Gerando resumo
Foram mais de dez anos entre o primeiro “please come to Brazil” recebido pelo Wolf Alice e seu primeiro show em terras nacionais. O quarteto inglês, que em 2015 lançou seu disco de estreia, My Love Is Cool, fez duas apresentações no País este ano, tocando no Vivo Rio, no Rio de Janeiro, em 22 de maio, e no C6 Fest, em São Paulo, no dia seguinte. Formado por Ellie Rowsell (voz e guitarra), Joff Oddie (guitarra), Theo Ellis (baixo) e Joel Amey (bateria), o grupo indie estourou nas paradas britânicas com uma mistura própria de grunge, folk e shoegaze, com seus membros virando estrelas mesmo antes de assinar com uma grande gravadora.
No Brasil pela primeira vez, o Wolf Alice teve uma recepção calorosa por fãs de longa data que, mobilizados por fanpages nacionais nas redes sociais, os receberam no aeroporto e lotaram as duas apresentações da banda.

“Não sabíamos muito bem o que esperar [do Brasil], mas foi incrível! Provou que temos que vir para cá toda semana até o fim dos tempos”, disse Ellis em entrevista ao Estadão. “As pessoas foram tão legais, tão apaixonadas... [Os brasileiros] parecem bem emocionados pelos sentimentos das canções, o que é muito legal, porque mostra que eles prestam atenção. Foi um privilégio vir e fazer nossos primeiros shows.”
Mesmo já tendo feito shows enormes por toda a Europa, incluindo o icônico festival de Glastonbury, o grupo teve no Brasil o que consideram algumas das melhores — e “mais criativas” — interações com o público de sua carreira. “Fomos muito mimados pelos fãs brasileiros! Isso foi tão adorável”, opinou Rowsell, citando as bandeiras e cartazes que receberam do público local.
“Alguém combinou todos os nossos rostos em uma única imagem na gravação de um programa de TV que fomos hoje”, seguiu Ellis. “Foi muito louco, ficamos parecendo um dos Três Mosqueteiros.”
Como todo artista estrangeiro que conquista o público brasileiro, o Wolf Alice vem há anos recebendo pedidos de shows no Brasil. Ativos nas redes sociais, eles já engajaram com muitos desses internautas, com o primeiro contato em pessoa acontecendo nesses últimos dias. “Foi muito legal poder finalmente conhecer os fãs, nós vínhamos conversando online há anos, então é bom poder conhecê-los”, disse Rowsell.
Com uma turnê que passou ainda por México, Argentina e países da Ásia, o Wolf Alice, enfim, entendeu porque tantos artistas internacionais consideram o Brasil um destino obrigatório. “Você definitivamente sabe quando está no Brasil [pela reação do público]. É essa paixão que você quer em um show”, opinou Ellis. “Honestamente, acho que existe uma divisão da responsabilidade entre o artista e a plateia. Você vê algo único por aqui e nunca esquece que está na América Latina.”
Um dos principais momentos em que essa relação simbiótica entre artista e público em um show foi testada aconteceu durante o C6 Fest, quando Oddie teve um problema técnico com seu violão justamente em Leaning Against the Wall, canção de sonoridade acústica muito dependente do instrumento e da voz de Rowsell.
“[Na hora, pensei] me**a, me**a, me**a, me**a”, brincou o guitarrista, pontuando que a reação imediata dos fãs em transformar a performance em uma versão quase a capella da faixa foi “incrível”. “É engraçado quando você é um artista, porque você acaba se preocupando demais com o que pode dar errado. Mas quanto mais você toca, quanto mais experiência você tem com erros, isso traz uma honestidade [à performance]. O público tem muita compaixão nessas horas e consegue interagir com isso de uma forma muito humana e foi isso que nós vimos.”

