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‘100 Dias’ leva às telas travessia histórica de Amyr Klink, que alfineta ‘Titanic’; leia entrevistas

Dirigido por Carlos Saldanha e estrelado por Filipe Bragança, filme recria a travessia do Atlântico com efeitos visuais de ponta e recebe a aprovação do navegador; conheça os bastidores da produção

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Por Bruno Carmelo
Atualização:
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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Imagine atravessar o Oceano Atlântico Sul sozinho, num barco a remo. Em 1984, o jovem Amyr Klink partiu da Namíbia ao litoral da Bahia. Enfrentou a solidão, os tubarões, a imprevisibilidade das correntes marítimas. Machucou as mãos e os pés enquanto ocupava o pequeno barco, concebido especialmente para aquela viagem. Mesmo assim, completou o desafio em exatos cem dias, como previsto. Ele foi a primeira pessoa a conquistar tal feito.

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A jornada constitui o tema do livro Cem Dias Entre Céu e Mar, escrito pelo navegador. Agora, em 29 de outubro, estreia a adaptação para os cinemas, dirigida por Carlos Saldanha e estrelada por Filipe Bragança. A incrível experiência no oceano é recriada com auxílio de efeitos visuais avançados e de um barco navegável, reproduzido nas exatas dimensões daquele utilizado por Klink.

No entanto, o trajeto até a sala de cinema não foi fácil. O projeto de 100 Dias surgiu por incentivo da esposa Marina Klink, que acreditava no potencial desta história. Entretanto, o percurso enfrentou suas próprias turbulências, conforme Amyr recorda ao Estadão. “Aconteceu tudo o que você pode imaginar: brigas entre roteiristas, o falecimento do diretor Breno Silveira. Algumas produtoras romperam no meio do caminho, e eu cheguei a desistir do filme.”

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Amyr Klink ao lado do ator Filipe Bragança, que o interpreta no filme '100 Dias', inspirado por sua travessia histórica Foto: Adriano Vizoni/Divulgação

Felizmente, a iniciativa foi retomada, sob o comando de Carlos Saldanha. O cineasta indicado a dois Oscars é conhecido sobretudo pelo trabalho em animações, a exemplo de A Era do Gelo (2002) e Rio (2011). Mas ele já procurava por experiências em live action, como são chamados os filmes com atores reais em frente às câmeras.

“O projeto veio para mim enquanto eu fazia O Touro Ferdinando em Nova York. Então, estava trabalhando numa animação. Eu já tinha lido o livro Cem Dias Entre Céu e Mar, que me marcou muito na adolescência. Pensei: eu preciso fazer esse filme. Mas tinha que ser um filmão, com muitos efeitos especiais, algo que a minha experiência em animação ajudaria bastante”, o cineasta explica.

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Para o papel central, foi escalado um ator em ascensão, que já havia estrelado uma cinebiografia. Filipe Bragança se destacou nos cinemas na pele de Sidney Magal, em Meu Sangue Ferve por Você (2023) e, desta vez, troca os rebolados pela travessia solitária. Entretanto, segundo o intérprete, encarnar uma figura real representaria o mesmo desafio de qualquer personagem fictício.

“A responsabilidade maior vinha da natureza do filme: eu estaria sozinho com um barco durante praticamente 80% da história. Carlos e eu estávamos numa situação parecida: era o primeiro live action dele, e o meu primeiro protagonista dessa magnitude. Então demos as mãos e remamos juntos”, pontua.

Adaptar a história real

Para a surpresa da equipe, Amyr Klink deu total liberdade para interpretarem esta história no cinema. “Eu não quero ser um desses autores chatos que reclamam: ‘Ah, mas não foi bem assim, a camisa era verde, não era azul’”, ele brinca. Saldanha recorda: “O Amyr só disse: ‘Eu já fiz a minha travessia, já escrevi meu livro. Agora, o filme é seu’”.

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Filipe Bragança vive Amyr Klink na cinebiografia '100 Dias' Foto: Adriano Vizoni/Pivô Audiovisual/Divulgação

Mesmo assim, o longa-metragem surpreende pelo rigor na adaptação. Detalhes como o tamanho do mapa, ou o esparadrapo colado ao remo, ao invés das mãos do personagem, foram mantidos. Em paralelo, Bragança passou por um intenso preparo físico, perdendo 10kg para o papel.

De acordo com o ator, não era necessário reproduzir exatamente os traços de Amyr Klink: “Ele não tem uma imagem pública muito clara para as pessoas. Pelo contrário, é um homem introvertido e discreto. Então a gente nem sabe exatamente qual a voz dele, ou como ele se comunica. Felizmente, eu tinha essa referência direta, mas jamais faria uma imitação do Amyr.”

