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PF diz que provas colhidas indicam participação do BRB em fraudes do Master: ‘Não foi vítima’

Investigação aponta que anotações, mensagens, relatórios e depoimentos mostram que gestores do banco estatal permitiram compra de carteiras do Master mesmo diante dos indícios de irregularidades; BRB não se manifestou

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Foto do autor Aguirre Talento
Atualização:

Diretor do BC à PF diz que BRB deveria ter identificado fraudes nas carteiras do Master

Em audiência no STF em 30 de dezembro, Ailton de Aquino diz que governança do banco tinha como ter detectado problemas. Crédito: Imagens: STF

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

A Polícia Federal investiga fraudes financeiras envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, com aporte de R$ 12 bilhões em carteiras falsas. O BRB, acusado de participação direta, não é visto como vítima. O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi preso por aceitar propina. Depoimentos e documentos indicam que o BRB prosseguiu com operações suspeitas, apesar de alertas internos. A PF encontrou evidências de pressão para aprovar contratos rapidamente, sem análise adequada.

BRASÍLIA - A investigação da Polícia Federal sobre os crimes financeiros envolvendo o aporte de R$ 12 bilhões do Banco de Brasília no Banco Master por meio da compra de carteiras falsas indica que o BRB teve participação direta nas fraudes e não pode ser considerado uma “vítima” da atuação do banqueiro Daniel Vorcaro. Procurado, o BRB não se manifestou.

A PF apresentou no mês passado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça um relatório sigiloso com os principais pontos apurados sobre as fraudes do BRB para justificar a prisão do ex-presidente do banco, Paulo Henrique Costa, sob acusação de ter aceitado propina de R$ 146 milhões em imóveis. A defesa dele, que negocia uma delação premiada, não se manifestou.

Relatório da PF aponta que BRB não foi vítima do Master Foto: Adobe Stock

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De acordo com a PF, as provas demonstram que o BRB tomou ciência das suspeitas de fraudes nas carteiras de crédito adquiridas do Master desde o início das transações, no segundo semestre de 2024, e optou deliberadamente por dar prosseguimento às operações. Essas provas são compostas por depoimentos de dirigentes do BRB, anotações e documentos apreendidos, conteúdo dos celulares dos alvos investigados e relatórios financeiros.

“Os depoimentos indicam que o BRB não foi vítima da estratégia fraudulenta do Banco Master”, diz o relatório. Prossegue a PF: “Contrariando a diligência exigida na gestão contratual, os gestores mantiveram a operação mesmo após terem ciência formal do descumprimento de cláusulas contratuais referentes ao repasse financeiro, da inexistência dos comprovantes de averbação e de diversas outras fragilidades operacionais. Entre tais fragilidades destacam-se o controle manual de dados por meio de planilhas Excel e a ausência de estruturas mínimas de governança destinadas à adequada recompra e substituição dos contratos”.

Como revelou o Estadão, uma auditoria interna do BRB detectou que as carteiras de crédito vendidas pelo Master ao banco público de Brasília foram montadas em planilhas de Excel com e-mails falsos e idades fictícias. A PF afirmou ao ministro André Mendonça que só tomou conhecimento desse relatório porque apreendeu a documentação na primeira fase da Operação Compliance Zero, já que a gestão do ex-presidente do BRB nunca compartilhou essa investigação interna com a Polícia Federal.

“Esse conjunto fático evidencia, de maneira robusta, a participação do BRB na condução das práticas irregulares implementadas pelo Banco Master”, escreveu a PF.

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Pressão para assinar contratos e aprovar operações

A investigação colheu dois depoimentos considerados relevantes para o caso. Um deles foi do ex-diretor jurídico Jaques Maurício Ferreira Veloso, que ocupou o cargo durante a gestão de Paulo Henrique Costa.

Ele disse aos investigadores que, a partir de março de 2025 - mês em que o banco público fez uma oferta para comprar uma fatia do Master -, a diretoria jurídica começou a fazer recomendações para que as operações de compra das carteiras do Master fossem submetidas ao Conselho de Administração do BRB - o que não vinha ocorrendo.

“À medida que o tempo foi passando, os pareceres passaram a intensificar as recomendações de cautela, inclusive recomendando que as operações somente fossem realizadas com a regularização dos fluxos de repasses financeiros devidos e checagem de todos os lastros”, diz trecho do depoimento.

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Jaques também admitiu que as operações de compra das carteiras estavam sendo submetidas apenas à diretoria colegiada do BRB, ocupada por nomes de confiança de Paulo Henrique Costa, com a documentação disponibilizada apenas no dia da votação da operação.

A PF encontrou relatos e diálogos mostrando pressão sobre gestores do BRB para a assinatura de contratos de compra de crédito do Master em intervalos de tempo muito curtos, sem tempo para a análise da documentação.

“A equipe do BRB, pressionada pelo horário de fechamento, assinou três contratos sucessivos em um intervalo de poucos minutos, após diversas mudanças operacionais, sem a devida análise técnica. Essa situação é incompatível com processos prudenciais e indicativa de operação temerária”, diz o relatório.

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Um dos funcionários do BRB responsável por realizar a auditoria interna que detectou irregularidades nas carteiras do Master também prestou depoimento à PF e confirmou as suspeitas.

“Desde o início da compra das carteiras, em julho de 2024, já se observava um atraso recorrente do Banco Master em repassar tanto os arquivos analíticos quanto o dinheiro”, disse a testemunha, que não teve seu nome identificado no relatório.

Como mostrou o Estadão, as conversas do celular de Vorcaro mostravam que desde meados de 2024 o Master contava com os aportes do BRB para proporcionar liquidez às suas contas.

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‘Compras 90% fora da política do banco’

Anotações na agenda da ex-diretora de Riscos do BRB, Luana de Andrade Ribeiro, também demonstraram que Paulo Henrique Costa foi alertado em reuniões sobre os riscos envolvendo a compra de carteiras.

A PF apreendeu a agenda na primeira fase da operação. Em um dos trechos do documento, Luana fez comentários sobre uma reunião de 3 de julho de 2025 com Paulo Henrique Costa e outros diretores e escreveu que as operações descumpriam a política de riscos do banco. “Compras: 90% fora da política”.

Em reunião de outra data, 11 de julho de 2025, ela registrou que Paulo Henrique Costa sugeriu a necessidade de “salvar” o Master. “Presidente afirmou, novamente, que faz-se necessário efetivar as compras de carteiras, afirmando que esses créditos foram verificados e que se não houver, o Master vai quebrar”, escreveu no documento.

No outro trecho, Luana escreveu que a diretoria de riscos “argumentou sobre a dificuldade de defesa da compra” das carteiras, diante da necessidade de substituir as carteiras de crédito consignado suspeitas de irregularidades por outros ativos do Banco Master que também tinham inconsistências.

A PF afirma que a agenda “registra a continuidade da aquisição de ativos do Banco Master, apesar da existência de pareceres jurídicos contrários desde abril de 2025″.

Na outra ponta, a PF também apreendeu diálogos de Daniel Vorcaro e diretores do Banco Master sobre a confecção de documentos para tentar legalizar os contratos já assinados com o BRB para a venda dos seus ativos. Vorcaro discutia a alteração dos documentos em um grupo de WhatsApp encontrado pela PF em seu celular.

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