A década do sim

Lá se vão bem uns dez anos. Numa outra encarnação como colunista deste jornal, escrevi sobre o tabu do "não" na nossa cultura. Não consigo acessar mais o texto, perdido com dezenas de outros, depois de sucessivos crashes que selaram o meu divórcio de um certo sistema operacional.

, O Estadao de S.Paulo

28 Dezembro 2009 | 00h00

O mote da coluna era meu aprendizado de expatriada vivendo numa cultura onde dizer "não" é até sinal de respeito. Um gesto para liberar o outro de uma expectativa. O não varia de cultura para cultura. Pode ser evitado ou transmitido com sutileza.

Em Nova York, a capital americana do diálogo direto, descobri o alívio de poder dizer não sem rodeios. É claro que nós brasileiros não dizemos sim o tempo todo, mas suspeito que sofremos de uma resistência narcisista a ser agentes da decepção do outro. Então desconversamos ou dizemos um falso talvez. Ou dissemos sim e deixamos a secretária eletrônica atender à chamada seguinte.

O desperdício de energia e tempo provocado pela falta de clareza adverbial só me chamou atenção a distância.

Mas o escândalo de Tiger Woods sugere outro cenário. Há uma cultura do sim incondicional. Para quem estava morando numa caverna no último mês, explico: o Mozart do golfe revelou-se um prolífico freguês dos serviços de dezenas de mulheres de profissões variadas, algumas parentes não distantes da mais velha profissão do mundo. Expunha-se a situações embaraçosas e mantinha uma equipe para comprar o silêncio de boquirrotos diversos.

Há uma reportagem famosa publicada pela revista GQ quando Tiger Woods tinha acabado de completar 21 anos. Assinada pelo brilhante jornalista Charles Pierce, a matéria incluía palavrões, piadas racistas e homofóbicas, tudo registrado em detalhe pelo repórter. O soberbo Tiger, depois de expelir todo tipo de besteira para uma plateia de assistentes que babavam de admiração, declarou: "Isso tudo era em off." O veterano Pierce respondeu que sentia muito mas off só vale se for combinado antes do palavrório. Woods não suspeitou que Pierce teria a coragem de imprimir tanto descalabro. Deixou de registrar o não do repórter. A entrevista selou a relação de Tiger Woods com a imprensa pelo resto de sua carreira, hoje em animação suspensa.

Nova York perdeu um governador e político promissor porque ele era freguês habitual de um bordel. Não lhe passou pela cabeça que, como ocupante do cargo, teria que contrariar seus impulsos. O ex-governador Eliot Spitzer hoje escreve para a Slate e sua prostituta favorita acaba de ser contratada como colunista do tabloide New York Post. Quando defendi o fim da exigência do diploma de jornalista não imaginava tantas possibilidades.

O governador casado da Carolina do Sul quer namorar escondido em Buenos Aires? Sim! É só desligar o celular e deixar um Estado da União sem o chefe do executivo por quase uma semana.

O que foi o caso Bernard Madoff senão um trem de sins desgovernado? E a festa de aniversário de US$ 3 milhões que o executivo de Wall Street se deu de presente em 2007, quando sua corretora já fazia água?

Na Casa Branca, apesar de pregar moderação e disciplina para as famílias, Barack Obama é o campeão do sim a torto e a direito. Não é surpresa, já que ele se elegeu com o slogan Yes, we can (Sim, podemos). Barack Obama pode aprovar uma escalada militar no Afeganistão, consertar a economia, fazer uma reforma financeira (meia-bomba) e, pela versão do rasante em Copenhague, até aprovar um acordo de meio ambiente que não prevê salvaguardas se não for cumprido.

O presidente capitaneou uma reforma do sistema de saúde que diz um sim redundante tanto às vampirescas seguradoras privadas como um sim esquivo para um único senador que vendeu seu voto crucial em troca de concessões que só se aplicam ao seu Estado, Nebraska. Resta ao que sobrou da imprensa investigativa pinçar as más notícias da reforma.

É só acompanhar a mídia de entretenimento durante alguns dias para constatar que os excessos pecuniários, sexuais e existenciais exilaram o não. A Octomãe foi inseminada com a facilidade com que eu corto o cabelo. Os pais do menino do balão não se conformaram com o não para seus planos de celebridade televisiva e resolveram mobilizar a polícia e o país com o falso drama do filho. Vão para a cadeia cumprir pena leve, uma palmada do juiz para lembrar que eles desobedeceram às mais básicas regras de conduta entre adultos.

Depois que foi morar no câmpus universitário, uma certa carioca voltou para passar um fim de semana em casa em Manhattan e foi jantar com a mãe. No meio da conversa, comentou que tinha reencontrado antigas colegas da escola do segundo grau e disse: "Mãe, muito obrigada por você ter sido uma chata na minha adolescência." Sabe-se lá em que grau de desconcerto viviam algumas amigas mas ela associou seu bem-estar à frequência com que ouviu o advérbio de negação. Clicamos nossos copos de vinho em cumplicidade.

Um brinde por uma nova década em que agir como adulto volte a ser moda.

Feliz ano-novo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.