Chineses tentam sair do país por causa dos bloqueios da política de covid-zero

Foto: Aly Song/Reuters
Por Vivian Wang e Alexandra Stevenson

Consultas a especialistas em imigração aumentaram; usuários de redes sociais trocam dicas sobre como ir embora

Por Vivian Wang e Alexandra Stevenson

THE NEW YORK TIMES - Clara Xie pergunta-se há muito tempo se algum dia deixará a China. Ela não aguenta mais a censura do regime e, enquanto lésbica, quer viver em um país que aceite melhor relações entre pessoas do mesmo sexo. Ainda assim, a ideia lhe parecia distante — ela era jovem e não sabia nem que país escolher.

O coronavírus e os restritivos esforços que a China empreende para impedi-lo escancararam a questão em sua cabeça. Dois anos de restrições a viagens tornaram impossível para Xie, de 25 anos, ver sua namorada, que vive nos EUA. Quando o lockdown foi imposto sobre Xangai, em março, seu trabalho como modelo, em grande parte com base na cidade, minguou. Agora ela acionou um advogado especializado em imigração para se informar a respeito das opções que tem para deixar o país.

Continua após a publicidade

Continua após a publicidade

Xie é membro de um pequeno, mas crescente grupo de chineses que estão buscando fugir dos controles pandêmicos da China, que entram no terceiro ano. Muitos são moradores de Xangai, de classe média ou ricos, que estão trancados dentro de casa há quase dois meses por um lockdown que abrange toda a cidade, castiga a economia e limita o acesso dos cidadãos a comida e medicamentos.

Alguns, como Xie, possuem laços no exterior e se preocupam com a possibilidade da porta de saída da China estar se fechando. Outros estão desenganados com o aumento na censura e na vigilância do governo, que foram agravadas pela pandemia.

Avenida deserta na região de Pudong, em Xangai, em razão do lockdown
Avenida deserta na região de Pudong, em Xangai, em razão do lockdown 

“Não sou capaz de mudar e nem posso condenar a atual situação na China”, afirmou Xie, que vive na Província de Jiangsu, que faz fronteira com Xangai. “E se a gente não consegue mudar nada, a única coisa que sobra é fugir.”

Essa pressa para ir embora contrasta com a triunfante narrativa das autoridades a respeito da pandemia, segundo a qual seus rígidos controles tornaram a China o único lugar seguro em um mundo devastado pelo vírus — em mais um sinal de que a estratégia de covid-zero do governo está cobrando um preço cada vez mais alto.

Buscas online pelo termo “emigração” aumentaram 440% no mês passado, de acordo com uma ferramenta de rastreamento. Alguns internautas até cunharam um termo que se popularizou para definir esse pensamento: “filosofia de fuga”. Consultores em imigração afirmam que a quantidade de clientes perguntando como deixar a China tem aumentado desde o início do lockdown em Xangai.

“Certamente dobrou”, afirmou Edward Lehman, advogado com base em Xangai que oferece serviços imigratórios.

O número verdadeiro de pessoas que tentarão realmente deixar o país é incerto. Apenas cerca de 10% dos chineses tinham passaporte em 2019. Os EUA também dificultaram as condições para alguns estudantes chineses obterem vistos, citando preocupações de segurança nacional.

As autoridades chinesas também estão coibindo as partidas. Na semana passada, as autoridades de imigração da China afirmaram que restringirão “estritamente saídas não essenciais de cidadãos chineses”. Segundo o governo, a medida tem relação com a pandemia, serve para reduzir o índice de infecções importadas. Mas alguns usuários chineses de redes sociais consideraram a medida uma tentativa de evitar fuga de cérebros.

Pequim já havia anunciado, no ano passado, que não renovaria nem emitiria a maioria dos passaportes comuns, exceto para trabalho, estudo ou emergências no exterior. O número de passaportes emitidos no primeiro semestre de 2021 correspondeu a 2% do número emitido no mesmo período de 2019, de acordo com as autoridades chinesas de imigração.

Em pelo menos uma cidade, Leiyang, na Província de Hunan, o governo recolheu passaportes de moradores para impedi-los de deixar o país, mas uma autoridade localizada pelo telefone nesta semana afirmou que essa política não está mais em vigor.

Agente comunitário guia residentes que aguardam em fila para testagem de covid no distrito de Pudong, Xangai. Foto: Liu Jin/AFP
Agente comunitário guia residentes que aguardam em fila para testagem de covid no distrito de Pudong, Xangai. Foto: Liu Jin/AFP Foto: LIU JIN / AFP

Alguns cidadãos chineses querem ir embora por causa da sensação de que as restrições em seu país os colocaram crescentemente fora de compasso em relação ao restante do mundo.

“Não acho que eles se importem com o quanto as pessoas estão sofrendo”, afirmou Cherry Burton, de 29 anos, uma cidadã chinesa, de Xangai, que adotou o sobrenome do marido. “Só se importam com covid-zero.”

Por causa do lockdown de Xangai, ela e o marido não saem do apartamento onde vivem desde 1.º de abril. Agora eles planejam deixar o país assim que o lockdown for suspenso e ela tiver tempo para completar sua solicitação de visto para os EUA.

