Jeffrey Epstein: relembre o caso e entenda acontecimentos recentes

Ex-príncipe Andrew, do Reino Unido, foi preso nesta quinta-feira, 19, em investigação sobre Epstein; milhões de páginas de documentos relacionados ao financista foram divulgados no fim de janeiro, revelando relacionamentos com pessoas poderosas

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Jeffrey Epstein: relembre quem era o bilionário e como o caso veio à tona

Escândalo expõe uma série de pessoas ligadas a Epstein, preso por acusações de abuso e tráfico sexual com menores de idade. Crédito: Mariana Cury (roteiro) e João Abel (edição)

O ex-príncipe da monarquia britânica Andrew Mountbatten-Windsor foi preso nesta quinta-feira, 19, por suspeita de má conduta em cargo público, devido a uma investigação relacionada ao financista Jeffrey Epstein, condenado por exploração sexual de menores. Ele foi liberado horas depois.

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A prisão de Andrew ocorre na esteira da divulgação pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, no fim de janeiro, de milhões de documentos da investigação federal sobre Epstein, além de milhares de vídeos e fotos.

Os novos arquivos trazem revelações sobre relações e negócios de Epstein com pessoas famosas, e mostram outros crimes que teriam sido cometidos na ilha pessoal do bilionário e em outras propriedades. Além de Andrew, irmão do rei Charles III, nomes como Donald Trump e Elon Musk também são citados. Entenda o caso a seguir.

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Quem foi Jeffrey Epstein?

Jeffrey Epstein nasceu e cresceu na cidade de Nova York. Apesar de não ter se formado no ensino superior, ele começou a carreira como professor de matemática na escola de elite Dalton School, no famoso bairro de Manhattan, onde teria mostrado comportamento impróprio em relação às alunas adolescentes e acabou demitido por “mau desempenho”. Mas a origem da fortuna do milionário está no mercado financeiro.

O americano entrou no banco de investimentos Bear Stearns em 1976 - na época, o diretor executivo da instituição era Alan Greenberg, que tinha filhos que frequentavam a Dalton School. O trabalho com investimentos o ajudou a construir uma rede de contatos, especialmente após a fundação da sua própria empresa na área, a J. Epstein and Co, em 1982.

Qual era a fortuna de Epstein?

Conforme a fortuna de Epstein crescia, a sua relação com celebridades, artistas e políticos também se tornava mais próxima. O patrimônio líquido de Epstein em 2019 foi estimado em aproximadamente US$ 560 milhões (cerca de R$ 3,1 bilhões na cotação atual), de acordo com informações da emissora americana CBS News.

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Quais crimes ele cometeu?

Epstein foi acusado de liderar uma rede de exploração e tráfico sexual de menores de idade, ao lado da ex-namorada, Ghislaine Maxwell. Ele teria recrutado adolescentes para realizarem atos sexuais em troca de dinheiro em suas propriedades em Nova York, na Flórida, no Novo México e na sua ilha particular no Caribe, entre 2002 e 2005.

As investigações contra o milionário começaram em 2005, após os pais de uma menina de 14 anos denunciarem que o financista tinha abusado sexualmente da jovem em sua casa em Palm Beach, na Flórida. Essa denúncia abriu caminho para outras e Epstein foi condenado em 2008 por exploração sexual e facilitação à prostituição de menores.

Na época, o milionário afirmou que os encontros eram consensuais e que acreditava que as vítimas tinham 18 anos. Contudo, ele se declarou culpado por exploração sexual e fechou um acordo de 13 meses de prisão e inserção do seu nome na lista federal de criminosos sexuais.

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Como Epstein morreu?

Mais de uma década depois, em 2019, um juiz da Flórida considerou que o acordo de 13 meses de prisão era ilegal e Epstein foi preso em julho daquele ano, em Nova York.

Um mês depois de ser preso, Epstein foi encontrado morto na sua cela e a autópsia concluiu que ele tirou a própria vida. O Departamento de Justiça confirmou que a causa da morte foi suicídio, após analisar arquivos e vídeos da prisão.

Contudo, algumas teorias da conspiração, sem nenhum tipo prova, insinuam que ele teria sido assassinado para proteger pessoas influentes que teriam relação com o escândalo sexual.

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As acusações contra o milionário foram retiradas após a sua morte, mas as investigações continuaram contra outros envolvidos no caso, como Ghislaine Maxwell, que foi presa e condenada a 20 anos de prisão em 2022.

