'Elisa e Marcela' leva ao Festival de Berlim história sobre o primeiro casamento entre duas mulheres

As duas mulheres forjaram documentos – uma fazendo-se passar por homem – para conseguir se casar, na Espanha, no começo do século passado

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Quando apareceu na tela do Palast a letra N, do logo da Netflix, a vaia precedeu a exibição do longa – em concurso – da espanhola Isabel Coixet. Elisa & Marcela conta a história de duas mulheres que forjaram documentos – uma fazendo-se passar por homem – para conseguir se casar, na Espanha, no começo do século passado.

O caso ocorreu na Galícia, mas Elisa e Marcela fugiram e foram presas em Portugal. Terminam juntas em Chubut, na província argentina. Uma das mães, que abandonou a filha, reencontra a garota anos mais tarde e pergunta – “Valeu a pena?”

Natalia de Molina e Greta Fernández. São Elisa e Marcela no filme de Isabel Coixet Foto: ALEXANDER BECHER/EFE

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Fica sem resposta: cabe ao espectador decidir se a mentira, o casamento, a violência, a cadeia, toda uma vida de sofrimento e dificuldade, valeu aqueles momentos de júbilo e felicidade em que a diretora filma sua dupla na cama. Isabel Coixet é engraçada. Fez um requisitório em defesa do casamento gay – o letreiro final informa sobre o número de países que reconhece essa união e o outro, muito maior, daqueles em que a homossexualidade continua penalizada, até com a morte. Mas, como ela diz, pessoalmente é contra qualquer tipo de união legalizada. Hétero, homo, papéis não significam nada para ela. Foi um filme que demorou mais de dez anos para fazer. Se não fosse a Netflix...

O filme está na competição de Berlim e vai estrear nos cinemas na Espanha. “Desde que comecei a pensar nela, via essa história em preto e branco. Era a primeira linha do roteiro. ‘Esse filme é PB.’ Hoje até que, com o sucesso de Roma (de Alfonso Cuarón), o preto e branco voltou à moda, mas há dez anos ninguém queria nem saber. A Netflix me apoiou, até na decisão de concorrer em Berlim, para dar chance a essas garotas (as atrizes Natália de Molina e Greta Fernández). Estou particularmente feliz de estar de volta à Berlinale.”

Mais do que qualquer outro festival mainstream, Berlim dá grande importância aos filmes que abordam a homossexualidade. O Teddy Bear, o Urso gay, é tão celebrado quanto o Urso de Ouro. O Brasil está de novo na disputa com o transcendental longa de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, A Rosa Azul de Novalis, e Greta, de Armando Praça, em que Marco Nanini está particularmente bem.

Concorrem ao Teddy Bear filmes de todas as seções. Um dos melhores é Temblores, do guatemalteco Jayro Bustamante, do ótimo Ixcanul, em que uma pastora celerada comanda o processo de cura gay de um homem casado que largou a família para viver seu amor por outro homem. Orações, hormônios, verdadeiros exorcismos – o processo seria cômico, se não fosse tão trágico. O tema não é o que Pablo, o protagonista, ganha, mas o que perde. A terra treme, mas os pilares da sociedade resistem. Também na disputa do Teddy, o chinês A Dog Barking at the Moon, de Lisa Zi Xiang, faz a crônica de uma família que tenta manter seus segredos – a preferência do pai por outros homens, mais jovens.

Ontem pela manhã, uma velha dama nonagenária, Agnès Varda, veio mostrar seu autorretrato. Varda por Agnès. No formato masterclass, a autora, sentada no palco de um grande teatro, conversa com o público e revisa sua carreira de mais de 60 anos. Cenas de Cléo das 5 às 7, As Duas Faces da Felicidade e de outros de seus grandes filmes. A experiência norte-americana, os Panteras Negras, black is beautiful. Agnès explicita suas três verdades – criatividade, ofício, compartilhamento. Lembra seu querido Jacques Demy. A saudade das coisas e pessoas mortas que permanecem vivas na lembrança. Agnès, feminista de carteirinha, entende que todo mundo queira homenageá-la, mas não se sente confortável. Há tantas novas diretoras que merecem atenção, avalia.

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