Com a melhora de Lula nas pesquisas, o cenário de vitória do atual presidente nas eleições presidenciais do próximo ano aumenta de probabilidade.
Há uma configuração favorável na economia que, embora não seja invulnerável a eventos adversos (especialmente na economia internacional), tampouco parece frágil e passageira. Os números da atividade e do mercado de trabalho indicam desaceleração muito gradual a partir de um nível pujante, configurando pouso bastante suave.
A condução firme do Banco Central por Gabriel Galípolo - uma surpresa para boa parte do mercado - garante que essa desaceleração lenta e gradual deva se traduzir em desinflação, também moderada e gradativa.
A maior surpresa positiva, no entanto, vem do cenário internacional. A "trumponomics", mesmo considerando que o Brasil é vítima do pior tarifaço por parte de Trump, acabou sendo favorável à economia nacional. As políticas do presidente norte-americano estão desvalorizando o dólar, e várias economias emergentes surfam apreciação cambial e queda de risco país - o Brasil se destaca entre elas.
Durante boa parte deste terceiro mandato de Lula, o que parecia enigmático era a trajetória decepcionante da popularidade presidencial, diante dos seguidos recordes de queda do desemprego e de alta da renda.
Havia explicações possíveis. A forte inflação de alimentos era uma delas, assim como o pânico nos mercados em dezembro de 2024. Neste caso, não diretamente pelo prejuízo nos ativos brasileiros, o que não afeta a maioria da população, mas pela disparada do dólar, que tem correlação com perdas na popularidade presidencial.
E ocorreram também episódios específicos desfavoráveis ao governo - muito bem explorados pela oposição -, como a crise do Pix e o escândalo do INSS.
De qualquer forma, durante todo o terceiro mandato a economia esteve aquecida e o mercado de trabalho permaneceu robusto. Agora, há sinais leves de acomodação, mas, por outro lado, o cenário inflacionário melhorou.
Assim, a melhora da popularidade de Lula parece mais uma volta ao padrão normal de que a economia importa bastante para o eleitor. Supondo que, no pouco mais de um ano à frente até as eleições, não haja choques violentos no cenário externo e interno - hipótese bastante cabível, embora não garantida, claro -, a tendência parece ser de que a melhora da popularidade presidencial se consolide.
Se houver eventual cristalização de favoritismo de Lula nas eleições do ano que vem, a questão crucial a ser decifrada pelo mercado é sobre qual será a política fiscal do quarto mandato.
Há uma corrente otimista que nutre a narrativa de que 2027 será finalmente o ano do ajuste fiscal estrutural, por bem ou por mal. Se um candidato de direita ganhar, a visão é de que o ajuste virá naturalmente. Se Lula for o vencedor, os mercados o obrigarão a ajustar - isto é, haverá forte deterioração dos ativos brasileiros pelo temor de que a política fiscal continue sendo 'tocada com a barriga', forçando o governo a encarar o problema estrutural das contas públicas.
Seja como for, neste terceiro mandato Lula parece ter formatado de forma mais clara um "jeito petista de governar", no qual o prato de resistência oferecido ao eleitorado é o contínuo aumento do gasto público direcionado aos mais diversos tipos de programas sociais, para além da sangria fiscal dos benefícios a grupos de pressão.
Com Fernando Haddad no leme da economia, e a gestão competente de Galípolo no BC, esse jeito petista de governar não se confunde com a irresponsabilidade grosseira da nova matriz econômica. Buscar a meta de inflação, ainda que muito lentamente, e manter um mínimo de controle das contas públicas - com o foco no aumento da receita - fazem parte do manual de governo.
Ainda assim, a dívida pública como proporção do PIB deve subir cerca de dez pontos porcentuais neste mandato presidencial. A estratégia de pisar no acelerador fiscal e no freio monetário ao mesmo tempo é parte da explicação do altíssimo juro real que turbina o crescimento da dívida pública.
Em 2027, se Lula for reeleito, as enormes dificuldades políticas de fazer o ajuste fiscal estrutural, que implica amplo e profundo enxugamento de gastos sociais, não desaparecerão magicamente. É duvidoso que Lula, em seu último mandato presidencial, se anime com a ideia de concluir sua vida pública como apóstolo da austeridade - a não ser que seja forçado pelas circunstâncias, como um grande "castigo" do mercado. A ver.
Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/9/2025, terça-feira.






