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Técnico vê Equador valente na Copa e elogia colegas estrangeiros no Brasil: ‘Rico em diversidade’

Em entrevista ao ‘Estadão’, Sebastián Beccacece conta como seleção cresceu até vice nas Eliminatórias e relembra título em cima do Palmeiras

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Foto do autor Leonardo Catto
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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Foto: Sebastián Beccacece via X
Entrevista comSebastián Beccacecetécnico do Equador

O Equador começou a disputa das Eliminatórias Sul-Americanas da Copa do Mundo 2026 com três pontos negativos, por uma punição sofrida na Corte Arbitral do Esporte (CAS). Terminou com a segunda melhor campanha, atrás apenas da atual campeã Argentina.

O ponto de virada foi a chegada do técnico Sebastián Beccacece em agosto de 2024. Ele estreou com derrota por 1 a 0 para o Brasil, na época de Dorival Júnior. Depois, não perdeu mais e sofreu apenas dois gols até a rodada final, na qual venceu os argentinos.

“Havia muita desconfiança, muito descontentamento. Creio que (a evolução) é produto da espontaneidade, da conexão imediata que tivemos com os jogadores e de ter feito com que isso facilitasse a tarefa. Parece hoje, com a vantagem da retrospectiva, que o caminho era muito simples", conta Beccacece em entrevista ao Estadão.

Sebastián Beccacece quer Equador 'valente' no Mundial para superar melhor desempenho da seleção até então. Foto: LaTri via X

O argentino de 45 anos foi auxiliar técnico de Jorge Sampaoli. Ele ficou conhecido no Brasil pelo destaque que teve no comando do Defensa y Justicia, entre 2021 e 2022. Com a equipe, conquistou a Recopa Sul-Americana de 2021 em cima do Palmeiras.

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Além do Defensa, Beccacece tem passagens por Independiente, Racing e Elche, da Espanha. Já esteve próximo do futebol brasileiro, em negócios que não se concluíram.

Ele vê com bons olhos a presença de técnicos estrangeiros no Brasil. “É uma liga que cresce dia a dia pelo investimento que existe, pela qualidade de jogadores que existe e, bem, creio que também pela diversidade de abrir-se a determinados perfis de treinadores, sejam eles portugueses, brasileiros, argentinos, uruguaios”, opina, comparando com o que acontece na Premier League, na Inglaterra.

Sebastián Beccacece comandou o Defensa y Justicia no título da Recopa de 2021 sobre o Palmeiras. Foto: Recopa via X

Um futuro no Brasil não é descartado. “Hoje estou muito feliz com o presente na seleção do Equador. Desfruto muito ser técnico de seleção também. Agradeço por esse espaço e estou sempre, como digo, aberto ao que a vida trouxer”, diz.

Como você avalia que a seleção equatoriana alcançou o bom nível que apresentou nas Eliminatórias?

Que bom que incluiu as Eliminatórias, porque hoje, a pouco tempo do Mundial, são poucos os jornalistas que reconhecem e valorizam o caminho percorrido para a obtenção da classificação.

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Quando chegamos, era um momento em que, obviamente, a troca de treinador significava que estávamos a três pontos da eliminação em todos os tipos de repescagem, e havia muita incerteza. Havia muita desconfiança, muito descontentamento. Creio que (a evolução) é produto da espontaneidade, da conexão imediata que tivemos com os jogadores e de ter feito com que isso facilitasse a tarefa.

Parece hoje, com a vantagem da retrospectiva, que o caminho era muito simples. Temos a vantagem de termos jogadores muito bons. Todos querem estar na seleção. E, por outro lado, a desvantagem de que, em tão pouco tempo, tivemos de trabalhar muito a qualidade, não tanto em quantidade, e ser muito precisos e contundentes.

