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Definição da equipe econômica de Lula será fundamental para acalmar mercados, dizem analistas

Avaliação é que petista precisa anunciar o quanto antes quem será seu ministro da Fazenda e dar sinais mais concretos sobre a política econômica

São Paulo - Com a vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais neste domingo, 30, o mercado deve monitorar a partir desta segunda-feira os sinais do petista acerca da sua equipe econômica e da sua plataforma para a área. A avaliação é do ex-diretor do Banco Central e chairman da Jive Mauá Investimentos, Luiz Fernando Figueiredo.

“Sem novas informações ao longo deste domingo, acho que os mercados sofrem um pouco amanhã, mas vão ficar na expectativa”, diz Figueiredo. “Mesmo assim, se vier um bom nome na área econômica, uma agenda boa, acho que o mercado tende a se recuperar, mesmo que acabe sofrendo em um primeiro momento.”

Para Luiz Fernando Figueiredo, definição do nome do ministro da Fazenda terá potencial para acalmar eventual estresse do mercado  Foto: Mauá Capital

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O analista nota que esses anúncios têm o potencial de diminuir a incerteza e podem melhorar as expectativas, sobretudo caso Lula decida anunciar um ministro da Fazenda e uma agenda pró-mercado. Para Figueiredo, é provável que o anúncio já ocorra esta semana, já que a campanha petista pode ter decidido não divulgar o nome para evitar ruídos durante as eleições.

Avaliação parecida foi feita pelo ex-secretário do Tesouro Nacional e sócio da Oriz Partners, Carlos Kawall. Para o economista, os sinais sobre a política econômica do próximo governo devem determinar a reação dos mercados ao resultado no curto prazo.

“No curto prazo, o que ele pode anunciar com mais efeito prático para o mercado é o Ministério da Fazenda”, diz Kawall. “Para quem é eleito, não vale hesitar. Nesse sentido, acho que o ministro da Fazenda vai ser anunciado já na semana que vem e vamos ter um quadro um pouco mais concreto, além dos anúncios que o ex-presidente possa fazer a partir de agora, como candidato eleito.”

Além de um nome para o ministério, o economista lembra que seria relevante para os mercados que o petista apresentasse alguns sinais sobre a política econômica. Como o Produto Interno Bruto (PIB) do País deve crescer até 3% em 2022 e a taxa de desemprego está em queda, não faria sentido defender um aumento de gastos públicos no ano que vem, argumenta o analista.

“Acho que é o momento de você evitar qualquer sinalização de uma política econômica mais heterodoxa, até porque, do ponto de vista da economia, a herança que o presidente eleito terá não é ruim”, comenta Kawall. “O mais importante é entender qual é a orientação da política econômica, se é algo que busca o populismo fiscal, ou algo que faz sentido do ponto de vista do recado que o presidente vai receber.”

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'Acho que é o momento de evitar qualquer sinalização de uma política econômica mais heterodoxa', diz Kawall Foto: Hélvio Romero/Estadão

Para Kawall, a aliança montada por Lula - que incluiu a escolha do ex-governador Geraldo Alckmin como vice-presidente, além do apoio de figuras históricas do PSDB, economistas ortodoxos e outras forças políticas distantes da esquerda - já indica uma postura menos radical por parte do presidente eleito. O petista também terá de negociar com um Congresso majoritariamente de centro-direita, nota.

Devido à margem apertada da vitória de Lula, com 50,90% dos votos válidos ante 49,10% do presidente Jair Bolsonaro (PL), o economista reconhece o risco de que o atual mandatário acabe questionando o resultado, com impacto negativo para os mercados. Mesmo assim, ele destaca que um movimento como esse dificilmente geraria um risco duradouro, embora possa gerar ruídos no curtíssimo prazo.

“Eu diria que, no curto prazo e na ausência de qualquer informação, a abertura dos mercados deveria ser negativa amanhã, porque o mercado vai ficar na expectativa: será que vai ter uma tentativa de contestação? Será que o presidente eleito vai confirmar uma equipe econômica e uma agenda pró-mercado?”, observa o economista. “O grande ponto ainda é o que o presidente Lula vai dizer.”

