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O inquérito da Polícia Federal (PF), aberto a pedido do Ministério Público Federal (MPF) no ano passado, investiga se o empresário Nelson Tanure é o controlador de fato do Banco Master. Oficialmente, o dono do Master é Daniel Vorcaro. A aliança entre os dois empresários já apareceu em alguns negócios feitos no mercado financeiro nos últimos anos, em um período que coincide com o próprio crescimento acelerado do Master.
Em situação financeira complexa, o banco recebeu uma oferta de aquisição de 75% de seu patrimônio líquido por R$ 2 bilhões, pelo Banco de Brasília (BRB) no mês passado. Procurado, Tanure não comenta. O Master diz ser sistematicamente auditado “de forma independente, certificando a robustez, seriedade e transparência das informações aos órgãos de controle”.

O pedido de investigação foi feito a partir de denúncias da gestora de investimentos Esh Capital. Com base nessas denúncias, o MPF apontou que há “indícios de crime e gestão temerária e indução a erro de investidores”. A Esh é uma gestora ativista (que entra nas empresas em que investe para promover mudanças e assim tentar melhorar a governança e valorizar as ações das companhias) e já teve diversas disputas com Tanure na Justiça. Ela também se recusou a tecer comentários sobre o processo.
Apesar de o “Banco Master informar às autoridades e investidores que o grupo de controle é capitaneado por Daniel Vorcaro e pela 133 Investimentos, há indícios de que Nelson Tanure seria o real controlador da referida instituição financeira, tendo se valido da Aventti, do fundo Estocolmo e da Banvox (uma holding que controla investimentos financeiros feitos em outras empresas) para adquirir o controle societário”, escreve o procurador Marcos Salati, do MPF, no pedido para que a PF esclareça os fatos e identifique se houve ou não crimes contra o sistema financeiro nacional.
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A atividade de controle ou administração de instituição financeira precisa, por regulamentação, ser autorizada pelo Banco Central. Por várias vezes, Daniel Vorcaro, presidente do Master e o próprio Tanure negaram que ele fosse sócio do banco. Pessoas próximas a Tanure dizem que ele jamais foi controlador de qualquer instituição financeira.
Numa entrevista à revista Piauí, no ano passado, Vorcaro disse ter admiração por Tanure e o classificou como “parceiro de negócios”. A relação entre os dois é observada de perto pelo mercado porque o Banco Master, após levantar mais de R$ 40 bilhões por meio da emissão de Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) em menos de cinco anos, é apontado como um aliado nas investidas de Tanure em empresas de capital aberto.
Tanure e Vladimir Timerman, sócio da Esh Capital, têm disputas públicas e na Justiça há anos. Os embates aconteceram desde 2022 em investimentos na Alliar (hoje Aliança Saúde), na construtora Gafisa no ano seguinte e, agora, no Master. Enquanto a Esh acusa Tanure em diferentes instâncias de manipulação de mercado e ocultação de participação acionária, o empresário conseguiu bloquear as ações da Esh na Gafisa e também que Timerman fosse condenado por perseguição (leia mais abaixo).
O racional da denúncia
De toda forma, as empresas e fundos citados pelo MP no pedido de inquérito à PF fazem parte do que seria, segundo a denúncia da Esh, uma complexa estrutura montada por Tanure para evitar que se identifique com clareza sua relação com as empresas nas quais ele investe.
Seria uma prática adotada por Tanure em outras ocasiões, de acordo com os documentos. A Aventti, por exemplo, já teria sido utilizada no mesmo esquema na Petro Rio, como consta em um processo no qual o empresário foi condenado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em instância administrativa, por descumprimento na divulgação de informações ao mercado.

De maneira bastante simplificada, toda a estrutura envolveria fundos que investem em outros fundos ou empresas. Há mais de uma dezena de nomes − e acompanhar as idas e vindas é quase como montar um quebra-cabeça. O beneficiário final dessas estruturas só aparece quando há determinação das autoridades para que seja identificado.
Além disso, esses fundos fazem operações financeiras e usam estruturas com nomes técnicos e incomuns para a maioria das pessoas de fora do mercado financeiro. Na prática, o encaixe das peças só acontece a duras penas.
Na denúncia da Esh, o elo inicial da corrente é uma empresa offshore (com sede em outro país) chamada Aventti Partners, que tem Tanure como sócio indireto, conforme teria ficado demonstrado no processo da Petro Rio que correu na CVM.
Submetida à legislação do Reino Unido, a Aventti apresenta dados sobre seu patrimônio na Companies House, a agência britânica que registra e gerencia empresas naquele país. Na declaração financeira pública assinada por Tanure, a Aventti tinha US$ 243 milhões investidos em 17 fundos e instituições financeiras diferentes, em 30 de abril do ano passado. Entre eles, Planner, Trustee, Banvox e Estocolmo. Também tinha quase US$ 500 milhões em dinheiro disponível.
