Caso Master: Quem é e quais são as conexões políticas do ex-sócio de Vorcaro que também foi preso

A defesa diz ter recebido com surpresa a operação porque ‘Augusto Lima já havia se desligado definitivamente de todas as suas funções executivas no Banco Master em maio de 2024′

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Foto do autor Carlos Eduardo Valim
Atualização:

Polícia Federal faz operação de busca e apreensão na sede do Master, em São Paulo

Operação investiga fraudes envolvendo negociação para venda da instituição ao BRB e emissão de títulos falsos. Crédito: Breno Damascena

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

A Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e seu ex-sócio Augusto Lima, após a liquidação do banco pelo Banco Central. Lima, que deixou o Master em 2024, planeja lançar o Banco Pleno. Ele nega envolvimento nas operações investigadas, destacando sua saída anterior. O BC rejeitou a venda do Master ao BRB, temendo contaminação. Lima, com apoio político, busca consolidar o Pleno, enquanto Vorcaro enfrenta dificuldades financeiras e legais.

Após a Polícia Federal ter prendido o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, na segunda-feira, 17, a vez de seu ex-sócio Augusto Lima chegou nesta terça, quando também ocorreu a liquidação da instituição financeira pelo Banco Central. Lima é o único dos ex-sócios do Master habilitado pelo BC a administrar um banco próprio. Baiano de Salvador, o economista Lima era sócio do mineiro Vorcaro, controlador do Master, e do carioca Maurício Quadrado.

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A defesa diz ter recebido “com absoluta surpresa a operação” porque “Augusto Lima já havia se desligado definitivamente de todas as suas funções executivas no Banco Master em maio de 2024″ (leia a íntegra da nota mais abaixo).

Lima e Quadrado deixaram a sociedade ainda em 2024, antes que os holofotes se voltassem para o Master, quando em março deste ano o Banco de Brasília (BRB) anunciou que desejava comprar a instituição. Segundo pessoas próximas a Lima, ele deixou a sociedade e a posição de executivo do Master em 28 de maio de 2024, ao assinar acordo para sair do banco, um movimento que ainda não havia ficado público. Dessa forma, ele já não seria mais sócio e diretor do banco havia um ano e meio.

Pelos termos de sua saída, ele levaria o negócio de crédito consignado, que trouxe para o Master em 2019, e também o Banco Voiter, que serviria como base para a criação de um novo, chamado Banco Pleno. Os planos de Lima envolviam o lançamento do Pleno para o mercado entre o fim de novembro e começo de dezembro, com ampla campanha de publicidade pela mídia, já em fase de finalização e aprovação.

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Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, estava prestes a autorizar campanha de lançamento dono do Banco Pleno Foto: Banco Master/Divulgação

O começo da trajetória de Lima como banqueiro de destaque remonta ao negócio de crédito consignado Credcesta, adquirido em uma privatização feita na Bahia em 2018, durante o governo de Rui Costa (PT), atual ministro da Casa Civil.

Lima arrematou na época, depois de dois leilões sem interessados, a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), que era dona da rede estatal de supermercados Cesta do Povo, que operava com produtos populares e com preços subsidiados. Lima mantém esse negócio de varejo em operação na Bahia.

Menos de um mês depois de Lima vencer o leilão, o governo da Bahia autorizou servidores públicos e pensionistas a fazer compras no Cesta do Povo com recursos do programa de crédito consignado Credcesta, que também ganhou o direito de ampliar os seus negócios financeiros. Logo, o negócio prosperou e, em poucos meses, ele estava atuando em quase todos os Estados.

A interlocutores, Lima, que estudava microcrédito antes da aquisição, costuma dizer que nunca imaginaria que o negócio decolasse tão rapidamente por todo o País.

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Vorcaro e Lima foram apresentados por um amigo em comum, e logo surgiu um acordo para o Master representar o Credcesta, em busca de ampliar a sua atuação. Vorcaro procurava fazer o Master chegar também às classes mais populares, com um negócio de varejo com empréstimos garantidos e seguros. Poucos meses depois, ainda em 2019, o Credcesta foi incorporado pelo Master, oficializando a união e a entrada de Lima como sócio.

Relações políticas

Lima também trazia ao Master suas boas relações com o PT da Bahia, nas figuras de Costa e do ex-governador Jacques Wagner, hoje senador. Os três são conhecidos como amigos pessoais. Mas isso não afastava Lima de rivais políticos do PT no Estado, como Antônio Carlos Magalhães Neto (União Brasil) e João Roma (PL), ex-ministro de Cidadania do governo Bolsonaro.

A influência do banqueiro aumentou quando se uniu a Flávia Peres, com quem namorou a partir de 2023 e se casou em janeiro de 2024, o que ampliou as suas conexões fortes com o Centrão.

