‘Química’ entre Trump e Lula pode facilitar diálogo, mas agenda americana não mudou, dizem analistas

Apesar de indicações de que relação pessoal pode ajudar em negociações, ainda há divergências importantes entre ambos

PUBLICIDADE

Foto do autor Daniel Gateno

Trump diz ter 'abraçado' Lula e anuncia reunião, mas crítica perseguição política no Brasil

‘Encontrei Lula e nos abraçamos. Eu gostei dele, e ele gostou de mim. Vamos nos encontrar na semana que vem’, disse Trump. Crédito: Nações Unidas/YouTube

“Eu só faço negócios com pessoas que eu gosto e eu gostei dele”. Essa foi a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante o seu discurso na Assembleia-Geral da ONU nesta terça-feira. 23.

PUBLICIDADE

O perfil personalista do republicano pode abrir espaço para um diálogo com o governo Lula em meio a crise sem precedentes entre os dois países. Apesar disso, avaliam analistas consultados pelo Estadão, há a possibilidade de uma “armadilha” similar às aplicadas por Trump com outros líderes mundiais desde seu retorno à Casa Branca.

“Trump tem essa visão muito pessoal da negociação e ele deu todas as indicações de que gostou do Lula”, avalia Carlos Poggio, especialista em política dos Estados Unidos e professor de ciência política do Berea College. “Fundamentalmente esse foi o principal acontecimento na relação entre Brasil e Estados Unidos nos últimos meses”.

Publicidade

Lula e Trump se encontraram brevemente após o discurso do presidente brasileiro e marcaram uma reunião para a semana que vem. As falas do republicano durante o seu discurso surpreenderam, devido às tarifas altíssimas contra produtos brasileiros e as sanções contra autoridades do Brasil.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa na Assembleia-Geral da ONU, em Nova York Foto: Angelina Katsanis/AP

Apesar das diferenças ideológicas entre os dois líderes, o tom personalista nas relações bilaterais, que é característico dos dois, pode contribuir para o diálogo. Trump criticou e ameaçou o líder supremo da Coreia do Norte, Kim Jong-un, durante seu primeiro mandato, mas abaixou o tom após conversar pessoalmente com ele. O mesmo aconteceu com o presidente da China, Xi Jinping. Já Lula teve ótima relação com o ex-presidente americano George W. Bush, apesar das posições políticas distintas.

Segundo Pedro Brites, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Trump tende a respeitar líderes que não baixam a cabeça as suas demandas rapidamente. “Lula se manteve firme em suas convicções e isso gera mais respeito por parte de Trump. Isso também acontece com Xi Jinping, um líder que Trump conseguiu estabelecer uma relação de respeito, mesmo sendo adversário”.

Publicidade

O analista destaca que Lula teve uma atuação pragmática nas relações internacionais durante os seus dois primeiros mandatos e isso deve continuar neste momento. “Não consigo ver um empecilho por parte do Lula, ele está aberto ao dialogo”.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa na abertura da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York Foto: Spencer Platt/AFP

Armadilha

Apesar do tom positivo em relação a um possível encontro entre os dois líderes, existe o receio de que Lula esteja sendo chamado para uma “armadilha”, em que Trump consiga cobrar e constranger o presidente brasileiro em um tom similar ao usado no encontro com o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, onde houve um bate-boca.

“Essa reunião pode ficar em um limbo entre armadilha e inutilidade”, opina o professor de relações internacionais da ESPM, Leonardo Trevisan. “Todos viram o que aconteceu com outros líderes que foram ao Salão Oval e foram humilhados. As tarifas de 50% não serão reduzidas milagrosamente”.

Publicidade

O presidente americano impôs tarifas de 50% contra alguns produtos brasileiros e sancionou membros do Supremo Tribunal Federal (STF), como o ministro Alexandre de Moraes, por meio da Lei Magnitsky. Trump alega que o judiciário brasileiro realiza uma caça às bruxas contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi condenado a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado por participação em uma tentativa de golpe de estado após perder as eleições presidenciais de 2022.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se encontra com o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, em Nova York Foto: Evan Vucci / AP

Na segunda-feira, 22, o governo Trump sancionou a esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, e o Instituto Lex, que é ligado ao ministro do STF.

