"Barra 68" abre 33º Festival de Brasília

Documentário de Vladimir Carvalho revê a história da Universidade de Brasília, do sonho do antropólogo Darcy Ribeiro à intervenção feita pelos militares

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Por Agencia Estado
Atualização:

Havia a expectativa de um grande começo para o 33.º Festival do Cinema Brasileiro. Não se concretizou, o que não quer dizer que Barra 68, de Vladimir Carvalho, que abriu nesta terça-feira à noite o evento, não ofereça interesse. Carvalho é um documentarista importante. Confirma-o mais uma vez. Paraibano radicado em Brasília (há 30 anos), considera-se brasiliense de coração. De certa maneira, vem retraçando a história mais secreta da capital federal. Conterrâneos Velhos de Guerra, seu documentário mais famoso, desvenda os bastidores da construção da cidade, por meio de histórias sobre a massa humana que erigiu, no Planalto Central, o sonho de Juscelino Kubistchek e Oscar Niemeyer. Outro sonho está na origem de Barra 68. O filme tem um subtítulo: "Para não Perder a Ternura". Evoca o Che e também toda uma geração que queria mudar o mundo, perdeu uma batalha, mas não perdeu o entusiasmo por haver participado de acontecimentos tão marcantes. Darcy Ribeiro queria criar, em Brasília, uma universidade autônoma que fosse o grande centro aglutinador da consciência crítica nacional. Veio o golpe militar, a universidade foi invadida por forças armadas. Professores foram demitidos, acusados de subversão. Colegas solidarizaram-se com eles e também se demitiram. Foram substituídos por profissionais que não estavam à altura. Começou o processo de mediocrização da UnB, a Universidade de Brasília. O assassino dos sonhos de uma geração foi o regime militar, mas houve um personagem nessa história toda. O interventor, depois reitor, José Carlos Azevedo, um militar que dotou a universidade de todas as condições materiais - seu único mérito -, mas levou a cabo, como missão de vida, a destruição do sonho de Darcy Ribeiro. Esse é o material de Barra 68. Carvalho conta que a idéia do filme o perseguiu durante anos, desde que teve acesso ao material sobre a invasão da UnB rodado por um aluno que depois se destacou como diretor, Hermano Penna. Ele encontrou esse material na própria UnB, só que não sabia direito o que fazer com ele. O projeto começou a tomar forma quando Carvalho realizou uma grande entrevista com Darcy Ribeiro, pouco antes de sua morte. Em torno desses dois materiais - a entrevista de Ribeiro e o documento da invasão da UnB - ele estabeleceu a estrutura dramática de Barra 68. Acresceu depoimentos de gente que viveu aquela época. Professores e alunos, hoje senhores e senhoras respeitáveis, na faixa dos 50 anos. Alguns depoimentos são divertidos, outros são emocionantes. Antigos professores, entre eles o crítico e cineasta Jean-Claude Bernardet, avaliam criticamente suas decisões no passado. Tudo isso é relevante, mesmo rico. Mas há problemas. Salta aos olhos a precariedade técnica do material rodado por Penna. Esse material está muito deteriorado e isso se percebe porque há outros documentos de época que estão bem conservados. Cacá Diegues dá seu depoimento. Em 1968, ele rodava em Brasília alguma cenas de Os Herdeiros, com Sérgio Cardoso e o ator francês Jean-Pierre Léaud, dos filmes de François Truffaut e de A Chinesa, a aventura maoísta de Jean-Luc Godard. Léaud havia participado, em Paris, das barricadas do célebre maio de 68. Cacá e ele foram convidados para um debate sobre o cinema brasileiro na UnB. Virou um debate político sobre as barricadas de maio, sobre a ação revolucionária. Esse material está bom. Há um plano esplendoroso de Odete Lara na platéia. Foi uma deusa, a nossa Odete. Fez filmes que marcaram época no cinema brasileiro, participava do debate político e ideológico. Só mais tarde veio a sua opção pelo budismo, a jornada interior que a levou a mudar, processo que a diretora Ana Maria Magalhães narra em seu filme Lara, que está sendo rodado no Rio. Esperava-se que o material rodado por Penna estivesse em melhores condições, mas o fato de estar deteriorado não tira seu caráter de documento. Outro problema é a própria direção de Carvalho. Ele não acredita na imagem, não acredita nos próprios depoimentos que colheu. Entrevista o ex-reitor Azevedo, que expõe com cinismo as condições da época e destila ódio contra Darcy Ribeiro. O depoimento, por si só, provocou indignação da politizada platéia do Teatro Nacional, onde ocorreu a cerimônia de abertura do 33.º Festival de Brasília. Mas Carvalho parece não acreditar na capacidade de discernimento do público. Imprime sobre as imagens um texto lido por Othon Bastos que é o seu editorial contra Azevedo e que ele significou. É um documentário bem-intencionado, mas velho. Eduardo Coutinho e João Moreira Salles, para citar apenas outros dois documentaristas, estão indo hoje mais longe do que Carvalho, reinventando a estética sem amaciar a política. O festival prossegue hoje à noite com a exibição do longa Tônica Dominante, de Lina Chamie, e o curta Outros, de Gustavo Spolidoro, que venceu no domingo o Mix Brasil. Nesta quinta-feira, a mostra Minha Vida em Suas Mãos poderá criar a primeira polêmica do festival. A atriz e produtora Maria Zilda Bethlem resolveu dar uma de David Selznick e concentrou todo o poder de decisão em suas mãos, como fazia o lendário produtor de ...E o Vento Levou. O único resultado dessa impertinência é descaracterizar o trabalho de um diretor talentoso como José Antônio Garcia (de O Olho Mágico do Amor e O Corpo). Mas a culpa também é dele, que aceitou trabalhar sob essas condições insensatas, apenas como diretor contratado.

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