Gabriel Mascaro, Rodrigo Santoro e Denise Weinberg falam sobre O Último Azul
Diretor e atores discutem o filme que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 28, e fala sobre como a sociedade lida com aqueles que envelhecem: 'Idoso também tem.
Como tantos brasileiros, o cineasta Gabriel Mascaro cresceu em uma casa cheia de gente. “Tinha avô, tinha avó, tia, tio, muito irmão”, conta ele em entrevista ao Estadão. “Era uma casa que abrigou muitas diferenças. Eu vi de perto o envelhecimento de parte da minha família.” Quando seu marido morreu, a avó decidiu, aos 80 anos de idade, começar a pintar quadros. Foi essa centelha e o olhar amoroso para as pessoas mais velhas de sua família que inspiraram a criação de Tereza, a protagonista de seu mais recente filme, O Último Azul.
Estrelado também por Rodrigo Santoro, o longa estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 28, depois de ganhar o Urso de Prata (Grande Prêmio do Júri) em Berlim e participar de cerca de 50 festivais no mundo inteiro.
Tereza, interpretada por Denise Weinberg, é uma mulher de 77 anos que mora em uma cidade industrializada na Amazônia. Mas essa Amazônia não é bem aquela da realidade, e sim uma distópica, em um país igualmente distópico, em que os idosos, ao atingir determinada idade, são compulsoriamente enviados para uma colônia habitacional. Assim, os mais jovens podem produzir mais, sem se preocupar em cuidar dos velhos.
Mas Tereza não está disposta a aceitar esse destino. Ela tem saúde e sonhos, não quer ir para esse lugar de onde ninguém parece voltar. Por isso embarca em uma grande aventura, em um grande “road movie” – ou melhor, “river movie” ou “boat movie”, já que sua locomoção através dos rios da Amazônia se dá majoritariamente de barco. É nessa jornada que ela cruza com o barqueiro Cadu (Santoro), com Ludemir (Adanilo), viciado em jogos e dono de um ultraleve sucateado, e Roberta (Miriam Socarrás), que vende Bíblias digitais, além de um certo caramujo de baba azul e poderes mágicos.

Mesmo esses personagens coadjuvantes são tratados com distinção e interesse por Mascaro. Foi por isso que Santoro não se incomodou de não ser, aqui, o protagonista. “Não acho que o tamanho define a personagem. Eu vou sempre pelo mergulho”, disse ele ao Estadão. “Independentemente do número de cenas, para mim é fundamental que tenha profundidade, conflito, que seja algo que dê para trabalhar.”
O ator já vinha flertando com o cineasta desde que ele lançou Boi Neon (2015). “Na época, eu procurei o Gabriel e disse: ‘Eu quero te conhecer, quero trabalhar contigo, rapaz’.”
Cadu tinha tudo para ser um clichê, um barqueiro rústico que dá carona para Tereza em sua aventura. “Mas é um olhar bastante na contramão do que a gente está acostumado a ver na figura masculina. Ainda mais um homem em um barco. Em vez de ser a liberdade, o barco é a prisão do Cadu. Ele é um homem que sofre de amor. É um homem que está amargurado, com coração em luto por estar distante do seu amor, mas que também não consegue lidar com aquilo. Ele precisa ter coragem de assumir as suas fragilidades.”
Caminhos inesperados
Não é só na construção de Cadu que O Último Azul escapa dos lugares-comuns. A Amazônia aqui não é vista com um lugar exótico, nem sob um ponto de vista antropológico ou sociológico. “A gente começa o filme em uma Amazônia produtiva. Já é um deslocamento, porque a gente idealiza como um lugar da preservação”, disse Mascaro.
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O filme é uma distopia, mas sem os códigos óbvios. Há algo de lúdico e engraçado ali, mesmo que algo um tanto sinistro pareça estar acontecendo nesse país que recolhe seus idosos nos chamados “cata-velhos”.
Entram elementos de fantasia, de fábula, de “coming of age”, de “road movie”. “É um jogo, uma brincadeira, migrando de gênero em gênero”, disse Mascaro. “No nosso imaginário de ‘Sessão da Tarde’, a gente assistia àquele filme do jovem ganhando o mundo, tendo as primeiras experiências, torcia para ele ter o primeiro amor. E gente não vê o corpo idoso nesse mesmo lugar. Por que o corpo idoso não pode ter um novo amor, errar, sair da rota? A gente vive nessa sociedade que domestica o corpo idoso.”

