvido, resultado do processo inflamatório pré-canceroso.
“Em um gráfico, conseguimos ver os biomarcadores dos voluntários com câncer, de um lado, e dos voluntários saudáveis, de outro. O espaço entre eles é o estágio pré-câncer”, diz Nelson Roberto Antoniosi Filho, professor da UFG e coordenador da pesquisa.
A capacidade de identificar estágios pré-cancerosos surgiu quando voluntários que se declaravam saudáveis apresentaram resultados positivos no teste. Após investigações aprofundadas com exames de imagem como tomografia computadorizada, os cientistas confirmaram que esses indivíduos não tinham câncer, mas, sim, condições precursoras de alto risco.
O teste também foi capaz de distinguir lesões de alto risco de condições de baixo risco, já que as amostras de voluntários com metaplasia, tumores benignos e cistos foram classificadas como “livres de risco oncológico”.
Quanto à análise da remissão da doença, Antoniosi Filho explica que a identificação é semelhante à do estágio pré-câncer: “(Na remissão) a pessoa começa a migrar para a região do gráfico do pré-câncer, até alcançar a região dos saudáveis.”
Resultados ainda são preliminares, avaliam médicos
O otorrinolaringologista Ricardo Bento, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explica que o metabolismo da mitocôndria (a usina de energia da célula) fica alterado quando há um tumor no organismo, e isso se reflere nos compostos orgânicos presentes na cera de ouvido.
“(Essa alteração) poderia mostrar um diagnóstico precoce para diferenciar entre um tumor benigno e um tumor maligno, e monitorar isso, indicando se ele está evoluindo, se está em remissão. Tudo isso pode realmente ser estudado pelas células que estão lá dentro do cerúmen”, diz Bento, que não participou da pesquisa.
Para ele o estudo é inovador e pode evoluir de forma promissora, mas há limitações. “É uma série de casos, não um ensaio controlado com uma coorte prospectiva. Isso tem um alto risco de viés”, diz.
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Bento aponta ainda para a complexidade da amostra. “O cerúmen modifica muito de pessoa para pessoa. Modifica por raça, por alimentos que a pessoa come, pelo meio ambiente. Nesse grupo (voluntários do estudo) deu certo, mas isso não pode ser extrapolado para qualquer pessoa no mundo”, avalia. “Temos que ter muito cuidado e fazer uma análise bem criteriosa para ver se isso se replica.”
A oncologista Maria Aparecida Koike, também professora da Faculdade de Medicina da USP e não integrante da pesquisa, explica que ainda não é possível afirmar, por exemplo, que as inflamações pré-cancerosas de fato evoluiriam para um câncer.
Ela destaca que o estudo inova na análise dessas lesões pré-cancerosas, já que não existem bons testes para detecção precoce de vários tipos de câncer na fase inicial. Mas é também nesse ponto que reside a principal fragilidade da pesquisa, na visão da médica: a quantidade de amostras usadas para validar o teste.
Dentre os 751 participantes, apenas 17 tinham diagnósticos estabelecidos de condições pré-cancerosas ou benignas. Foi ao analisar as amostras desse grupo que os pesquisadores verificaram que o cerumenograma conseguia classificar corretamente condições já conhecidas.
A médica explica que, para um teste de rastreio ser validado para uso populacional, ele precisa passar por estudos de coorte longos, com um grande número de pessoas, e, mais importante, provar que a sua aplicação reduz a mortalidade pela doença.
“Às vezes, o que acontece é que você detecta precocemente (o câncer), mas não adianta nada, a pessoa vai continuar morrendo pela doença porque não consegue interferir no desfecho final”, diz.
Por mais que o cerumenograma indique a presença de câncer ou de lesões pré-câncer, ele não aponta a localização do problema. Para identificar o local da alteração, seria preciso fazer exames como o PET-CT, que custa acima de R$ 3 mil. Em seguida, seria preciso confirmar o diagnóstico com uma biópsia.
Para eles, é fundamental que sejam realizados mais estudos, com um número maior de voluntários e com acompanhamento da amostra ao longo do tempo, antes de se pensar em aplicação clínica.
Desafios da pesquisa
O desejo de Antoniosi Filho é que mais estudos comprovem a eficácia do cerumenograma e que, no futuro, o teste seja adotado no Sistema Único de Saúde (SUS). Mas há desafios para isso.
Ele revela que o estudo não possui financiamento específico de entidades de fomento, sendo custeado por recursos que o laboratório arrecada prestando serviços à Agência Nacional do Petróleo (ANP).
A equipe também não possui a experiência necessária para o processo de implementação de um teste no SUS. “Nós precisamos de ajuda para fazer isso”, conta o professor.
“Tem muitas coisas muito boas desenvolvidas no Brasil, mas elas morrem na prateleira de uma biblioteca”, critica Antoniosi Filho a respeito da dificuldade para conseguir investimento público para realizar as próximas etapas da pesquisa.
Ele diz que há empresas interessadas no teste, mas teme que a inclusão do setor privado prejudique o acesso ao exame pelos mais pobres. “(O objetivo é que o teste) chegue à população que necessita, a quem tem pouco acesso à saúde, a quem, quando descobre um câncer, ele já está num estágio muito avançado."