Deputada federal eleita pelo PL em 2018, com o nome de Flávia Arruda, por ter sido casada por 15 anos com o ex-governador José Roberto Arruda, ela foi a primeira mulher a presidir a Comissão Mista do Orçamento por indicação do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

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Em 2021, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, apoiou a indicação de Flávia para suceder ao general Luiz Eduardo Ramos na Secretaria de Governo da presidência de Jair Bolsonaro, o que foi visto como o marco da chegada do Centrão ao comando da articulação do Planalto sob o ex-presidente com o Congresso.

No cargo, ela ficou responsável pela liberação de emendas, recursos extras e negociação de cargos. A política permaneceu no posto por um ano, antes de se descompatibilizar do cargo para disputar uma vaga para o Senado pelo Distrito Federal.

Flávia, desde os primeiros dias do namoro, buscava convencer Lima a deixar o Master e a ser dono de um banco próprio. Em 2023, o jornal O Globo chegou a publicar que Lima estava negociando a venda de sua parte no Master por R$ 1 bilhão, com o objetivo de montar a sua própria operação. O Master negou a nota, em conjunto com Lima. Mas o movimento de saída já estava em andamento e só foi adiado por conta de um pedido de Vorcaro de que precisava de um tempo para ajeitar a casa, antes de revelar que um dos sócios estava deixando o negócio.

Convidada por Vorcaro, Flávia Peres (ex-Arruda) aceitou o convite para ser executiva-chefe do programa de ESG do Master Foto: Estadão

Esse adiamento se fortaleceu quando Flávia foi convidada por Vorcaro e aceitou o convite para ser executiva-chefe do programa de ESG do Master. Ela foi anunciada em evento de grande pompa, no dia 3 de outubro de 2023, no hotel de alto luxo Rosewood, inaugurado um ano antes.

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Na ocasião, Augusto Lima fez discurso em que destacava a atuação da equipe de consignado do Master, para aplauso dos profissionais, presentes na primeira fila da plateia. Depois, quando os problemas do Master começaram a se tornar públicos, incluindo participações acionárias em empresas em dificuldades, excesso de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) pagando juros muito acima do mercado e precatórios de recebimento incerto, a operação de consignado do Master comandada por Lima pareceu como a mais saudável da instituição, e que mantinha de pé todo o negócio.

Cogitado para presidir banco estatal

Na primeira proposta de venda do Master ao BRB, no fim de março deste ano, chegou a ser divulgado que Lima seria designado presidente do banco estatal, para o lugar de Paulo Henrique, e que Vorcaro teria uma posição no conselho de administração. Pessoas próximas a Lima dizem que ele nunca teve a intenção de permanecer no Master ou de comandar o BRB, com a possível aquisição, e que teria pedido a Vorcaro para ficar à parte do negócio e dito ao presidente do BC, Gabriel Galípolo, que não teria mais relações com o Master.

A reação de Costa entre políticos aliados, de parte da imprensa e de alguns congressistas levantou suspeita sobre as condições do estatal BRB em assumir um banco que parecia problemático, numa operação que parecia uma operação de salvamento promovida pelo Centrão. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), defendeu o negócio.

Mas o BC rejeitou o plano de aquisição de parte do Master pelo BRB, no dia 3 de setembro, por temor de contaminação do Banco de Brasília.

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Novo banco

Antes do barulho causado pela possível incorporação pelo BRB, Lima já tinha preparado a sua saída do Master levando o Voiter, ex-Indusval, e o negócio de consignado que havia trazido, para criar o que chama agora de Banco Pleno.

Outra parte do Voiter, chamada Letsbank, ficou com Quadrado, que estava montando o seu Bluebank, que depois de ter a sua licença negada pelo BC este ano vai ser chamado apenas de Blue.

Novo escritório fica no prédio da Faria Lima conhecido pela escultura Baleia Prateada na praça frontal Foto: Red Hat/Divulgação

O Pleno, por enquanto, opera em fase pré-operacional, de testes de sistemas, no Edifício Pátio Malzoni, conhecido por ter o aluguel mais caro da Avenida Faria Lima, e se mudaria até o fim do ano para outro endereço, também na mesma avenida, no conhecido prédio da Baleia, que fica na esquina com a Avenida Juscelino Kubitschek e é apelidado assim por conta de uma grande escultura do mamífero em sua entrada.

A licença para criar o Pleno foi garantida este ano, após os anúncios de venda do Master para o BRB. No dia 7 de agosto deste ano, o BC publicou comunicado informando que Lima estava entre os últimos nomes aprovados de pessoas nomeadas para “cargos de órgãos estatutários ou contratuais de sociedades autorizadas a funcionar”.

