‘Carlota Joaquina’ volta restaurado aos cinemas e elenco relembra clima, bastidores e perrengues

Carla Camurati, Marieta Severo, Marco Nanini, Marcos Palmeira e Ludmila Dayer falam sobre o filme que marcou a história do cinema brasileiro e celebra 30 anos; veja vídeo

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De ‘Carlota Joaquina’ à ‘Grande Família’, Marco Nanini e Marieta Severo relembram casamentos na tv

O filme de Carla Camurati volta aos cinemas brasileiros, e os atores lembrar a parceria que construíram no longa e na célebre série da Globo, como Lineu e Nenê. Crédito: Merten/Estadão

Carla Camurati lembra que o Estadão foi o único jornal de São Paulo que enviou representante à primeira sessão de Carlota Joaquina, no Rio, há 30 anos. Na época, o cinema brasileiro havia sumido do mapa, depois que, em nome de uma suposta guerra à corrupção, Fernando Collor de Mello acabou com a Embrafilme, que era a principal financiadora e distribuidora de filmes nacionais. Foi uma sessão alegre, divertida.

Por melhor que tenha sido aquela sessão histórica, ninguém poderia prever que Carlota Joaquina – Princesa do Brazil faria história, viraria um fenômeno. Fazendo um verdadeiro trabalho de formiguinha, Carla saiu pelo Brasil mostrando o filme. Provou que o cinema brasileiro era viável. Atingiu a marca de 1 milhão de espectadores. Deu início à fase que se chamou de Retomada. Passado esses 30 anos, voltamos a falar com a diretora e seu fabuloso elenco - Marieta Severo, Marco Nanini, Marcos Palmeira e Ludmila Dayer. Na quinta, 14, Carlota Joaquina volta a salas de 10 capitais brasileiras, incluindo São Paulo e Rio, para festejar o aniversário.

Marieta Severo em cena de 'Carlota Joaquina, Princesa do Brazil'; filme retorna aos cinemas Foto: Divulgação

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“Tivemos uma sessão comemorativa no Rio, e foi linda. O público vibrou, o filme não perdeu nada da capacidade de comunicação e está mais atual do que nunca”, festeja Marieta Severo.

Hoje tudo é festa, mas quando Carla Camurati lançou-se ao projeto não faltaram vozes para tentar dissuadi-la. Quando Arnaldo Jabor leu o roteiro e percebeu o que ela pretendia fazer - um filme narrado pela imaginação da menina, falado em três línguas -, ligou para Carla, cheio de dedos, praticamente pedindo que desistisse: “Querida, o público é preguiçoso, não vai querer ver um filme brasileiro com legendas. E o formato é arriscado, o público não vai aceitar.” Depois que o filme estourou, um encabulado Jabor telefonou telefonou de novo a Carla e disse: “Você deve me achar um idiota, ainda bem que não desistiu”.

Carla e a produtora Bianca De Filippes sempre souberam das dificuldades, mas era a história que queriam contar. Acharam que valeria a pena. “Estamos festejando duplamente”, diz Marieta. “Por Carlota e por esse ano tão especial, em que o cinema brasileiro já foi premiado em Berlim, com O Último Azul, e finalmente conseguimos nosso Oscar, com Ainda Estou Aqui. Olha o que foram os últimos anos. Depois de Collor, (Jair) Bolsonaro também quis silenciar o cinema brasileiro e não conseguiu. A gente resiste.”

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Filme fez escola

Não é só cinema que resiste. “O brasileiro é sobrevivente”, diz Bianca. Na sequência de Carlota Joaquina, o filme, estabeleceu-se toda uma corrente literária de autores como Mary Del Priore, Laurentino Gomes e Eduardo Bueno, contando e recontando ficcionalmente a história do Brasil. Antes já havia ocorrido uma série de tentativas de revisitar personagens e eventos históricos, mas eram pontuais. Carla introduziu o humor, a ironia e a liberdade estética como marcas da obra, convidando o público a refletir sobre as origens do Brasil.

