Tarifaço é uma das decisões mais anticapitalistas na história dos EUA, diz especialista

Para Gabriel Petrus, professor de Relações Internacionais na Science Po Paris e ex-diretor da Câmara de Comércio Internacional, o mundo vai se reorganizar das sobretaxas mais rapidamente do que os EUA imaginam

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Foto do autor Alvaro Gribel

'Tarifaço dos EUA é das decisões mais anticapitalistas que o mundo já testemunhou'

Para Gabriel Petrus, professor de relações internacionais na Science Po Paris, China virou parceiro confiável enquanto EUA perdeu reputação. Crédito: Júlia Pereira

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Foto: Arquivo pessoal/GabrielPetrus
Entrevista comGabriel Petrus Professor de relações internacionais na Science Po Paris e ex-diretor da Câmara de Comércio Internacional (ICC)

BRASÍLIA - As medidas tomadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em seu segundo mandato não têm paralelo na história americana, avalia o professor de Relações Internacionais na Science Po Paris, Gabriel Petrus, ex-diretor da Câmara de Comércio Internacional (ICC).

Segundo o pesquisador, as sobretaxas impostas por Trump colocam o país em uma crise de reputação no comércio que se assemelha à vivida pela China do início dos anos 2000.

“O tarifaço é uma das decisões mais anticapitalistas que pudemos testemunhar na história dos Estados Unidos. Me lembro que há 20 anos se falava das dificuldades de se negociar com a China, pela falta de confiança em contratos. Agora, os papéis se inverteram. Os chineses ganharam reputação, e os EUA, perderam”, afirmou Petrus.

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Segundo ele, o mundo vai se reorganizar do tarifaço mais rapidamente do que os EUA imaginam. Isso porque o setor de serviços hoje é mais forte do que o industrial, há novas ferramentas de inteligência artificial para abrir mercados e 82% do comércio internacional não passa pelos EUA.

“Trump não vai conseguir o que quer, que é reindustrializar os EUA, gerar empregos e aumentar a arrecadação. E o mundo vai se reorganizar (do tarifaço) mais rápido do que se imagina”, disse.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

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Qual a sua avaliação sobre o tarifaço americano?

É uma das decisões mais anticapitalistas que pudemos testemunhar na história dos Estados Unidos. Me lembro que há 20 anos se falava das dificuldades de se negociar com a China, pela falta de confiança em contratos. Agora, os papéis se inverteram. Os chineses ganharam reputação, e os EUA, perderam. Os EUA eram o maior promotor do comércio livre no mundo e, hoje, se tornam o país que tem minado o comércio internacional.

A China virou parceiro confiável e os Estados Unidos deixou de ser?

Esse é o inacreditável mundo novo em que estamos vivendo. Os Estados Unidos parecem aquele menino mimado que pega a bola de futebol e fala: “se não for nas minhas regras, a gente não joga”. Então, é muito difícil jogar o jogo nessas condições. A gente vai procurar outros parceiros, outros amigos.

E os efeitos sobre o Brasil?

O Brasil vai sofrer as consequências; mas, em geral, é uma decisão que, no fim das contas, prejudica mais a economia americana. O Brasil tem déficit comercial com os EUA, e o tarifaço encarece o custo de vida para a população dos EUA. O Brasil vai se readaptar, tem uma certa versatilidade sobre os seus parceiros comerciais e hoje a gente vê o mundo com aumento do interesse por negociações regionais.

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O tarifaço veio com uma lista de exceções. O quanto isso enfraquece as medidas?

Foi um recuo razoável, mas o impacto para o Brasil ainda será muito grande. São setores campeões no Brasil. A lógica das exceções é não ter substituto para eles comprarem, a impossibilidade de substituir esses produtos - o que não mostra uma abertura de negociação. Estamos longe de um momento de sentar à mesa; ainda é momento de muita tensão e baixa racionalidade econômica, porque encarece o custo de vida nos EUA e pode tirar empregos nas indústrias.

Os EUA estão usando a lei Magnitsky contra o Brasil. Como enxerga o uso desse instrumento?

A lei tem uma aplicação neste caso bastante fora de contexto. Não haveria razão para isso. É uma questão até da Justiça dos EUA, que possivelmente vai ter que responder pela legalidade desse ato. O que tenho ouvido de colegas americanos é que isso pode comprometer o próprio Trump politicamente, gerar maiores questionamentos no Congresso, mesmo tendo maioria. Parece abuso de autoridade, de uma lei que foi criada para responder a outras questões, como ameaça à segurança nacional. Não me parece que o fato de o Brasil ter um poder judiciário independente, que julga através de seus atores, seja motivo para aplicar a lei.

Muita gente reclama que Lula não ligou para Trump. Qual sua avaliação sobre o comportamento do governo brasileiro?