Segundo a denúncia apresentada ao MPF, o fundo Estocolmo teria comprado por diversas vezes debêntures (papéis que equivalem a dívidas de uma empresa e tornam seu portador credor dessa companhia) da Banvox.
A Banvox Holding Financeira controla investimentos variados feitos em outras companhias. Tem sede em São Paulo e há indícios de que teria recebido aportes provenientes do fundo Estocolmo, que, segundo a denúncia, poderia ser de Tanure. Em documentos do Banco Central, a Banvox aparece como uma das acionistas do próprio Master.
Constituída em 2020, a Banvox tinha como sócios, à época, Daniel Vorcaro e Maurício Quadrado. Vorcaro, como se sabe, é o presidente e controlador do Master. Quadrado era sócio do banco até setembro e é dono das corretoras Trustee e Planner. Também faz parte da sociedade Augusto Lima, também sócio do Master.
Já a Trustee, administradora do fundo Estocolmo, seria o agente fiduciário (que faz a ponte entre a empresa que lançou as debêntures e o investidor) dos títulos voltados à capitalização da mesma Banvox.
A denúncia afirma que teriam sido feitos aportes sucessivos pelo Estocolmo à Banvox, por meio dessas debêntures. Em outubro de 2022, quase 90% do patrimônio do Estocolmo estaria alocado em debêntures da Banvox, segundo a denúncia. Em dezembro daquele ano, o valor investido pelo fundo na holding da instituição financeira teria chegado a R$ 783 milhões.
O objetivo do investimento, diz a denúncia, seria ter o controle indireto do Master. A própria emissão das debêntures da holding Banvox indicava como finalidade a destinação dos recursos para “instituição financeira”, objeto social para o qual foi criada.
Com esses aportes, o Estocolmo também teria contribuído com aumentos de capital do Master que o ajudaram a formar seu índice de Basiléia (indicador da solidez da instituição financeira) e permite ao banco continuar emprestando - e captando CDBs.
Negociações
O Banco Master está hoje no centro do debate no mercado financeiro, desde que a operação com o BRB foi anunciada, em março. Para que o negócio com o banco público saia, é preciso que se encontre uma solução para garantir o pagamento a investidores que compraram títulos do Master nos últimos anos, o que deve envolver o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) - uma linha de empréstimo já foi pedida pelo banco. Somente neste ano, há R$ 12 bilhões em vencimentos.
Desde que foi transformado de Banco Máxima para Master, em 2021, o banco acelerou as captações com ofertas de retornos agressivos. A conta saltou de R$ 4,4 bilhões, em 2020, para mais de R$ 40 bilhões. A partir desses recursos, o banco montou uma carteira de crédito concentrada em ativos de risco e de baixa liquidez, como os precatórios (títulos atrelados a sentenças judiciais) e empresas em dificuldades.
A atuação nesses ativos, que passou a ser chamada de “banco ruim” nas negociações sobre a venda para o BRB, também é fruto de apurações do inquérito da PF. São investigados, por exemplo, a forma de contabilizar parte desses títulos no balanço.
Briga de longa data
Procurado, Nelson Tanure não se pronunciou. A defesa do empresário pede, porém, em sua representação, o fim do inquérito policial por ausência de justa causa e pela “instrumentalização criminosa da administração da Justiça”. Segundo a peça apresentada, Tanure é um empresário respeitado, controlador de várias companhias de capital aberto e sofre há anos perseguição de Timerman.
O Master informou, por meio de nota, que “todas as operações da instituição foram e são constantemente submetidas a verificação por meio de auditorias internas e externas, de forma independente, certificando a robustez, seriedade e transparência das informações aos órgãos de controle”.
O banco desqualifica Timerman e a denúncia que deu origem ao inquérito. “Figura conhecida no mercado, Timmerman tentou, sem sucesso, obter vantagens sob a ameaça de denunciar fatos mentirosos. Sua ficha policial e judicial é extensa. As suas denúncias, fruto da resistência às suas tentativas de achaque, foram, todavia, algumas vezes investigadas pelas autoridades competentes, mas se concluíram absolutamente infundadas. Seu comportamento já foi inúmeras vezes denunciado por vítimas às autoridades, sendo que ele já foi inclusive condenado à prisão por essa mesma prática”, escreveu o Master.
Timerman afirmou que, por medidas cautelares, não pode se manifestar. O investidor foi condenado em primeira instância por perseguição a Tanure nas redes sociais. Também foi processado por executivos da Gafisa pelo mesmo motivo. Foi ainda alvo de mandado de busca e apreensão, após uma denúncia anônima acusá-lo de desviar fundos investidos no Esh. À época, Timerman negou todas as acusações.
Após a publicação da reportagem, Timerman afirmou que “nunca procurou o Banco Master para pedir absolutamente nada, nem solicitar qualquer pagamento”.