Normalmente, quando aparece no cinema ou na televisão, o idoso está à espera da morte ou está preso a um passado supostamente glorioso, que não voltará. “A gente queria fazer algo diferente, mostrar esse corpo idoso feminino que envelhece com potência, pulsão, desejo. É um filme apaixonado pelo presente”, disse Mascaro.
Para Rodrigo Santoro, o longa-metragem tem um tema muito atual: como lidamos com os idosos e com o envelhecimento, enquanto todos estão brigando para não envelhecer, com suplementos, poções, procedimentos estéticos e rotinas malucas. “Olhamos para os idosos como se tivessem um resto de vida. É um olhar muito cruel, que exclui. O idoso também tem o direito de sonhar. Tomara que a gente consiga colaborar com essa discussão.”
O ator, que acabou de fazer 50 anos, lembra como a visão do envelhecimento era diferente quando adolescente. “Nunca imaginei que eu fosse chegar aos 50 anos surfando, jogando bola, jogando tênis. Que ia inventar de ter uma um uma filha aos 48 anos de idade, ter um monte de projetos, de planos. Estou em um dos melhores momentos da minha vida. Claro que, quando jogo bola, demora uns dois dias para me recuperar.”

Denise Weinberg afirmou ter sido um privilégio fazer Tereza. “Eu respeito quem faz procedimento. Mas eu tenho pavor disso. Eu acho que é ir contra a natureza. Eu tenho orgulho de envelhecer. Não quero ser jovem sempre. Deus me livre”, disse a atriz. “Nosso rosto conta a nossa história de vida também.”
Para ela, conforme envelhecemos, nossos desejos mudam – mas ainda existem. “O que eu queria aos 30 anos não é o que quero agora, aos 69. Você se acalma, se assenta. Mas continua curiosa com o que vem por aí”, afirmou.
Uma prova foi a própria experiência da filmagem. “Foi algo único na minha trajetória. Você aprende que a vida sempre pode te surpreender”, contou. “Foram pouquíssimas cenas de terra firme. Tinha barco para figurino, para refeição. Era uma frota. Quando levantava a vista, tinha aquele rio maravilhoso, aquele horizonte. Claro que tem mosquito, tem calor. Te deixa muito empenhada, atenta. Fiquei abestalhada. Dois meses disso te mudam. Mas é por isso que eu faço o que faço.”
Essa “distopia amazônica”, como descreve Rodrigo Santoro, que “tenta conversar com o Brasil de maneira muito honesta”, como disse o diretor, pode ter uma paisagem brasileira, mas seu tema é universal e tem encantado plateias. Depois do Grande Prêmio do Júri, o segundo maior troféu, no Festival de Berlim, em fevereiro, ele foi comprado para distribuição em mais de 60 países.
O Último Azul se encaixa na boa onda do cinema nacional, com o prêmio de roteiro em Veneza, o Oscar e Globo de Ouro para Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e os prêmios de direção e atuação para O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, no Festival de Cannes, em maio. “É um lindo ano para o Brasil. É uma alegria criar essa retomada do orgulho do Brasil pelo seu próprio cinema”, disse Mascaro. A expectativa agora é que os brasileiros finalmente assistam ao filme. “Vamos ver agora se cada jovem leva uma avó, e cada avó leva um jovem para o cinema.”