Após Oddie dizer que o erro técnico seria uma boa desculpa para retornar ao Brasil, era previsível que a próxima pergunta fosse sobre quando essa volta acontecerá. Ainda que não tenha feito nenhuma promessa, Amey não hesitou na resposta. “Quero tocar no Lollapalooza. Então, nos ajudem a tocar lá!”
“Precisamos gravar um novo disco rápido, porque queremos voltar o quanto antes”, completou Ellis.
Quatro discos, quatro conceitos e muito reconhecimento
Entre 2015 e 2025, o Wolf Alice lançou quatro álbuns de estúdio: My Love Is Cool (2015), Visions of a Life (2018), Blue Weekend (2022) e The Clearing (2025). Conceitualmente, cada trabalho trouxe algo diferente à sonoridade da banda, com o disco mais recente se tornando símbolo dessa evolução com suas faixas mais melódicas e com uma presença maior de piano e instrumentos acústicos. Para Rowsell, é justamente a diferença entre os lançamentos que define a identidade do grupo.
Leia mais:
Dado Villa-Lobos vê ‘Que País é Este?’, da Legião, ainda atual: ‘Tudo igualzinho, se não pior’
Entrevistas históricas de Gilberto Gil serão reunidas em novo livro
Robert Plant subverte o rock n’ roll sem ignorar o Led Zeppelin em show místico e encantador em SP
“Se estivéssemos tentando fazer algo que ‘soasse como Wolf Alice’, provavelmente se tornaria algo diferente. Talvez [como um cover].”
Claramente baseado nas vivências da banda depois de sua explosão global, The Clearing começa com uma curiosa sequência de faixas. Thorns, canção que abre o álbum, usa acordes melancólicos e vocais quase tristes, enquanto a letra (“Devo ser uma masoquista para fazer uma canção e dançar por isso”) satiriza o velho cliché de artista sofrido perpetuado no rock. Logo depois, no entanto, vem a explosão de autoestima de Bloom Baby Bloom, ao mesmo tempo pesada e dançante, que dá o tom da nova fase sonora e visual do Wolf Alice nos palcos.

“Nós todos queríamos tracklists diferentes por um tempo”, lembra Amey. “Levamos isso muito a sério. Mas acho que sempre tivemos Thorns na abertura e [The Sofa] como o encerramento certo. (...) Então, esses dois marcadores sempre estiveram nas nossas ideias, e tudo entre eles foi meio que tentando encaixar as peças de um quebra-cabeças, mantendo a dinâmica e procurando faixas que combinassem entre si.”

“Também estávamos tentando fazer a sequência funcionar em vinil”, pontua Oddie, cuja tracklist acabou sendo a escolhida para o lançamento de The Clearing. “Então, quando conversávamos sobre isso, eu dizia ‘essa aqui abre o lado A e essa fecha o lado A’, é um jeito legal de enquadrar as músicas.”
Desde My Love Is Cool, o Wolf Alice tem sido presença constante nas principais premiações da música britânica. De 2015 para cá, a banda acumulou dois BRIT Awards, um Mercury Prize e três NME Awards, tendo sido indicada a pelo menos um grande prêmio para cada álbum lançado nos últimos 10 anos. Por mais que os troféus não sejam uma prioridade, eles admitem que surge um nervosismo quando recebem as indicações. “É como quando você sabe que alguém está tirando uma foto sua e você não sabe como se portar”, brinca Rowsell.
“É difícil estar ciente que você está sendo filmado nessas horas [em que o vencedor é anunciado]”, segue Oddie. “Sempre tenho essa coisa de dizer ‘não me importo com prêmios’, mas quando leem nosso nome, uma parte do meu cérebro diz ‘o que? Ganhamos? Meu Deus!’, mas quando não ganhamos, eu penso ‘ah, droga!’”

