Apesar do barulho, cúpula do Bric termina sem nada de impacto

Apesar de ter feito muito barulho quanto a desafiar o status quo das finanças internacionais, a primeira cúpula das potências emergentes do Bric foi uma performance pouco expressiva, demonstrando as dificuldades que seus membros enfrentam para formar um bloco coeso.

CHRIS BUCKLEY, REUTERS

17 Junho 2009 | 09h09

A reunião de líderes do Brasil, Rússia, Índia e China por poucas horas na cidade russa de Ecaterimburgo na terça-feira nunca poderia produzir um projeto de reforma internacional.

Mas o comunicado final do encontro trouxe poucos dados específicos. Não mencionou a criação de uma moeda de reserva supranacional para diluir o domínio do dólar, uma ideia que a Rússia tem promovido fortemente.

"Presidentes não assimilaram a moeda de reserva" foi a manchete do diário russo Kommersant na reportagem sobre o encontro.

Em vez disso, as quatro potências econômicas emergentes díspares se apresentaram como uma ampla frente comum para tentar serem mais ouvidas em negociações com as potências ricas, disse Gregory Chin, da Universidade de York, em Toronto.

"Isto (a cúpula) era para se certificarem de que os interesses das nações em desenvolvimento continuem a receber atenção nos encontros do G8 e do G20," disse Chin, que está estudando o papel internacional dos Brics e outras economias emergentes.

A próxima cúpula do Grupo dos Oito, que reunirá as potências mundiais, será realizada em julho, na Itália, e a do Grupo dos 20 terá lugar nos Estados Unidos no fim do ano.

Para terem influência de fato, os governos do Bric precisam concordar com metas comuns que vão além de simplesmente pedir mais lugares nas principais mesas de negociação do mundo.

Profundas diferenças entre eles tornam isso difícil.

A China, de longe a nação mais poderosa do Bric, ficou em grande parte silenciosa em Ecaterimburgo. Não fez eco aos pedidos do Brasil e da Rússia para que as potências do Bric tentem afrouxar o controle do dólar sobre o sistema financeiro mundial.

O fato de a China possuir enorme quantidade de títulos dos EUA faz com que o país se inquiete sobre qualquer conversação dura que possa levar à redução do valor desses papéis.

A China é o maior detentor mundial de Treasuries dos EUA, num total de 767,9 bilhões, segundo informações recentes do Departamento do Tesouro dos EUA. O Japão tem 686,7 bilhões.

"Há muito mais motivo para a China ser cautelosa, até mesmo hesitante, em pressionar por reformas internacionais," afirmou Chin. "Acho que é seguro dizer que seria do interesse de todo mundo que a China opere como um reformista cauteloso."

As potências do Bric concordaram em prosseguir com seu namoro no ano que vem no Brasil. Mas a coesão que o bloco terá nessa altura vai depender de quanto conseguirão entrar em acordo para chegar a uma agenda comum.

Como disse o analista político russo Mikhail Vinagradov em um comentário para o diário Nezavisimaya Gazeta: "Se com a Índia temos pelo menos alguma cooperação na esfera técnico-militar, é difícil imaginar o que podemos querer do Brasil".

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