'Não terá glamour de Real ou Barcelona, mas terá ótimas histórias', diz André Henning
Marcel Rizzo conversa com André Henning, narrador da TNT Sports e conhecido como a "voz da Champions", que fará sua 16º narração de final da competição.
Há 14 anos, o QSI (Qatar Sports Investments), fundo ligado ao Governo do Catar, se tornou dono majoritário do Paris Saint-Germain e mudou o rumo do clube, transformando-o em uma potência do futebol mundial. Depois de dominar o cenário nacional, a equipe da capital francesa busca neste sábado o inédito título da Champions League.
Agora, quem também recebe investimento milionário é o modesto Paris FC, clube com história ligada à origem do PSG. O sonho é disputar em breve competições europeias.
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No fim do ano passado, o “primo pobre” do PSG foi comprado pela família Arnault, a mais rica da França, proprietária do grupo LVMH, de artigos de luxo, com marcas famosas como Louis Vuitton, Dior e a champagne Moet Chandon. A empresa adquiriu 52% da propriedade do clube. Além disso, a Red Bull, marca forte no esporte, passou a ter 11% de participação no Paris FC, enquanto o atual presidente Pierre Ferracci fica com 30% das ações.

E o aporte financeiro já deu os primeiros resultados rapidamente. Nesta temporada, o time foi vice-campeão da Ligue 2 e subiu para a Primeira Divisão do Campeonato Francês, que não disputa há 46 anos, desde 1979.
De acordo com o jornal “L’ Équipe”, o investimento da família Arnault no Paris FC será de até 200 milhões de euros (R$ 1,3 bilhão) ao longo de vários anos. Para a disputa da Ligue 1 na próxima temporada, o orçamento estimado é entre 70 e 100 milhões de euros (R$ 450 e 650 milhões), dependendo ainda das cotas de TV. Ou seja, seria entre a sétima e nona equipe que mais recebe na elite do Francês. O PSG gastou aproximadamente 200 milhões de euros em salários somente na temporada 2024-25, com cerca de 239 milhões de euros (R$ 1,56 bilhão) gastos em taxas de transferências.
Apesar do dinheiro, a princípio o clube não deve contratar grandes estrelas. O planejamento é subir os degraus aos poucos. O projeto da diretoria é atrair jovens da região parisiense e periferia para formar novos craques nas categorias de base.
“A região de Paris é a maior fonte de talentos do mundo, talvez a segunda maior, se incluirmos São Paulo. Nossa estratégia será construir o melhor centro de treinamento da França. Hoje, muitos jogadores jovens passam por Paris e acabam em outros lugares. Queremos construir um time no qual possamos escalar seis, sete ou oito jogadores do centro de treinamento. Ajudá-los a crescer e, quando começarem a ter um bom desempenho, vendê-los. Não estamos aqui para mudar tudo e virar o jogo. É um projeto a longo prazo”, explicou Antoine Arnault, acionista majoritário do Paris FC, em entrevista coletiva.
Paris FC será vizinho do PSG
Nas últimas semanas viralizou nas redes sociais um post mostrando que o Paris FC será vizinho do Paris Saint-Germain. A partir da próxima temporada, o time vai mandar seus jogos no estádio Jean Bouin, que fica de fato colado no Parque dos Príncipes, casa do PSG.
Apenas uma pequena rua separa os dois estádios, uma distância de cerca de 20 metros no ponto mais próximo entre eles. Devido a essa proximidade, a liga francesa terá que fazer o calendário do campeonato em colocar jogos dos dois times no mesmo dia. O Jean Bouin pertence à Prefeitura de Paris, foi totalmente reformado em 2013 e tem capacidade para 20 mil torcedores. O Paris FC vai dividir a utilização do estádio com o Stade Français, tradicional time de rúgbi do país, que também joga no local. Além disso, uma loja oficial do PSG fica localizada em uma área da nova casa do Paris FC.
O Paris FC não tem estádio próprio e já mudou de casa várias vezes. Desde 2007, mandava seus jogos no estádio Charléty, com capacidade para 20 mil pessoas, espaço que dividia com equipes universitárias e de atletismo. Durante esta temporada da Segunda Divisão, para atrair mais torcedores, a diretoria colocou todos os ingressos gratuitos em todos os jogos no Charléty.
Na última rodada do campeonato, dia 10 de maio, quando venceu o Ajaccio por 2 a 0, a torcida fez uma bonita festa pelo acesso histórico para a Ligue 1 e houve grande invasão de campo na comemoração após o apito final. Apesar de estarem animados com o futuro do clube, os torcedores também fazem algumas ressalvas.
“No futebol de agora sabemos que, se não houver grandes investidores, será complicado existir. É necessário ter dinheiro, então nós escolhemos apoiar. Mas também vamos monitorar a questão da multipropriedade, porque a Red Bull está nessa compra e ela tem outros clubes. Vamos fazer de tudo para que o clube permaneça familiar e acessível a todos”, disse Maxence Glevarec, líder da torcida organizada Ultras Lutetia.
