A (ainda difícil) luta pelo reconhecimento

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Fabrício H. CHAGAS BASTOS*, O Estado de S. Paulo

03 Junho 2015 | 22h00

Já faz algum tempo que certas datas comemorativas e o automatismo dos presentes passam batido. Bem da verdade, cultivei uma aversão declarada a receber presentes (sobretudo de desconhecidos!), o que me tomou pela mão e me fez negligenciar comerciais de modo geral (televisão e os do YouTube são evitados sempre que possível). Avesso aos presentes-automáticos e não àqueles que fazem (fizeram) saltar o sorriso e as lágrimas caírem dos olhos: um copo daqueles antigos de Coca-Cola em um Natal; um voo que traz para perto alguém muito querido ou mesmo um livro há muito desejado, em outros.

Proximidade da data, e por completo descuido com o controle remoto, acabei por me deparar com a delicada e muito bem feita peça publicitária que o Boticário preparou para sua campanha (Casais) do Dia dos Namorados de 2015. Nada de importante, perfumes. Não fosse a celeuma que tomou conta das redes sociais e que foi bater às portas do Conar (!!).

Há alguns anos fui apresentado por uma namorada (ironia da vida) aos trabalhos de Axel Honneth, filósofo social alemão que tratou de estruturar uma teoria de reconhecimento. Em linhas gerais, Honneth considera que as interações sociais, conflitivas por natureza, geram um sem fim de demandas que são reconhecidas (aceitas) e menosprezadas/rejeitadas pelas diversas instituições (formais e informais) que nos cercam (o autor divide em três as esferas Amor, Direito e Mercado). Reconhecer seria, em cada uma daquelas áreas da vida, acolher demandas de grupos sociais e indivíduos para que sejam canalizadas e entendidas como legítimas (capazes de prover reconhecimento recíproco entre as partes envolvidas), como parte do avanço dos problemas da sociedade.

De volta aos casais da propaganda, com as lentes que ganhei em mãos, vejo que o Boticário conseguiu atingir todas as três esferas numa tacada só. Não que houvesse qualquer necessidade, mas reconheceu o afeto em suas mais diferentes acepções, sem o imobilismo tradicionalista que grassa boa parte da mídia no país. Ao tratar casais homossexuais de maneira igual aos heterossexuais ampliou e não menosprezou o debate sobre as questões legais que ainda impõem obstáculos às uniões homoafetivas. Seguro que a esfera econômica foi contemplada.

Aos que enxergam na peça uma destruição da moral e dos bons costumes, permitam-me usar um contraexemplo, ainda com Honneth, mas tomando o avesso da moeda: o menosprezo - que seria o ato de frustrar a demanda de um indivíduo, ao não ser realizada por um outro (outro que pode ser um indivíduo, a sociedade, ou o sistema jurídico-político). Alan Turing, genial matemático inglês responsável por quebrar o código criptografia da Enigma (temida máquina nazista de cifrar mensagens), foi condenado à castração química em 1952 após ser processado por "conduta homossexual". Até então, o Reino Unido menosprezava o direito à livre orientação sexual, levando o homem que encurtou o flagelo da Segunda Guerra em vários anos a sofrer uma punição descabida - e que mais tarde o levou à morte.

Entram na lista o não reconhecimento à moradia decente, a uma situação carcerária digna, à luta pela descriminalização das drogas entre outros. O último é um bom exemplo aos não satisfeitos: no lugar da TV, as janelas traseiras dos ônibus. A campanha "Da Proibição Nasce o Tráfico", que busca esclarecer a população sobre a legalização das drogas, foi banida em São Paulo. Não reconhecer a possibilidade de informação clara como porta de entrada para o debate sobre legalização das drogas encaminha para o atraso programas de saúde e segurança públicas fundamentais.

Há alguns anos o mercado calculava o "efeito Gisele" - medido pelos ganhos que as marcas que contratavam a supermodelo conseguiam ano após ano - como beirando os 25% de aumento em cada um dos contratos. Palmas à agência (e aos outros envolvidos) por aproximar dramaticamente consumidores e produto, para além de levar o tema à rua, e mais do que tudo, romper com um anacrônico e silencioso preconceito. A fusão Amor-Direito-Mercado funcionando como impulso ao reconhecimento.

De fato, o que se vê é uma onda de marginalização e também uma tentativa de marginalizar demandas já reconhecidas (como a maioridade penal), fazendo com que os grandes avanços trazidos pela Constituição de 1988 retrocedam.

O médico Dráuzio Varela há alguns anos publicou um curto vídeo sobre sua opinião acerca das uniões homoafetivas, simples e claro: se você cuida da vida do seu vizinho (do outro), procure um psiquiatra. Vale a extrapolação aos comerciais de TV e os adesivos nos ônibus: se eles te incomodam tanto, procure ajuda médica.

Até onde pude verificar, ninguém reclamou (tirante o sexismo já habitual) do Verão da Itaipava. 

Cannes pode ter no Boticário um forte candidato ao seu prêmio de publicidade.

* FABRÍCIO H. CHAGAS BASTOS É DOUTOR PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E PESQUISADOR DO NÚCLEO DE PESQUISA EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA USP. E-MAIL: fchagasbastos@usp.br

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