Para o retrato da família Klink, Saldanha e as roteiristas efetuaram uma extensa pesquisa nos arquivos, além de conversas com parentes e amigos próximos. Desta forma, trouxeram a ligação com a mãe, uma mulher cosmopolita e solar (interpretada por Philippine Leroy-Beaulieu), além das desavenças com o pai conservador (vivido por Felipe Camargo), que se opunha ao projeto de navegação. De fato, a vontade de se provar capaz a Jamil Klink constitui uma motivação fundamental nesta história.

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Uma proeza técnica

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Boa parte das filmagens de 100 Dias ocorreu sobre um grande tanque d’água, enquanto os efeitos visuais contribuem para a impressão de amplitude do Oceano Atlântico.

“A gente demorou uns três meses para a preparação e a filmagem, que terminou há dois anos”, explica Saldanha. “Desde então, uma grande equipe trabalhou sem parar, tanto no Brasil quanto na Finlândia, para chegar ao resultado que a gente queria. Essa é uma superprodução rara de encontrar no cinema brasileiro, com tantos efeitos, e com o uso do telão. É um pouco distinto do que a gente está acostumado a ver. Felizmente, o cinema brasileiro é muito diverso.”

O diretor Carlos Saldanha, durante as filmagens do longa '100 Dias' Foto: abio Braga/Pivô Audiovisual/Divulgação

O diretor e o ator sublinham a importância deste trabalho coletivo, envolvendo centenas de profissionais — mesmo que o resultado em tela seja um homem sozinho, remando em direção ao Brasil. Bragança inclusive confessa sentir saudade do seu barco fictício, “tão aconchegante”, dentro do qual girou inúmeras vezes para filmar a impressionante cena com ondas gigantes.

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Para ele, “a proposta desse filme é justamente quebrar um pouco o paradigma da percepção sobre o cinema brasileiro. Nossos filmes têm o costume de encontrar beleza e força em histórias ordinárias. Mas nesse caso, a gente está falando de uma história extraordinária”.

“O fato de termos realizado um filme tão grandioso e ousado já é um mérito muito grande. É fundamental que o público brasileiro possa reconhecer o valor dos nossos filmes, independentemente de premiações estrangeiras”. De fato, 100 Dias chegou a ser incluído na shortlist para representar o Brasil no Oscar 2027. O título eleito pela Academia foi o drama cearense Feito Pipa.

O exemplo de Amyr

Mas o que a façanha do navegador poderia transmitir ao espectador? Por que resgatar essa travessia agora?

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“Eu espero que não venha uma geração alfa, que fique se atirando no Atlântico depois do filme!”, dispara Klink. Para ele, trata-se de um incentivo a seguir seus sonhos, por mais difíceis que sejam. Desde a publicação do livro, confessa ter recebido milhares de comentários de pessoas que concretizaram guinadas em suas vidas, graças ao encorajamento desta jornada.

Assista ao trailer de '100 Dias', filme sobre Amyr Klink, que estreia em outubro

Dirigido por Carlos Saldanha e estrelado por Filipe Bragança, '100 Dias' chega aos cinemas brasileiras em 29 de outubro. Crédito: Buena Vista International Brasil via YouTube/Reprodução

O navegador também frisa que o isolamento em alto mar estava longe de representar um problema: “A solidão, no meu caso, foi quase um prêmio. Tive tantos problemas antes, nas esferas burocráticas, diplomáticas e políticas, que quando pude ficar sozinho no barco, foi um alívio brutal. Enquanto eu começava a remar, pensei: ufa! Finalmente, só falta remar. Agora, o resto só depende do que eu sei fazer.”

Saldanha concorda com a ideia de um estímulo às travessias (metafóricas ou não), comparando-as à própria experiência de se mudar para os Estados Unidos, em busca do sonho de trabalhar com cinema de animação. O diretor também destaca, em paralelo, a importância de estar sozinho, em silêncio, contemplando a natureza — algo tão duro para nossos tempos ultraconectados. “É a coragem de olhar para dentro”, completa Bragança.

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O resultado, por fim, encheu Klink de orgulho. Ele afirma se ver plenamente representado nesta adaptação, a ponto de confundir algumas imagens da ficção com sua própria experiência. Ainda manifesta o orgulho de descobrir um filme capaz de honrar a navegação.

“Eu sou uma espécie de colecionador de filmes com histórias ligadas ao mar, e todos eles têm erros imperdoáveis. Titanic, com o Leonardo DiCaprio ali na ponta, é pessimamente produzido!”, alfineta. Felizmente, 100 Dias passou na prova.

Amyr Klink detalha filme sobre travessia no Atlântico: 'Aprendi muito mais com os erros dos outros'

Amyr celebra os 42 anos de sua travessia nesta quarta e é tema de longa dirigido por Carlos Saldanha. Ao 'Estadão', ele fala de legado e possibilidade de Oscar. Crédito: Edição: Júlia Pereira

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