Red Bull é parceira esportiva
Apesar da preocupação de alguns torcedores com a participação da Red Bull, o clube garante que a situação não é a mesma de outras equipes. Diferente do que acontece no Leipzig, da Alemanha, no Salzburg, da Áustria, e no Bragantino, do Brasil, por exemplo, no Paris FC a empresa austríaca não será proprietária. E o clube francês não vai mudar seu símbolo, cores ou uniforme. É uma parceria esportiva, e o Paris FC já conta com o trabalho do alemão Jurgen Klopp, ex-técnico do Liverpool, e atual diretor global do grupo Red Bull.
Ele já se reuniu com membros da diretoria, comissão técnica e atletas, visitou o centro de treinamento em Orly e assistiu a algumas partidas no estádio Charléty.
“O Jurgen Klopp está muito animado com esse projeto, para nos ajudar com a visão dele. E nós vamos usar o conhecimento da Red Bull, eles têm ferramentas de dados revolucionárias”, afirmou Antoine Arnault, que completou.
“O clube pertence à minha família. Não será copropriedade da família Arnault e da Red Bull. Eles não querem entrar em uma multipropriedade com um hipotético ‘Red Bull Paris FC’, não é a mesma lógica que têm em outros clubes. Aqui, é realmente um parceiro esportivo”.
Origem ligada ao PSG
Fundado em 1969, o Paris Football Club, ou Paris FC, se fundiu com o Stade Saint-Germain no ano seguinte e deu origem ao Paris Saint-Germain. A ideia era que a capital da França começasse a ter um time forte de futebol para competir com outras cidades com mais tradição no esporte. No entanto, três anos depois, o Governo municipal só aceitou ajudar financeiramente se o clube adotasse o nome de Paris, sem o Saint-Germain. Como não houve acordo entre as partes, eles se separaram logo em 1972, e seguiram caminhos bem distintos. As semelhanças ficaram apenas na cidade, nome e na imagem da Torre Eiffel no símbolo de ambos.
Enquanto o PSG cresceu e se transformou numa potência internacional, o Paris FC sofreu em divisões inferiores e teve dificuldades para construir sua identidade. A última vez que se enfrentaram foi em 1979, com dois empates. Pela diferença de realidade entre os dois clubes da capital, hoje não existe rivalidade entre eles. E a estratégia de marketing dos administradores do Paris FC é, pelos menos por enquanto, de não colocar as duas equipes como rivais. Pelo contrário, o novo integrante da Ligue 1 quer se posicionar no mercado como um time mais popular e com parcerias locais. Ambos os presidentes, o francês Pierre Ferracci, e o catari Nasser Al Khelaifi, inclusive já trocaram palavras de elogios, e o novo acionista majoritário do Paris FC vai pelo mesmo caminho de uma relação amigável.
“Há espaço para outro clube em Paris. Fui sócio do PSG por muitos anos, agora sou convidado pelo meu amigo Nasser. Você nunca me ouvirá dizer nada negativo sobre o PSG. É um clube que admiro e que permanecerá no meu coração. No dia em que estivermos na Ligue 1, sempre torcerei pelo PSG, exceto duas vezes por ano”, disse Antoine Arnault.
Raí é o representante do Brasil no Paris FC

Para ajudar nesse processo de popularização, o modesto clube parisiense conta justamente com um ídolo do Paris Saint-Germain. O ex-jogador Raí, que atuou no PSG entre 1993 e 98, trabalha como embaixador do Paris FC desde 2022. O brasileiro tem relação direta com a diretoria do clube e ajuda na tentativa de atrair novos parceiros comerciais e também nos contatos para a contratação de atletas.
“Eu estou muito feliz, muito orgulhoso de fazer história mais uma vez aqui na França, no futebol, fazer parte de um projeto histórico. Não tenho dúvidas que em poucos anos o Paris FC vai se tornar a segunda força aqui de Paris, mas também com a ambição de ser uma das grandes também da Europa”, afirmou Raí.
“Quando eu entrei aqui no Paris FC, eu fiz questão de comunicar isso aos torcedores do Paris Saint-Germain. Na verdade, mais do que decepção, eles ficaram um pouco sem entender porque eu não estava no PSG. Mas para mim é um novo desafio”, completou o brasileiro.
Na campanha de sucesso na Segunda Divisão do Campeonato Francês em 2024-2025, sob o comando do técnico Stéphane Gilli, os principais destaques do Paris FC foram o artilheiro
Jean-Philippe Krasso, os meio-campistas Maxime Lopez e Ilan Kebbal, o experiente zagueiro Timothée Kolodziejczak e o goleiro Obed Nkambadio. Jogadores pouco conhecidos internacionalmente. Por causa da exigência de um nível mais alto na Ligue 1, a expectativa é que alguns nomes saiam e que cheguem de seis a oito reforços para a próxima temporada. Mesmo sem estrelas, o “primo pobre” do PSG, agora um novo rico, espera conseguir uma boa campanha em sua volta à elite do futebol da França.
Se atualmente a realidade do Paris Saint-Germain é tentar ser campeão da Champions League pela primeira vez, o Paris FC quer ir passo a passo. Mas com o investimento feito, também sonha em romper as fronteiras internacionais, primeiro disputando a Conference League ou a Europa League, por exemplo, torneios continentais inferiores à Liga dos Campeões da Europa.