Jeffrey Epstein morreu na cadeia em 2019 Foto: New York State Sex Offender Registry

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Epstein era amigo de Trump?

Os arquivos liberados na última sexta trazem uma denúncia anônima de que Donald Trump teria forçado uma adolescente “de 13 ou 14 anos” a fazer sexo oral nele. A menina teria mordido o pênis de Trump e dado risada, sendo agredida pelo agora presidente dos Estados Unidos na sequência. O caso teria ocorrido em Nova Jersey, não na ilha de Epstein, e não há uma data - o relato menciona que a situação teria ocorrido “35 anos atrás”, mas a data da denúncia não está especificada.

O relato não é corroborado por outras provas. O FBI, que recebeu a denúncia, indica tê-la encaminhado para outras instâncias da investigação, mas não especifica os desdobramentos da acusação. Outros episódios narrados aos investigadores são elencados pelo documento como “não críveis”.

A amizade de Trump com Epstein é bem documentada, com os dois tendo sido próximos durante vários anos. Em 2002, Trump afirmou à revista New York que Epstein era “um cara incrível, divertido de se estar perto” que ele conhecia há mais de 15 anos e que o agente financeiro gostava de mulheres “do lado mais jovem”.

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Na última terça-feira, 3, o presidente americano afirmou que os arquivos liberados o inocentam de qualquer acusação e que é “hora de virar a página”. Nos arquivos já divulgados, Trump foi citado 5.300 vezes.

Qual era a ligação do ex-príncipe Andrew com Epstein?

Epstein era amigo próximo do agora ex-príncipe Andrew, irmão do atual rei Charles III. Entre os novos documentos divulgados no fim de janeiro há fotografias de Andrew ajoelhado e inclinado sobre uma mulher deitada no chão, além de e-mails convidando Epstein para um encontro “privado” no Palácio de Buckingham.

Andrew foi preso nesta quinta-feira, 19, dia em que completa 66 anos, por suspeita de má conduta em cargo público. Ele é o primeiro integrante do alto escalão da família real britânica a ser preso em 377 anos. Andrew é investigado pela Polícia do Vale do Tâmisa após uma denúncia sobre o suposto compartilhamento de material confidencial com Epstein. Algumas horas após a prisão, Andrew foi “liberado sob investigação”, segundo a polícia.

Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos mostram que, em 2010, o ex-príncipe enviou e-mails a Epstein sobre oportunidades de negócios. Na época, Andrew ocupava o cargo de Representante Especial do Reino Unido para o Comércio Internacional. O caso também é investigado pelo Crown Prosecution Service, órgão equivalente ao Ministério Público no país.

Andrew já havia sido acusado de abuso por Virginia Giuffre, uma das vítimas mais conhecidas de Epstein. Os arquivos também revelam que Epstein tentou marcar um encontro entre Andrew e uma jovem russa.

Andrew sempre negou as acusações, mas fechou um acordo judicial com Virginia em 2022, o que impediu que o caso fosse a julgamento com júri. No ano passado, após a divulgação do livro de memórias póstumas de Virginia, intitulado “Nobody’s Girl”, a pressão sobre o ex-príncipe aumentou, e ele renunciou ao título real. Recentemente, Charles III o fez sair do palácio onde morava, que é propriedade da Coroa Britânica.

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Epstein era ligado a famílias reais?

Outras famílias reais eram próximas de Epstein. A princesa herdeira da Noruega, Mette-Marit, escreveu que sentia falta do seu “amigo maluco” após a revelação de seus crimes de tráfico sexual. Nesta sexta, 6, Mette-Marit afirmou que lamenta a amizade com Epstein.

As interações entre Epstein e famílias reais estão repletas de referências sugestivas à sua busca por mulheres mais jovens. Mensagens trocadas com Raafat Al-Sabbagh, conselheiro da corte real saudita e pessoa próxima do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, incluíam comentários explícitos e grosseiros. Em uma delas, Al-Sabbagh escreveu: “Tenho certeza de que você está abrindo muitas pernas por aí”, enquanto Epstein estava em sua residência na Flórida.

Havia alguma relação de Epstein com Bill e Hillary Clinton?

O casal Bill e Hillary Clinton também era próximo de Epstein. Nos arquivos, há fotos do ex-presidente ao lado de uma mulher jovem no que aparenta ser um jatinho. Questionado sobre Bill em um processo, Epstein preferiu manter silêncio.

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Na última segunda-feira, 2, o casal Clinton aceitou depor na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos sobre a amizade com Epstein, após inicialmente recusar. Os dois devem testemunhar no final de fevereiro.