Reação dos mercados

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O estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, prevê uma reação negativa dos ativos locais nesta segunda-feira. “O mercado deve reagir mal, pois parte apostava em Bolsonaro. Pelo fato em si, tende a abrir negativo. O dólar pode buscar R$ 5,40, a curva deve abrir e a Bolsa, cair”, disse. Para o economista, a repercussão pode ser suavizada caso Bolsonaro, como havia dito que faria, reconheça o resultado, o que amenizaria o risco de violência por parte da massa de apoiadores e até de ruptura.

Nos próximos, dias, afirma, os agentes ficam no aguardo dos sinais da orientação da política econômica do novo governo, lembrando que o então candidato dava indicações contraditórias na área fiscal, como reajuste de salário mínimo acima da inflação, correção da tabela de imposto de renda, aumento do Bolsa Família e, ao mesmo tempo, disciplina fiscal. “Com responsabilidade fiscal, não dá para atender tudo o que foi prometido”, afirmou Rostagno.

O mercado vai pressionar por nomes e deve reagir mal a alguém do PT para a Fazenda”

Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho

Pistas sobre o direcionamento podem vir dos próprios nomes a serem anunciados para a área econômica. “O mercado vai pressionar por nomes e deve reagir mal a alguém do PT para a Fazenda, por exemplo Fernando Haddad, Alexandre Padilha, Wellington Dias. O mercado entenderia que o viés é de aumento de gastos”, observou. Um nome com perfil mais fiscalista, como o de Henrique Meirelles ou Marcos Lisboa, seria bem recebido. “Acredito que Lula deve lançar nomes de centro na economia para não haver desajuste fiscal”, afirmou.

Transição dura

A economista e ex-secretária de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, Zeina Latif, avalia que o presidente eleito neste domingo terá o desafio de dialogar com os temores e demandas dos eleitores de Jair Bolsonaro. Isso porque, segundo ela, Lula sai vencedor de uma campanha eleitoral muito traumática do ponto de vista social e com o placar mais apertado da história. “A palavra de ordem é reconstrução”, disse Zeina, que prevê também uma transição dura pela frente.

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Zeina Latif vê uma transição dura pela frente Foto: Taba Benedicto/Estadão

Para a economista, os próximos passos de Lula para a pacificação podem não fazer preço no mercado financeiro, mas darão dicas da sua capacidade de renovação, incluindo a capacidade de negociação e articulação no Congresso. “A definição da agenda econômica é particularmente relevante diante do déficit de confiança do PT em um contexto de difícil conjuntura econômica em 2023, que sofrerá as consequências dos excessos fiscais nos últimos anos - algo pouco compreendido pelo eleitor mediano”, disse.

Esse quadro, de acordo com Zeina, demanda urgência na definição da equipe econômica. “Em que pesem alguns avanços estruturais importantes desde o governo Temer e a ajuda do comércio internacional para um país exportador líquido de commodities, a economia, no curto prazo, foi anabolizada por políticas de estímulos de vida curta”.

Ainda, segundo Zeina, à luz das sinalizações recentes enfatizadas na fala de Lula de que “não será um governo do PT, será um governo do povo brasileiro”, há razões para acreditar que o futuro presidente compreende minimamente o tamanho do desafio, especialmente diante da contribuição do centro democrático à sua campanha.

Lula, diz Zeina, parece resgatar o pragmatismo do seu primeiro mandato. Mas pragmatismo, continua a economista, não é sinônimo de reformismo e tampouco de política econômica liberal na microeconomia ou ortodoxa na macroeconomia. “Ocorre que, na situação atual, pragmatismo significa afastar voluntarismos na economia e definir plano de voo consistente e crível. O governo de transição terá desafio enorme: afastar a cartilha petista e contar com a contribuição do time econômico atual.”

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