Era uma palestra que eu queria muito fazer — falar sobre empreender para pequenos empreendedores, como já fui. Na verdade, o que me separa deles pode ser apenas o tamanho da empresa; na alma, somos iguais.
Acredito que o empreendedor raiz um dia ainda será identificado pela ciência — vão achar algo diferente no seu sangue, e será manchete. Era a primeira vez que eu era convidada a falar sobre esse tema. Não sobre marketing de influência. Não sobre moda e inovação. Não para entrevistar. Era para falar sobre a minha jornada — e revisitar os períodos mais difíceis, aqueles que poderiam ter me feito desistir.
Material pronto um dia antes, meu corpo deu sinais que há muito eu não sentia. Simplesmente… ele não ia. Fiquei dois dias meio letárgica e, na terapia, chorei até finalmente conseguir dizer que não poderia entrar no avião. De novo.
Uma vida de exageros. Exagero de trabalho. Meu terapeuta de outros tempos já tinha me comparado à bailarina Isadora Duncan — que dançava até ferir os próprios pés, sem limite. Meu novo terapeuta me passa a mesma sensação de confiança que uma vez já tive nessas salas de pura confissão.
“Quero ir, preciso ir, já fui até paga e confirmei há seis meses… mas não consigo dar um passo. Não tenho foco. Preciso parar”, disse, aos prantos.
É incrível como liberar algo com a segurança de que será ouvida faz uma enorme diferença. Mesmo assim, a terapia não é mágica — a mudança tem que vir de dentro, com consistência e tempo. Na crise, nem o melhor terapeuta pode mudar o curso. A solução tinha que partir de mim mesma.
Uma vida de exageros. Exagero de trabalho. Meu terapeuta de outros tempos já tinha me comparado à bailarina Isadora Duncan — que dançava até ferir os próprios pés, sem limite
Alice Ferraz
Em casa, à noite, medicada com remédios para a alma doente — como os remédios para os pés de Isadora Duncan — ouvi do meu marido:
— “Vamos de carro. Paramos em algumas cidades, vamos conversando, você olha a paisagem. Você acha que consegue?”
Gentileza, disponibilidade e nenhum julgamento do homem que escolhi para parceiro de vida . O aeroporto era no caminho da estrada. A ideia se transformou em: “Vamos como se fosse para o aeroporto. Se você se sentir bem, tentamos. Que tal?” Eu sabia que ele, sem saber, estava aplicando a técnica dos baby steps — uma estratégia terapêutica para alcançar objetivos complexos (nesse caso, o meu de chegar até a palestra) dividindo-os em etapas pequenas e mais gerenciáveis.
— “Vamos tentar, mas já sei que não vou entrar no avião”, disse a Chata que habita em mim.
E fomos pela estrada. À beira dela, um espaço novo para um café se mostrou aconchegante. Paramos com tempo na varanda e, ali, vi a vida passar. Passou a Alice que tinha medo do elevador, do escuro, de ficar sozinha em casa, de viajar sozinha. A Alice que teve medo de não conseguir ser uma boa mãe quando viu a carinha do próprio filho pela primeira vez.
Ser independente? Abrir empresa? Viajar pelo mundo? Não parecia possível para aquela Alice. Quarenta minutos de vida passando e um café com leite embalando passado, presente — e quem sabe, um futuro possível.
Entrei no aeroporto. Entrei no avião. Escrevo embalada pelo café com leite e pelo pão de queijo de Minas Gerais. Dei a palestra. Me senti entre os meus. Meus pés seguem machucados — a ponto de achar difícil andar até o fim do ano.
Vou até lá de baby steps.



