A nossa difícil cordialidade democrática

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

Rafael R. Ioris*, O Estado de S. Paulo

13 de março de 2015 | 13h17

Sempre alvo de polêmica, o conceito de cordialidade, proposto por Sérgio Buarque de Holanda em 1936 para explicar, entre outras coisas, nossa cultura política, pode nos ser útil para entendermos os difíceis dias em que vivemos em nosso país. Embora o autor tenha cunhado o termo como forma de explicar os dilemas que enfrentávamos na nossa tardia e truncada modernização - especialmente os que eram fruto da dificuldade de rompermos com a nossa herança colonial patrimonialista -, a noção de cordialidade apontava propositivamente também para a possibilidade civilizatória de avançarmos como nação moderna ao mesmo tempo em que conseguiríamos nos manter como atores de relacionamentos políticos dotados de alto grau de empatia.

Mesmo que talvez de maneira indireta, essa lógica nos remete às raízes da própria noção de política como convivência civil (cordial) no contexto da polis grega. Poderíamos apontar ainda ao conceito de urbanidade, ou trato respeitoso entre partícipes de um contexto comum, como chave para o estabelecimento do convívio democrático, especialmente em sociedades amplas e complexas. Olhando para o nosso atual cenário político, é difícil ver em que podemos nos considerar como herdeiros dessas importantes matrizes semânticas e históricas. 

De fato, o que mais percebemos nos dias de hoje é a crescente articulação de uma atividade política focada na deslegitimação do outro, não mais visto como ator político aceitável e digno de interlocução. Dentro dessa lógica arriscada, rituais políticos fundamentais, e talvez mesmo a nossa própria institucionalidade democrática que, por ter sido conseguida a tão duras penas, deveria ser salvaguardada acima de tudo (ao passo que deva também ser sempre aprimorada!), passa a ser crescentemente vista como banal ou mesmo descartável.

É cada vez mais evidente que estamos em um contexto de grande polarização político-ideológica, realidade tornada ainda mais complexa exatamente pela existência de um discurso negacionista da importância e valor da institucionalidade política democrática. É nessa linha de entendimento que cabe fazer um eloquente chamado para que todas as forças políticas que partilham dos valores e noções centrais de democracia tenham muito clara a necessidade do respeito à legitimidade do processo eleitoral e, principalmente, da soberania popular por ele expressada.

Isso de modo algum implica em que os anseios buscados pelas distintas forças política sejam abandonados ou tenham seu valor negado, desde que operem dentro do contexto democrático, uma vez que tenha havido um projeto vitorioso específico. A livre expressão e manifestação coletiva de ideias é um dos pilares centrais da democracia. E a democracia se aprimora somente com mais democracia, o que inclui marchas e protestos, desde que pacíficos e que não preguem o fim do próprio espaço de convivência permitido pela democracia. 

Nesse sentido, é difícil de ver em que demonstrações públicas focadas na eliminação do diálogo e convívio com o outro possam ser úteis na consolidação da nossa ainda jovem democracia. Alternativamente, precisamos ir além da fulanização dos nossos graves problemas, sejam eles políticos, econômicos ou de base sociocultural, e rever muitos de nossos atuais procedimentos de tomada de decisão a fim de ampliar a transparência e a boa governança. 

Necessitamos urgentemente fortalecer a sociedade civil organizada e ampliar as formas de participação política, ao mesmo tempo em que garantimos a lisura dos procedimentos de financiamento partidário e eleitoral. Por fim, nossa consolidação democrática passa também necessariamente por nos tornarmos de maneira crescente e sustentável uma sociedade mais justa, tolerante e plural. 

Se nossa cordialidade não nos valeu muito de um ponto de vista histórico, há de se desejar que possamos fazer jus ao seu aspecto propositivo e avancemos sempre dentro do convívio e espaço democráticos. 

* RAFAEL R. IORIS É PROFESSOR DE HISTÓRIA LATINO-AMERICANA NA UNIVERSIDADE DE DENVER, NOS EUA

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