O governo brasileiro tem agido em um contexto muito inusitado. Na Europa, também está sendo muito difícil tomar decisões. O acordo com a União Europeia é uma negociação de mais de seis meses. O mal-estar que essa diplomacia anticapitalista dos EUA traz hoje com esses decisões colocam os EUA como uma das economias mais anticapitalistas do mundo em relação a planejamento econômico, e entre as mais fechadas, certamente. Parece que esse quadro de excepcionalidade tornou difícil para o governo brasileiro encontrar um caminho correto de negociação.

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O Brasil deve retaliar?

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Houve outros contenciosos comerciais em que o Brasil ameaçou a economia americana, há cerca de 20 anos, como no caso do álcool, e o Brasil não retaliou. O projeto de decreto de retaliação cruzada foi usado como um instrumento de barganha na negociação. Acredito que estamos assistindo a um roteiro muito parecido, de chegar na linha do gol para retaliar, e não retaliar.

Quais os riscos da retaliação cruzada?

Teria efeitos nefastos para a economia brasileira, por conta de o Brasil depender de produtos, principalmente de tecnologia dos EUA. Uma empresa de manufatura em SP pagar mais por um serviços de nuvem, por exemplo, de dados não é bom para a economia brasileira.

A OMC tem sido criticada pela sua inoperância. Ela perdeu totalmente a força?

É uma OMC que já está há anos fragilizada, desde o momento em que os EUA deixaram de indicar juízes para a Corte superior de avaliação de conflitos comerciais. Ela deveria ser o foco privilegiado para discussões de contenciosos comerciais, mas acredito que as eventuais resoluções desse conflito vão se dar pela via bilateral, e não mais pelo quadro multilateral da OMC. Pelo menos até que o presidente dos EUA seja Donald Trump.

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Os países não poderiam tentar uma resposta em conjunto? Por que isso não acontece?

Falta coordenação. Não me parece que haja uma comunicação ente eles. Talvez seja uma questão de estratégia não fazer, porque os países estão muito ocupados hoje consultando os seus próprios setores, os porta-vozes dos setores que têm sido afetados, para entender qual é a melhor forma de responder a esse xadrez. Como a economia global é extremamente complexa, uma resposta única seria muito complexa também.

Mas existem negociações bilaterais acontecendo...

Um grande ponto de interrogação é a velocidade com que as empresas afetadas vão buscar novos mercados. Se elas conseguirem se reposicionar junto a outros países, o poder de barganha dos Estados Unidos diminui de forma importante. É bom lembrar que os Estados Unidos respondem por menos de 18% do comércio mundial, que a gente está falando de 82% do comércio mundial que não passa pelos Estados Unidos, ainda que em dólar.

O Ocidente fez um bloqueio à Rússia, mas eles conseguiram encontrar novos caminhos. Isso pode se repetir agora?

Eu acho que sim. Com a tecnologia, o acesso aos novos mercados é muito mais fácil do que há 20 anos. As pessoas podem, com ferramentas de inteligência artificial, localizar potenciais compradores para as suas mercadorias. Hoje menos de 8% dos trabalhadores americanos estão na indústria. Isso nos diz que a maior parte da economia americana se voltou para a área de serviços, que é totalmente digitalizada. Se esse tipo de decisão ocorresse nos anos 60, os impactos seriam muito maiores para a economia mundial.

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O mundo vai se reorganizar (do tarifaço) mais rápido do que se imagina. Os efeitos que Trump espera não vão ocorrer

Quanto tempo vai levar para que Trump entenda que essa medida não vai surtir o efeito que ele espera?

O mundo vai se reorganizar (do tarifaço) mais rápido do que se imagina. Os efeitos que Trump espera não vão ocorrer.

Quais são?

Reindustrializar, gerar empregos a arrecadar mais. Hoje, a economia americana é forte em serviços, não vai se tornar industrial com o tarifaço. E o imposto de importação tem foco em regulação, não em arrecadação. Por isso a decisão de Trump é totalmente anticapitalista e antieconômica. Ela não tem fundo econômico nenhum. O único sinal que ele dá é que a economia americana está se fechando.

Quais impactos sobre a economia americana?

Se os americanos se fecharem dessa forma, a inflação vai aumentar, e a empregabilidade vai ser afetada. O tarifaço vai provocar efeitos negativos em menos de seis meses.

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Tão rápido?

É só você olhar o indicador de investimento direto nos Estados Unidos, que diminuiu drasticamente nos últimos meses. A gente tem visto um ambiente de instabilidade política e econômica nos Estados Unidos em que os investidores não querem mais anunciar novos investimentos.

Em que posição os Estados Unidos estariam hoje em termos de abertura econômica?

Eu acho que estariam lá atrás. Vão estar junto de quem? Coreia do Norte, Cuba, Venezuela. Não longe de economias fechadas que sofrem sanções dos próprio americanos.