Brasil faz busca por vítimas de beriberi

Doença, causada pela falta de vitamina B, ressurge no País e mobiliza governo; força-tarefa percorrerá três Estados para identificar doentes

LÍGIA FORMENTI / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

11 Março 2012 | 03h04

Equipes de saúde começam a percorrer dentro de duas semanas áreas pobres do Brasil em busca de vítimas de beriberi, doença que ressurgiu no País em 2006 e não dá sinais de trégua. A força-tarefa deverá percorrer municípios do Maranhão, Tocantins e Roraima para identificar pacientes e, principalmente, decifrar as razões do retorno do problema, típico entre escravos do Brasil colônia, que por mais de 80 anos parecia resolvido.

Provocada por deficiência grave de vitamina B, a doença pode levar à cegueira, paralisia e morte do paciente. Em 2007, quando mais de 600 casos suspeitos da doença foram relatados, equipes sanitárias relacionaram a volta do problema a um fungo no arroz, que poderia prejudicar a absorção de nutrientes pelo organismo. Cargas de alimentos contaminados foram apreendidas, um trabalho de orientação aos agricultores foi feito, mas, mesmo assim, o problema persiste. Em 2010, três mortes pela doença foram registradas.

"Isso é a ponta de um iceberg", admite o secretário de Assistência à Saúde do Ministério da Saúde, Helvécio Miranda. "Nossa suspeita é de que outras pessoas possam ter sido vítimas da doença, mas o diagnóstico não tenha sido realizado", completa.

Especialistas avaliam que autoridades sanitárias e médicos que trabalham na região passaram a dar pouca importância aos sintomas apresentados por pacientes, confundindo o quadro com simples desnutrição ou, em casos mais graves, com doenças que provocam problemas neurológicos.

Na primeira onda do beriberi, em 2006, compromissos foram firmados, com mediação do Ministério Público. Desde então, porém, parte das ações deixou de ser colocada em prática.

Trabalho. As equipes do ministério devem visitar até maio municípios prioritários dos três Estados para identificar casos novos. Na missão, serão treinados profissionais para que diagnóstico e tratamento da doença sejam feitos de forma rápida e adequada. Material será distribuído com orientações que deverão ser repassadas à população.

"O que nos intriga é que outras regiões do País igualmente pobres não apresentam a doença. Precisamos decifrar quais são as causas locais, incluindo culturais, que aumentam o risco para beriberi", disse o secretário. Entre indígenas, o problema também foi identificado.

Quando os primeiros casos da doença foram relatados, cestas básicas e vitamina B1 foram distribuídas para população da área. Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) identificaram na época a contaminação do arroz por uma toxina, formada pelo metabolismo de um fungo presente no arroz. O mesmo agente esteve associado a um surto de beriberi no começo do século passado no Japão. "Mas a experiência mostra que a contaminação não é o principal."

O secretário afirma que integrantes do Ministério de Desenvolvimento Social também deverão participar dos trabalhos para definir uma nova estratégia de atuação. "Esse é um problema pontual. Temos de concentrar esforços para resolvê-lo."

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