Moisés Caicedo, do Chelsea, é um dos destaques do Equador de Beccacece. Foto: Dolores Ochoa/AP

O que mais valorizo no processo classificatório foi a quantidade de jovens que promovemos. Estreamos 18 jovens. Entre a lista do último Mundial e esta, teremos 16 novos jogadores. Se conto os que estavam, mas não participaram no Mundial passado, são 18.

Estamos falando de um número alto, o qual considero que é uma grande força desta gestão, valorizando o caminho percorrido anteriormente por outros treinadores, por formadores e pelas instituições. Isso não tira o mérito de todos que vêm trabalhando no Equador.

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O espaço para os jovens, para que os “Vites”, “Angulos”, “Ordóñez” possam também participar e estar à altura de jogadores que já vêm se consolidando em nível internacional em clubes: Moisés Caicedo, Pacho, Hincapié, a experiência de Enner… isso faz com que haja uma linda combinação entre a experiência, a geração intermediária e jovens que se conectaram muito bem. Creio que aí está um ponto forte nosso. Essa diversidade e esse espaço de oportunidade, aproveitando também o que já estava construído.

Você diria que hoje o Equador é um time mais propositivo com a bola ou joga de maneira mais reativa?

Nós tentamos ser dominantes, mas muitas vezes não conseguimos. Creio que também sabemos jogar nessa faceta muito bem, porque as características dos nossos jogadores ajudam. São atletas muito comprometidos em recuperar a bola, do atacante ao goleiro. Temos mecanismos que, ao roubar a bola, nos permitem transitar muito bem.

Willian Pacho, finalista da Champions com o PSG, é pilar defensivo do time do Equador, junto de Piero Hincapié. Foto: Franck Fife/AFP

Estamos tentando implementar um jogo de maior posse e controle, o que ainda nos dá trabalho, mas a escolha dos jogadores em determinados lugares do campo manifesta essa intenção. Não é o mesmo jogar com um Pedro Vite organizando ou com um volante de contenção, ou complementar com Gonzalo Plata na zona de volantes. Ainda temos muito a melhorar no ataque em espaços reduzidos, mas vejo uma evolução que me dá tranquilidade de que estamos no caminho correto.

Há quem defenda adotar táticas do futebol europeu, mesmo sacrificando identidades do futebol sul-americano. Como você vê esse debate na perspectiva da seleção equatoriana?

O que buscamos é nos adaptar aos jogadores que temos e tentar desenvolver também uma marca do que sentimos. Quando alguém decide assumir um lugar, minimamente observa se o que sente está relacionado com o que existe.

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Eu, antes de vir para o Equador, fiz um estudo muito profundo das características dos jogadores. Nessa análise, as perguntas que sempre faço são essas. “Somos compatíveis?”, “Existem pontos de união?”.

Pode acontecer esta conexão imediata, como aconteceu, porque sabemos do pouco tempo que existe e que, ao não termos amistosos, não havia margem de erro. Então, essas perguntas que fiz, com o tempo, foram respondidas e, hoje, eu diria que temos uma compatibilidade muito boa, na qual acredito que somos uma equipe intensa, agressiva, valente e que tenta protagonizar as partidas.

Se eu tiver que definir o Equador, é isso, mas também com a capacidade de se adaptar a diferentes obstáculos, de estar com um a menos ou aprender a jogar com um a mais, coisas que foram acontecendo conosco na competição e acredito que nós temos que continuar buscando essa evolução permanente.

Você está disposto a mudar seu estilo dependendo de cada oponente?

Sim, dentro de uma matriz na qual a ideia não varia, sempre há detalhes, sempre há situações que merecem ser revisadas. Fala-se, no ataque, em estruturas, em formações, em uma mudança posicional ou em uma mudança estratégica. Também sabendo, às vezes, que há partidas que podemos chegar a planejar a partir de um lugar no qual talvez não nos caiba ser dominados.

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Sempre tento ser pragmático, sem perder a essência do que sinto, do que acredito, que tem a ver com o perfil de jogador, para levar adiante uma ideia. No final, podemos ter ideias brilhantes, mas os que vão executar são o importante de tudo isso. São os jogadores os que manifestam, através da ação no campo, o sentir de um treinador.

