Milhares de ‘bruxas’ podem receber perdão póstumo na Escócia

Foto: Stephan Savoia/AP

Caça às ‘bruxas’ sentenciou milhares de mulheres escocesas durante quase 200 anos

Por Ellen Francis

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WASHINGTON POST - Milhares de pessoas foram condenadas sob a acusação de praticar feitiçaria na Escócia durante a caça às bruxas que durou quase 200 anos no país — a maioria das pessoas sentenciadas à morte e executadas era mulher. Muitas também foram torturadas.

Agora, um projeto de lei proposto ao Parlamento escocês está tentando acertar as contas com a história, afirma Natalie Don, parlamentar escocesa que apresentou a proposta. O projeto de lei pretende permitir perdões póstumos para milhares de mulheres que foram condenadas centenas de anos atrás.

Os perdões permitirão que elas sejam “reconhecidas como vítimas de erros judiciais e deixem de ser registradas como criminosas na história”, afirmou Don em um vídeo publicado nesta quinta-feira.

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Imagem mostra americana em visita ao memorial dedicada às mulheres condenadas e mortas como bruxas nos Estados Unidos no século 18. Mais de três séculos depois, muitas foram oficialmente inocentadas nos Estados Unidos e movimento se repete na Escócia
Imagem mostra americana em visita ao memorial dedicada às mulheres condenadas e mortas como bruxas nos Estados Unidos no século 18. Mais de três séculos depois, muitas foram oficialmente inocentadas nos Estados Unidos e movimento se repete na Escócia Foto: Stephan Savoia / AP

Pedidos de perdões judiciais para as ditas bruxas ou necromantes ganharam tração na Escócia, onde a política mais graduada do país, a primeira-ministra Nicola Sturgeon, emitiu um pedido de desculpas formal em março para as pessoas vilipendiadas sob os auspícios da Lei Contra Feitiçaria. A lei, que vigorou de 1563 a 1736, tornou a prática da feitiçaria punível com pena de morte.

“Foi uma injustiça em escala colossal, impulsionada pelo menos em parte por misoginia”, afirmou Sturgeon no Dia Internacional da Mulher. “Elas foram acusadas e mortas porque era pobres, diferentes, vulneráveis ou, em muitos casos, simplesmente por serem mulheres.”

Em um incidente de 1679, por exemplo, seis mulheres que foram chamadas de Bruxas de Bo’ness foram acusadas de se encontrar com o diabo. De acordo com historiadores, elas foram estranguladas, empaladas e queimadas.

Documentos confirmam cerca de 12 mil execuções de feiticeiras, a maioria entre 1580 e 1650, segundo constatou um historiador em um cronograma da caças às bruxas na Europa, onde alguns países já emitiram perdões. Mais de três séculos depois dos julgamentos das bruxas de Salem, em Massachusetts, muitas foram oficialmente inocentadas nos Estados Unidos.

Na Escócia, pelo menos 2,5 mil pessoas foram condenadas e executadas sob a acusação de praticar feitiçaria entre 1563 e 1736, afirmou Don.

As Bruxas da Escócia — entidade que defende a memória das pessoas condenadas sob a lei de 1563 — elogiaram a proposta.

“Temos esperança de que ela proverá justiça póstuma às milhares de pessoas que foram executadas pelo Estado durante caças a bruxas”, afirmou o grupo em um comunicado publicado pelos meios de imprensa britânicos.

A legislação faz mais do que reparar o passado, afirmaram a entidade e a parlamentar.

“Isso também enviará uma mensagem para outros países do mundo em que acusações de feitiçaria são um problema bem real e atual, de que isso não é aceitável nos dias de hoje”, afirmaram as Bruxas da Escócia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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