Alfabetização: crescem os desafios para aprender mais do que assinar o próprio nome

A crise sanitária acentuou problemas antigos e impactou de forma diferente os estudantes, a depender de aspectos geográficos, raciais e socioeconômicos

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Por Luiza Nobre
Atualização:

“R de Raimunda.” Em uma sala de aula improvisada na cozinha, Laura, então com 6 anos, rascunhava o próprio nome com a ajuda da mãe, Raimunda Barbosa, de 48 anos, que é semianalfabeta. A menina aprendeu a ler e escrever via celular, pela plataforma da Secretaria Municipal de Educação de Macapá, durante o isolamento social. “Eu olhava o livro e não conseguia ajudar muito. Foi assim que aprendi a dar mais valor aos professores”, diz Raimunda.

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A família do Amapá é um exemplo dos desafios enfrentados para a recuperação da aprendizagem relativa à alfabetização. Segundo dados de 2021 do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), três em cada dez crianças em fase de letramento apresentaram dificuldade em leitura e escrita de palavras simples, um problema que antecede a pandemia.

A pesquisa Alfabetiza Brasil registrou ainda queda de quase 25 pontos na média obtida pelos alunos em alfabetização – de 750, em 2019, para 725,5, em 2021. Com base nisso, o Ministério da Educação estabeleceu, pela primeira vez, a média mínima de 743 pontos como padrão nacional para a alfabetização.

Mesmo já projetados, os impactos da pandemia foram sentidos de forma variada, a depender de aspectos geográficos, raciais e socioeconômicos.

Laura se alfabetizou em casa com a ajuda da mãe, semianalfabeta Foto: Ingra Tadaiesky

Mais que assinar o nome

De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), crianças de 7 anos devem estar alfabetizadas. Mas o Brasil ainda não tem consenso metodológico sobre o que isso significa.

Para Patrícia Botelho, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o País ainda vive uma “briga ultrapassada” de métodos de alfabetização, que desvia a atenção das prioridades. Mais do que o ensino formal do código alfabético, o letramento trabalha a inserção do aluno no contexto social para adquirir conhecimentos.

“Mesmo as pessoas que não conseguem ter níveis mais complexos de leitura são consideradas alfabetizadas, porque são capazes de reconhecer termos comuns na linguagem oral cotidiana”, explica Patrícia.

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A dificuldade nos primeiros anos da escola, muitas vezes, está ligada à origem socioeconômica. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2019 revelam que 60% dos filhos de mães sem escolaridade são analfabetos funcionais. Mas não se trata de categorização determinista.

“Apesar de ser um preditor, mesmo com mãe ou pai analfabeto, se você consegue trazer a dinâmica da leitura para a família, nesse caso, com imagens e descrição da rotina, a criança pode ter desenvolvimento na máxima potência”, afirma Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, voltada para a primeira infância.

Desigualdades

Antes mesmo da pandemia, cerca de 16,5 milhões de crianças em idade escolar do País viviam em locais onde as condições para o ensino a distância eram restritas, por falta de equipamentos ou conexão, aponta a pesquisa TIC Educação, do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).

E, segundo a ONG Todos pela Educação, de 2019 a 2021, a taxa de crianças pardas e pretas de 6 a 7 anos sem domínio de leitura e escrita cresceu, respectivamente, 16,3% e 18,6%. Entre as brancas, a alta foi de 14,8%.

As desigualdades também apresentam caráter regional. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – Covid, de julho de 2020, expôs que a condição dos 10% mais ricos no Norte e em parte do Nordeste é igual ou pior à situação dos 10% mais desfavorecidos na maioria dos Estados do Sul e do Sudeste.

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Futuro

A recuperação da aprendizagem tem se desenhado a passos lentos, e engloba questões como desvio idade-série, déficit na formação de professores e recomposição do vínculo de alunos com a escola.

“No pós-pandemia eu encontrei mais dificuldades do que antes. As crianças chegaram para a alfabetização cruas”, diz Heloise Xavier, pedagoga da rede municipal do Vale do Paraíba (SP). Os dois anos de atividades remotas na educação infantil comprometeram etapas importantes, como desenvolver a coordenação motora fina, além de outros aspectos socioemocionais, como de comunicação e de trabalho em grupo.

O tema Alfabetização Responsável ganhará debate entre a repórter especial Renata Cafardo e convidados no dia 6 de outubro, às 9h, com transmissão pelas redes sociais do Estadão.

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