Qual era a relação de Epstein com Elon Musk?

O homem mais rico do mundo apareceu na última leva de arquivos sobre Epstein. Musk, que é dono de empresas como X (antigo Twitter), Tesla e SpaceX, tentou marcar uma data para visitar a ilha de Epstein, chegando a perguntar “em que dia/noite acontecem as festas mais selvagens”.

Musk havia afirmado que recusou tentativas de Epstein de convencê-lo a visitar uma das duas ilhas que possuía – Great St. James e Little St. James, próximas às Ilhas Virgens Britânicas. Little St. James foi um epicentro dos abusos cometidos por Epstein contra meninas e jovens mulheres durante décadas.

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Em 13 de dezembro de 2013, Musk enviou um e-mail para Epstein: “Estarei na região das Ilhas Virgens Britânicas/St. Barth durante as festas de fim de ano. Há alguma época boa para visitar?”. Não está claro pelos e-mails se Musk chegou a visitar o local, mas os documentos mostram um nível de comunicação entre os dois que não havia sido revelado anteriormente.

Epstein tinha algum interesse no Brasil?

Nos e-mails, Epstein menciona o Brasil diversas vezes, com interesse em “garotas brasileiras”. Ele menciona a intenção de comprar agências de modelos, revistas e até organizar concursos de beleza no País para “ter acesso a garotas”.

Jean-Luc Brunel, agenciador de modelos, era próximo do bilionário americano Jeffrey Epstein Foto publicada pela agência Mega Model Brasília, no Facebook em abril de 2019. CRÉDITO: Rede Social / FACEBOOK / MEGA MODEL BSB Foto: Rede Social / FACEBOOK / MEGA MODEL BSB

Ao menos duas mulheres brasileiras foram vítimas do esquema. A mais conhecida é Marina Lacerda, de 37 anos, que foi traficada e abusada pelo empresário em 2002, e posteriormente tornou sua história pública. Os e-mails mencionam outra, chamada Juliana, que teria 21 anos em 2010. Fotos de Juliana estavam nas mensagens.

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Uma testemunha ouvida pela polícia, que não teve o nome revelado, disse que Epstein traficou quatro meninas brasileiras para os Estados Unidos com apoio de sua rede de tráfico sexual. Duas delas seriam menores de idade e teriam participado de festas na mansão de milionário em Nova York. Elas teriam sido levadas aos EUA pelo francês Jean-Luc Brunel, ex-agente de modelos francês e conhecido parceiro de Epstein, que morreu na prisão em 2022.

Segundo Marina Lacerda, cerca de 50 brasileiras foram vítimas de Epstein, a maioria delas imigrantes nos EUA.

Brasileiros são citados nos documentos?

A nova leva de documentos revela que Epstein tinha um interesse persistente em fechar negócios com Eike Batista, empresário e ex-bilionário brasileiro. Batista teria se encontrado com Ian Osborne, um emissário do americano, 12 vezes em 2012. Não há menções a encontros entre Epstein e Eike Batista. O brasileiro não foi implicado nas acusações de crimes sexuais pelas quais o financista foi condenado.

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Além de Eike, a ex-esposa dele, Luma de Oliveira, foi mencionada por Epstein e Brunel numa troca de e-mails em que conversavam sobre o interesse em mulheres brasileiras.

Eike Batista afirmou ao Estadão não se lembrar de Ian Osborne nem dos encontros com ele. O empresário reiterou o teor da nota que divulgou anteriormente sobre o tema. “O empresário Eike Batista não conhece, nunca conversou ou trocou mensagens com Epstein”, diz.

O que os novos documentos dizem sobre Bill Gates?

Os documentos indicam que Bill Gates, fundador da Microsoft e também um dos homens mais ricos do mundo, se encontrou com o financista mesmo após ele ter sido condenado e preso, em 2008, por exploração sexual e facilitação à prostituição de menores. Em um dos e-mail divulgados, Epstein sugeriu que o bilionário teria contraído uma infecção sexualmente transmissível e tentado esconder o fato de sua então esposa, Melinda French Gates.

Gates afirmou que se arrepende da amizade com Epstein. “Jeffrey escreveu um e-mail para si mesmo, mas esse e-mail nunca foi enviado. O e-mail é falso. Então, não sei o que se passava na cabeça dele”, afirmou Gates. “Isso só me faz lembrar de cada minuto que passei com arrependimento e peço desculpas por ter feito isso”, declarou.

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