O mundo da música não é o único com suas atenções voltadas ao Wolf Alice. Até o momento, a banda já emplacou músicas em trilhas sonoras de 28 produções para a TV e para os cinemas, incluindo sucessos como The Boys, Heartstopper, The Leftovers e T2: Trainspotting — e a lista do IMDb nem inclui Ghoster, lançada como parte da trilha de Caça-Fantasmas, de 2015, mas deixada de fora do corte que foi para os cinemas.
“É muito legal [ter músicas em filmes e séries]! Normalmente, recebemos uma pequena sinopse de como a canção vai ser usada e o que vai acontecer na cena”, contou Ellis. “E pode ser muito bom para [o artista]. Quando Don’t Delete the Kisses apareceu em Heartstopper, deu toda uma nova vida a uma música que já era especial para nós, apresentou a gente a uma nova geração.”
VÍDEO: Membros do Wolf Alice falam sobre o futuro e listam novos lugares para fazer show
Banda brinca sobre tocar no Polo Norte e no Vaticano.
‘Voz que vai além da música’
Nascidos entre 1990 e 1992, os membros do Wolf Alice, como muitos outros millenials tardios, entraram na adolescência e na juventude quando as redes sociais começavam a se popularizar. Atualmente, os quatro usam seus perfis (pessoais e da banda) para expôr suas visões ideológicas, já tendo promovido campanhas de auxílio à causas LGBTQIA+ e à Palestina, além de comentar a situação política do Reino Unido.
Apesar de serem bem ativos neste quesito, inclusive tocando em apresentações beneficentes e se manifestando no palco, o grupo, por enquanto, não levou essas crenças às suas composições, preferindo expor suas opiniões de forma mais direta com seus milhares de seguidores.
“Temos sorte de hoje ter uma voz que vai além das nossas músicas”, afirmou Rowsell, admitindo já ter tentado criar composições de cunho político, mas que não se sentiu tão satisfeita com os resultados. “Você pode expressar suas opiniões e visões sem precisar colocar isso nas canções. Acho que a música era uma forma importante de se manifestar [politicamente] e era uma forma brilhante de propagar a sua mensagem, enquanto hoje eu posso apenas fazer uma postagem no Twitter.”
O futuro do Wolf Alice e o ‘horizonte de coisas novas’
“Eu mal penso nos próximos dez minutos, para ser honesto”, brincou Ellis quando perguntado sobre os próximos 10 anos da banda. “Acho que saber onde você estará em 10 anos te deixaria, sei lá, paralisado. É animador saber que temos um horizonte de coisas novas.”

Se não querem imaginar onde estarão na próxima década, eles têm, ao menos, uma boa ideia de lugares nos quais ainda esperam tocar em um futuro próximo. Já tendo se apresentado ao menos uma vez em cada continente, Amey brinca que o próximo passo é tocar no Polo Norte. “É o único lugar que falta! Não sei, tenho certeza de que temos muitos lugares para visitar.”

Depois dessa primeira passagem pela América do Sul, mais países da região estão na mira do Wolf Alice, além de alguns destinos na América Central. Discutindo para onde a próxima turnê pode levá-los, Rowsell, Ellis, Amey e Oddie criaram uma lista extensa que inclui Chile, Peru e a Cidade do Vaticano, além de um retorno à África do Sul e uma estreia em Edimburgo, na Escócia (“como nunca tocamos em Edimburgo?”, se indignou Oddie).
Ainda que a lista de novos destinos seja extensa, há um lugar específico que se tornou uma espécie de segunda casa para a banda: Glastonbury, palco de um dos maiores e mais famosos festivais de música da Europa e onde o Wolf Alice já se apresentou cinco vezes.
VÍDEO: Sucesso no tradicional festival de Glastonbury, Wolf Alice explica ‘mística’ do evento
Grupo já se apresentou quatro vezes em um dos maiores palcos do Reino Unido.
“Tem uma pressão e um legado que te seguem por lá”, afirmou Amey. “É a Meca da música da nossa era, em que você atinge o ápice da performance musical. E tem coisas que acontecem por lá que não acontecem em nenhum outro lugar, é algo único. Eu nunca tinha ido até tocar lá pela primeira vez em 2014, então não entendia. Mas hoje, entendo.”
Independentemente do caminho que faça até sua volta, o desejo do Wolf Alice de retornar ao Brasil está mais do que claro, embora ele esbarre no lançamento de um novo trabalho de estúdio. Mas, considerando que a banda tem uma média de um novo disco a cada dois anos e meio, fãs podem ficar aliviados com a certeza de que não esperaremos mais onze anos para que eles reapareçam por aqui.