PUBLICIDADE

“Se essa reunião sair, o tom continuará sendo de demandas contra o Brasil”, aponta Vitélio Brustolin, professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador da Universidade de Harvard. “Existe uma agenda preparada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos para progressivamente sancionar as autoridades do Brasil”.

Apesar disso, o especialista aponta que existe espaço para negociar. “Os EUA já retiraram unilateralmente 700 produtos das tarifas e acusam o Brasil de ser protecionista. Então existe o interesse e o Brasil pode reduzir a carga tributária em uma eventual negociação“.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, observa o discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Nova York Foto: Angela Weiss/AFP

Lula defende soberania em discurso

O discurso de Lula durante a Assembleia-Geral da ONU ressaltou a defesa da soberania brasileira e teve críticas diretas ao governo Trump por conta da adoção de medidas “unilaterais e arbitrárias” contra instituições brasileiras.

“Não há justificativa para as medidas unilaterais e arbitrárias contra nossas instituições e nossa economia”, disse Lula em seu discurso. “Essa ingerência em assuntos internos conta com auxílio da extrema direita e de antigas hegemonias”, criticou o petista.

Publicidade

Para analistas entrevistados pelo Estadão, o discurso foi bem recebido entre o público interno e também na arena internacional, principalmente por conta de seu tom firme em relação ao governo Trump, sem falas fora do script do Itamaraty. “Lula conseguiu uma adesão do Congresso nacional com sua mensagem de soberania e teve bons resultados”, diz Trevisan, da ESPM.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa em uma cúpula da ONU, em Nova York Foto: Ricardo Stuckert / Presidência da República

Pedro Brites, da FGV, aponta que Lula se colocou como uma liderança na defesa contra a extrema direita no mundo e abordou uma série de temas importantes para o Itamaraty, como a Aliança contra a Fome e o meio ambiente. “O discurso teve uma repercussão bem positiva para o Brasil”.

Trump questiona existência da ONU

Já o discurso de Trump foi marcado por questionamentos em relação ao funcionamento da ONU, críticas sobre as políticas migratórias da Europa e uma série de menções a questões internas dos Estados Unidos, como as operações de deportação em massa do republicano e o envio da Guarda Nacional para cidades como Washington.

O presidente americano disse que havia resolvido uma série de conflitos ao redor do mundo, enquanto a ONU não havia feito nada. “Infelizmente, em todos os casos, as Nações Unidas nem mesmo tentaram ajudar”.

Trump também apontou que a ONU destinou milhões de dólares para apoiar a entrada de imigrantes nos Estados Unidos de forma ilegal. “A ONU está apoiando pessoas que estão entrando ilegalmente nos Estados Unidos, e nós temos que tirá-las daqui. A ONU deveria impedir as invasões”

Publicidade

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversa com o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, em Nova York Foto: Evan Vucci/AP

“Na prática, esse discurso sinaliza que Trump pretende viver sob a lei do mais forte e não sob a ótica do multilateralismo”, diz Leonardo Trevisan, da ESPM.

O presidente americano também mencionou que o teleprompter estava quebrado no início do seu discurso e que as escadas rolantes da sede da ONU em Nova York não estavam funcionando. Os problemas técnicos ressaltam as dificuldades financeiras da ONU, principalmente por conta da falta de pagamento das contribuições obrigatórias dos EUA para as Nações Unidas em 2025.

“Nós estamos vivendo crescentemente um período de política de poder em que as grandes potências disputam esferas de influencia”, aponta Pedro Brites, da FGV-SP. “A ONU perdeu protagonismo e não consigo ver uma retomada dessa influência porque os EUA eram os provedores das Nações Unidas e não vejo a China conseguindo suprir o espaço que Washington ocupava”.

Vale ler também
Andrés Oppenheimer
Entenda o plano de ação dos democratas caso derrotem Trump nas eleições legislativas
Lourival Sant'Anna
Vitória democrata nas eleições legislativas colocará Trump na defensiva. Como isso afeta o Brasil?
Rodrigo da Silva
Dá para confiar nas urnas eletrônicas? Entenda no programa Fronteiras

Publicidade