Cabelo comprido atrapalha a aprendizagem? E maquiagem? Unha pintada? Podem parecer perguntas absurdas, mas é exatamente esse tipo de regra que alguns governos latino-americanos estão apresentando como política para melhorar a disciplina nas escolas.
No Peru, a presidente Keiko Fujimori anunciou este mês que quer proibir nas escolas públicas cabelo comprido para meninos, cabelos tingidos, maquiagem, unhas pintadas e alguns acessórios, além de estabelecer regras para o comprimento das saias.
A inspiração vem do modelo de ordem associado ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que fez o mesmo em seu país, obrigando diretores de escolas a checar diariamente se os alunos estão com a aparência “adequada”, com regra específica até contra o corte moicano.
Na educação, já está mais do que claro que é preciso seguir a ciência e não palpites ou predileções. Não há evidência de que controlar a aparência dos estudantes melhore a aprendizagem. Nem mesmo o uniforme escolar, uma regra muito mais comum, tem efeito comprovado sobre as notas. Uma revisão publicada na Public Health Reviews em 2021 não encontrou impacto direto da vestimenta - que em alguns lugares do Brasil é chamada de farda - sobre o desempenho acadêmico.
Mas, claro, um ambiente organizado, com regras claras de convivência, menos interrupções e mais tempo dedicado às aulas favorece o ensino. Um estudo de pesquisadores da Austrália, publicado em 2016 a partir de dados do Pisa, a avaliação internacional de estudantes, encontrou associação entre maior disciplina em sala de aula e melhor desempenho acadêmico. Eles analisaram fatores como alunos que prestam atenção ao professor, nível de barulho e tempo que o docente precisa esperar para começar a aula.

Essa noção geral de que a indisciplina só é resolvida com regras rígidas também é o que sustenta a política das chamadas escolas cívico-militares de diferentes Estados do Brasil. Em muitas, há exigências de cabelo presos para meninas, curto para meninos, cores específicas de batom e uniformes com estética herdada dos uniformes militares, com até uso de boina.
São escolas públicas regulares que passam a adotar um modelo de gestão e disciplina com participação de militares da reserva ou de forças de segurança. Eles não substituem os professores, mas atuam na organização, na disciplina, na segurança e no acompanhamento da rotina escolar.
Apesar de algumas famílias elogiarem o modelo, principalmente em regiões muito vulneráveis e violentas, não há também nenhuma evidência consistente de que a militarização das escolas, por si só, melhore a aprendizagem.
Isso não significa que a disciplina não seja importante. Estabelecer limites para comportamentos que impeçam os colegas ou o próprio aluno de aprender é uma coisa. Determinar como uma criança ou adolescente deve manter seu cabelo, pintar as unhas ou se apresentar é outra.
É especialmente triste o fato de esse movimento ganhar força na América Latina; uma região marcada pela mistura de culturas e por formas intensas de expressão — na música, na dança, nas festas, nas roupas, nos cabelos, no corpo. Em que a diversidade cultural é parte constitutiva da vida social.
E isso é ainda mais problemático quando falamos de adolescentes, que, diferentemente das crianças menores, acabam se conectando cada vez menos com as escolas. Uma meta-análise que reuniu 82 estudos e mais de 200 mil estudantes encontrou associação positiva entre se sentir parte da escola e desempenho acadêmico, além da relação com motivação e engajamento.
Pertencer significa sentir que aquele espaço também é seu, que você é reconhecido e respeitado nele. Para um adolescente, isso pode envolver coisas que parecem pequenas para um adulto, mas que fazem parte da construção de sua identidade: o cabelo, a roupa, a maquiagem, um brinco, a maneira de se apresentar.
E, ainda, em tempos tão polarizados, é sempre bom lembrar que a escola é um dos primeiros espaços públicos em que crianças e jovens precisam aprender a conviver com quem pensa, parece e vive de maneira diferente.
Um aluno pode estar de cabelo moicano e unha pintada e, ainda assim, saber que não pode agredir um colega, interromper uma aula ou desrespeitar um professor. Se queremos jovens mais disciplinados, é muito mais produtivo fazer com que se sintam parte da escola, felizes e respeitados, do que transformá-la em um lugar no qual precisam se esforçar para se encaixar. É difícil uma escola ser democrática quando para pertencer, primeiro é preciso aprender a parecer igual.