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A sua autorização ocorreu em despacho de 24 de julho, pelo qual o BC também permitia a Antônio Varcas, diretor-geral do novo banco, e à esposa de Lima, Flávia Peres Lima, terem cargos no Pleno.

Poucos dias depois, na edição do Diário Oficial da União de 18 de agosto, foi publicada a decisão do BC de que a transferência do controle societário do banco, e de sua controlada, a Distribuidora Intercap de Títulos e Valores Mobiliários, tinha efeito desde o dia 11 do mesmo mês e que a sua mudança de denominação social para Banco Pleno havia acontecido no dia 24 de julho.

O processo todo foi ágil. Apenas no dia 6 de junho, Lima pediu a transferência de alteração de controle do Voiter, que estava sendo desmembrado do Master. Entre o pedido e a entrada em efeito da aprovação, levou pouco mais de dois meses.

O novo Pleno também conseguiu a aprovação de dois aumentos de capital, cada um de R$ 80 milhões, promovido por Lima, além de operação pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

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O objetivo do Pleno é atuar em crédito consignado. A operação conta com 140 convênios para oferecer essa forma de crédito em quase todos os Estados, atendendo a mais de 2,5 milhões de clientes, apesar de sua origem na Bahia por meio do Credcesta. Também possui quase 50 lojas próprias e call center com 300 funcionários. O Pleno nasceria com patrimônio líquido de R$ 900 milhões.

A operação do antigo Voiter, antes chamado Indusval, tradicional instituição fundada em 1967, também traz alguns legados, que poderiam ser deixados de lado, como a atuação no agronegócio. Essa atividade não está no foco do Pleno, apesar de haver uma divisão em funcionamento chamada de Pleno Agronegócio. Outros produtos disponíveis são de antecipação de salários e empréstimos a empresas de médio porte.

A situação de Lima contrastava com as de seus dois ex-sócios. Vorcaro, corria contra o tempo para vender ativos, antes que o Master passasse por uma provável intervenção ou liquidação por parte do BC, devido ao vencimento de um empréstimo da ordem de R$ 4 bilhões no FGC.

Na segunda-feira, 17, a holding financeira Fictor anunciou que compraria o banco, mas Vorcaro foi preso e, na terça-feira, o BC revelou a liquidação do banco. Com os novos fatos, a Fictor suspendeu o negócio.

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O Master havia contratado a consultoria Laplace para fazer esse trabalho de venda de ativos, ofertando negócios da instituição no que integrantes do mercado chamavam de “brechó do Master”.

Já o outro ex-sócio, Maurício Quadrado, que também deixou o Master em 2024, teve a transferência do Letsbank, que era parte do Master, negada pelo BC, em agosto deste ano.

O banqueiro pleiteava desde novembro de 2024 a aprovação de sua compra do Letsbank, que era um braço do Voiter. A operação já havia sido renomeada como Bluebank, para fazer parte de um novo grupo, que também está baseado no prédio da escultura de baleia.

Quadrado foi citado em investigações sobre a Reag e negócios envolvendo a gestora de fundos de investimentos Trustee, utilizado pelo empresário Nelson Tanure em alguns de suas operações.

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Perguntado pelo Estadão sobre o que resultou na aprovação de transferência do Voiter para Lima e na negativa para a do Letsbank a Quadrado, o BC informou que não faria comentários sobre a aprovação e a negativa a cada um dos ex-sócios.

As aprovações do BC são consideradas técnicas. A negativa da compra do Master pelo BRB foi um exemplo de que o órgão resistiu à pressão política. Na semana em que sairia a decisão de aprovação ou veto para a operação, integrantes do Centrão discutiram colocar em votação um projeto que permitiria a destituição de diretores do BC, o que foi visto como uma forma de pressão de políticos próximos a Vorcaro para uma decisão favorável pela equipe técnica.

O que diz a nota da defesa

A nota à imprensa é assinada pelos advogados Ticiano Figueiredo, Pedro Ivo Velloso e Sebástian Borges de Albuquerque Mello. O que o texto diz:

A defesa de Augusto Lima informa que recebeu com absoluta surpresa a operação deflagrada nesta data. Augusto Lima já havia se desligado definitivamente de todas as suas funções executivas no Banco Master em maio de 2024.

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As operações atualmente investigadas são posteriores à sua saída e, portanto, não guardam qualquer relação com sua atuação profissional ou com decisões tomadas durante sua permanência na instituição.

Augusto Lima possui histórico ilibado, reconhecido no mercado financeiro e sua atuação sempre foi pautada pela legalidade, transparência e responsabilidade. A defesa tem plena confiança de que a apuração demonstrará a absoluta inexistência de vínculo entre Augusto Lima e as operações objeto da investigação.