“Sempre gostei de história, e a primeira ideia era fazer um filme sobre o descobrimento”, recorda a cineasta. “Li muito e terminei chegando ao século 19, à vinda da família real portuguesa, fugitiva, para a Colônia. A partir daí, o filme foi ganhando seu formato. Fala de um país erguido sobre privilégios, acordos de conveniência e relações de poder — temas que, infelizmente, ainda ecoam na nossa realidade.”

Marieta Severo e Marco Nanini, um grande acerto

Desde o início, no roteiro escrito pela diretora com Melanie Dimantas, houve esse duplo movimento – o retrato provocador da grande História e o espelho, por vezes desconfortável, do presente. Para acertar no humor, Carla precisou acertar no elenco. Escalar Marieta Severo como Carlota e Marco Nanini como D. João VI foi mais que uma aposta no imenso talento dos dois. A vinda da família real queimou etapas. O príncipe Dom Pedro, um notório mulherengo que não podia ver rabo de saia, proclamou a independência do Brasil.

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Marco Nanini, à esquerda, como Dom João VI em 'Carlota Joaquina, Princesa do Brazil' Foto: Divulgação

A química terá influenciado para que anos depois Marieta e Nanini formassem o casal de A Grande Família, que tanto encantou o Brasil? “Ai, nunca tinha pensado nisso, porque eram casais tão diferentes, a Nenê e o Lineu e o casal imperial, que teve aquela união arranjada, mas vai saber. A gente sempre se deu bem atuando juntos”, reflete Marieta. Nanini completa: “Eu brinco que sou o marido oficial dela. Nosso casamento no cinema, no teatro e na TV é um dos mais longos do Brasil”.

Que lembrança eles guardam da realização do filme? “Foi uma época de muita criatividade para todos. A história era bem fundamentada, queríamos mostrar um Brasil que os brasileiros não conheciam. Ao rever o filme, o que mais chama a atenção é a aparente opulência da produção. Só Deus sabe, com o pouco dinheiro que a gente tinha, como foi construir aquele visual. Muita coisa era enjambrada com celofane, na hora de filmar, minhas joias de ouro eram de papel machê”, lembra Marieta.

Carla completa: “A gente viu muitos filmes na fase de preparação, mas não era para copiar os acertos. Era para evitar os erros grosseiros. Estudamos a obra de grandes pintores. Velásquez, Debret. Havia uma paleta de cor para cada país”.

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E como foi possível o milagre, com tão pouco dinheiro? Carla e Bianca são uníssonas: “Breno, Emília e Tadeu!” Referem-se ao diretor de fotografia – e futuro diretor – Breno Silveira, à direção de arte de Bianca Emília Duncan e Tadeu Burgos e aos figurinos de Emília Duncan, Tadeu Burgos e Marcelo Pies. Sem eles nada teria sido possível.

E o mais importante – todo mundo acreditava no que estava fazendo. Havia um clima de magia muito grande no set. E isso imprimiu na tela. Marcos Palmeira, o Dom Pedro, ressalta o clima de liberdade. “Há 30 anos eu era jovem, vi o filme deslumbrado. Agora vi com outros olhos, mais críticos. O filme tem muita fantasia, mas também tem muita verdade na construção da nossa história.”

Ludmila Dayer, uma criança à época, era chave da história. “A Carla sempre foi uma ídola para mim, sempre esteve nesse lugar. Lembro dela orquestrando o que para mim parecia uma loucura. Veio daí meu desejo de ser diretora.”

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Críticas ao filme e cópia restaurada

Na época, o filme foi criticado por historiadores e monarquistas, embora a diretora dissesse que não era para ser tomado ao pé da letra. “O conteúdo de história é transformado pelo conteúdo de imagem, o olhar da menina que se projeta na figura de Carlota e daquela corte, e isso faz todo um case.”

Não é uma reflexão que Carla faça hoje. Sempre foi assim, sempre foi esse o conceito. Graças a Petrobras, Carlota volta restaurado em 4K, com som 5.1, “mais bonito que nunca”, como diz a diretora. Lá atrás foi lançado com som mono.

Marieta ressalta a atualidade da trama: “O filme mostra o surgimento de uma burguesia nacional que queria imitar Portugal, como hoje tenta imitar os EUA.” Seu desejo? “Que não sejam mais necessárias novas retomadas e o cinema brasileiro sobreviva com políticas públicas permanentes”, finaliza.

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