Você traz consigo referências de grandes trabalhos anteriores, como aquele Defensa y Justicia, campeão da Recopa. Como aplicar as ideias de outros trabalhos na seleção?

No Defensa, tivemos um processo de quatro anos, no qual nos adaptamos às características dos jogadores e conseguimos jogar de igual para igual contra potências como o Palmeiras. Ganhamos na casa deles, o que mostra que não foi casualidade. Tenho 23 anos de profissionalismo (13 como assistente, 10 como treinador) e essa experiência permite transmitir conhecimento em diferentes circunstâncias.

Sebastián Beccacece comandou Defensa y Justicia na conquista da Recopa sobre o Palmeiras. Foto: Defensa y Justicia via X

Além do conhecimento do jogo, dedico muito tempo à parte emocional e humana, conhecendo as raízes dos jogadores e empatizando com eles. É preciso conectar o conhecimento técnico com a conexão emocional individual para, depois, levar esse indivíduo a um serviço coletivo baseado em valores que nos identifiquem.

Quais são as diferenças que você nota entre a pressão sobre o treinador na Argentina e no Equador?

Acredito que hoje o mundo em geral tende ao “imediatismo”. Há muita impaciência devido ao ritmo em que vivemos, o que vai contra o processo natural das pessoas. Não sinto uma diferença gritante de um lugar para outro. Em qualquer lugar, as exigências são máximas e te levam à urgência. Na urgência, muitas vezes perdemos de vista os processos. Para construir algo sólido, é preciso percorrer um caminho, passar por momentos dolorosos e bem-sucedidos. O sucesso é temporário, e os momentos de angústia nos fortalecem.

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Além do conhecimento do jogo, dedico muito tempo à parte emocional e humana, conhecendo as raízes dos jogadores e empatizando com eles.

Sebastián Beccacece, técnico do Equador

Você já foi vinculado a muitos clubes do Brasil. Sente vontade de trabalhar no país no futuro? Algum clube em particular?

Sim, estive muito perto de muitas equipes brasileiras. Estive muito perto, em um momento, do (Athletico) Paranaense, do Mineiro, tive uma aproximação com o Palmeiras também. Creio que (o Brasil) é sempre um espaço que reparou no que temos feito.

Sou muito grato. Por diferentes motivos, acabou não acontecendo, mas é uma liga que cresce dia a dia pelo investimento que existe, pela qualidade de jogadores que existe e, bem, creio que também a diversidade de abrir-se a determinados perfis de treinadores, sejam eles portugueses, brasileiros, argentinos, uruguaios, permitiu também que a liga seja mais rica em diversidade.

Creio que isso foi muito bem feito, um pouco como o que aconteceu na Premier (League), porque é certo que antes era mais difícil que, no Brasil, dirigisse um treinador que não fosse brasileiro, como acontece na Itália também.

Creio que haviam mantido mais essa rigidez e, ao abrir-se, isso também enriquece, porque, no final, o que acontece na Premier, ter essa diversidade de diferentes lugares do mundo, diferentes culturas, tanto a nível de jogador quanto a nível de treinador, enriquece qualquer um. E eu creio que o Brasil está fazendo isso muito bem.

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Hoje estou muito feliz com o presente na seleção do Equador. Desfruto muito ser técnico de seleção também. Agradeço por esse espaço e estou sempre, como digo, aberto ao que a vida trouxer.

Há algum recado para jovens que sonham em trabalhar com futebol?

Minha mensagem é de gratidão por poder trabalhar no que me apaixona. Quero que isso sirva de exemplo para os jovens. Sigam seu coração e seu impulso. Vocês receberão muitos “nãos” no caminho, mas, quando se conectam com sua essência e propósito, as coisas acabam acontecendo. Gostaria que os jovens descobrissem o talento que todos possuímos nesta aventura que é a vida.