A frustração não se limita a Xangai. Pessoas de outras cidades preocupam-se com a possibilidade de serem submetidas a lockdowns similares ou sentem o aperto econômico dos lockdowns nacionalmente.

Jason Xia, de 51 anos, proprietário de uma firma de decoração na cidade de Nanjing, costumava viajar para outras províncias regularmente a trabalho. Mas há semanas ele está impedido de fazer isso, por causa das restrições a viagens dentro do país que ficaram cada vez mais comuns desde o início do lockdown em Xangai.

Este mês, ele se juntou à sua mulher e seus dois filhos em Malta, onde a família havia solicitado residência anteriormente. “Todos sabem qual é a situação da China agora: você basicamente não pode fazer nada”, afirmou ele.

Xia planejava inicialmente dividir o tempo entre os dois países para conseguir manter sua empresa em atividade, mas agora está hesitante em relação a retornar para a China antes que os lockdowns sejam levantados.

Deixar o país lhe pareceu urgente porque seu passaporte expiraria no ano seguinte, e ele temia que as autoridades responsáveis na China se recusassem a renovar o documento, mas esperava que as autoridades chinesas em Malta poderiam ser mais prestativas.

Para contornar as limitações das autoridades de imigração em emitir passaportes apenas para trabalho ou estudo, alguns chineses compraram propostas falsas de trabalho ou cartas falsas de aprovação em entidades de ensino, de acordo com a revista Sixth Tone, um meio de comunicação controlado pelo Estado com base em Xangai.

O fechamento do país fez com que alguns jovens chineses temerem por suas futuras carreiras, afirmou Jenny Zhao, de 33 anos, que dirige uma entidade sem fins lucrativos de mentoria para estudantes universitários.

“Os estudantes sempre me fazem a mesma pergunta: ‘Como seremos capazes de dar conta deste mundo em transformação estando na China?’”, afirmou Zhao, que viveu e trabalhou na França durante uma década. “‘Teremos menos oportunidades que vocês tiveram?’” Ela lhes responde que eles devem colocar o foco nas oportunidades que têm em seu país em vez de mirar o exterior.

Para outros jovens chineses, a diminuição da sensação de oportunidade apenas fortaleceu sua determinação em deixar o país.

Explicitamente políticos

No website Zhihu, um fórum de perguntas e respostas, uma postagem pedindo explicação para a “filosofia de fuga” difundida online foi lida mais de 7,5 milhões de vezes. Na GitHub, uma plataforma online popular entre programadores, um fórum específico oferece dicas a respeito de quais programas acadêmicos estrangeiros são mais fáceis de entrar.

Descrevendo por que pretendem deixar a China, alguns usuários citam a monotonia de ficar trancado em casa. Outros apontam agruras econômicas, como o hiper competitivo mercado de trabalho entre os recém-formados. Outros são explicitamente políticos.

Um ensaio postado no fórum GitHub, intitulado “Por que tenho de sair correndo”, diz: “O sistema tirânico de um grande líder sempre tem de estar certo”, referindo-se à recusa do governo chinês em mudar suas políticas anticovid. “As pessoas parecem animais enjaulados.”

Ainda assim, mesmo os mais dedicados adeptos dessa filosofia reconhecem que os caminhos seguem estreitos. Eles alertam a respeito da baixa probabilidade de ganhar nos sorteios de vistos dos países ocidentais e para os elevados preços das mensalidades no ensino estrangeiro.

Residente de Xangai dirige sua bicicleta por ruas esvaziadas da cidade, sob lockdown. Foto: Aly Song/Reuters
Residente de Xangai dirige sua bicicleta por ruas esvaziadas da cidade, sob lockdown. Foto: Aly Song/Reuters  Foto: Aly Song/Reuters

Forrest Sheng Bao, professor de ciência da computação da Universidade Estadual de Iowa que fez um post no GitHub oferecendo-se para ajudar possíveis candidatos, afirmou que muitos dos cerca de 15 estudantes que o procuraram nas semanas recentes não tinham possibilidade de pagar pelo estudo na instituição ou não se qualificavam academicamente.

Aqueles que têm capacidade para deixar o país também sabem que a coisa não será fácil para eles.

Ray Chen, que trabalha com tecnologia financeira em Pequim, afirmou que anteriormente considerava que seus prospectos de carreira seriam limitados se ele fosse para o exterior — e que ele poderia virar uma pessoa solitária. Mas Chen buscou aconselhamento imigratório mesmo assim, e está considerando se mudar para Portugal ou Grécia.

Ainda que a pandemia não tenha sido a única razão para convencê-lo a deixar o país, Chen também deseja um custo de vida mais barato e casamentos entre pessoas do mesmo sexos legalizados - os lockdowns da China cristalizaram seu medo de ter tão pouco controle sobre sua própria vida.

“Não é só a pandemia em Xangai, é que o país inteiro foi para extremos”, afirmou Chen. “Aqueles que realmente tomam as decisões a respeito do meu ambiente de vida têm poder absoluto, mas têm pontos de vista diametralmente opostos aos meus.”

Ele acrescentou: “Isso é muito assustador e me faz sentir que não há nenhuma razão para ficar”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro?Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Publicidade