Blair defende invasão ao Iraque e diz que derrubaria Saddam de novo

Ex-primeiro-ministro depõe em comissão que investiga as circunstâncias da entrada da Grã-Bretanha na guerra

, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2010 | 00h00

Quase sete anos depois de ter enviado tropas britânicas à Guerra do Iraque, o ex-primeiro-ministro Tony Blair disse que invadiria novamente o país para conter uma ameaça como a que representava o ex-ditador Saddam Hussein após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Em seu depoimento no inquérito público que investiga a entrada da Grã-Bretanha no conflito, o ex-premiê negou a existência de um "acordo secreto" com o ex-presidente americano George W. Bush, em 2002, um ano antes do início da guerra.

"Sinto-me responsável, mas não me arrependo de ter derrubado Saddam. Ele era um monstro e representava uma ameaça para o mundo", afirmou o ex-premiê, acrescentando que sentia pelas profundas divisões que a guerra causou entre os britânicos, mas que "o resultado é um mundo mais seguro".

A decisão sobre a ação militar foi a medida mais polêmica dos dez anos em que Blair esteve à frente do governo, já que a maioria da população era contra a guerra. A Grã-Bretanha foi a maior aliada dos EUA na invasão do Iraque, com mais de 40 mil soldados.

Após a confirmação de que Saddam não possuía armas de destruição em massa, o ex-premiê foi acusado de ter enganado a opinião pública. "Não estamos falando de uma mentira, de uma conspiração, engano ou trapaça. Foi uma decisão", afirmou. "Se Saddam não tivesse sido derrubado, teríamos uma situação em que o Iraque competiria com o Irã em capacidade nuclear e no apoio a grupos terroristas."

O ex-premiê rejeitou as acusações de um acordo com Bush em 2002, um ano antes de o Parlamento britânico ter autorizado o envolvimento militar na guerra. "O que disse para Bush é que, se existisse uma ação militar, estaríamos ao lado dos EUA, mas que a Grã-Bretanha era favorável à diplomacia por meio das Nações Unidas", afirmou Blair, insistindo que nenhum compromisso formal foi assinado entre eles.

Testemunhas que prestaram depoimento anteriormente confirmaram que a promessa teria sido feita em 2002. O ex-chefe de imprensa de Blair, Alastair Campbell, afirmou que o ex-premiê enviou uma série de mensagens secretas a Bush prometendo apoio militar de Londres.

Apesar da presença de 20 representantes de parentes de soldados mortos, o ex-premiê não ofereceu nenhum pedido de desculpas para os 179 militares que morreram no Iraque. Centenas de manifestantes estavam na entrada do centro de conferência com cartazes em que se lia "Bliar" - combinação entre o nome do ex-líder e a palavra mentiroso em inglês. A multidão chamou Blair de "covarde" após ele entrar no prédio por uma porta lateral.

CULPADOS

A investigação, iniciada no fim de novembro, não pretende estabelecer responsabilidades civis ou criminal, mas deve esclarecer as circunstâncias da decisão do governo de apoiar a invasão americana ao Iraque.

Segundo o júri do inquérito, presidido por John Chilcot, o objetivo é evitar que eventuais erros sejam repetidos. De acordo com a comissão, os resultados serão divulgados após as eleições legislativas de junho para não influenciar a votação.

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