Brigada de incêndio do Butantã estava inativa

Comissão de Saúde do Trabalhador aponta falha no treinamento de funcionários para ações de emergência; instituto diz que há equipe de 5 pessoas

Alexandre Gonçalves, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

O Instituto Butantã não possui uma brigada de incêndio funcional há pelo menos dois anos, segundo informações da Comissão de Saúde do Trabalhador (Comsat) do Butantã. A brigada foi montada no início da década para oferecer treinamento e uma estrutura mínima para intervenção rápida em caso de acidentes e princípios de incêndio.

Na tragédia que destruiu a coleção de serpentes não teria ajudado muito, pois o evento ocorreu fora do expediente de trabalho e as chamas alastraram-se de forma agressiva. Mas funcionários do Butantã manifestaram a necessidade de reativar a iniciativa, que já contou com dois representantes de cada unidade.

Um ofício interno da Comsat para a Divisão de Engenharia, datado de julho de 2008, afirma que a brigada de incêndio "tem grande importância", mas "não estava funcional devido à existência de algumas pendências", como a contratação de bombeiros industriais para treinar os funcionários brigadistas.

Logo depois, a Comsat enviou um ofício para o diretor do Instituto Butantã, Otávio Mercadante. Nele, é reafirmada "a necessidade da contratação de bombeiros, pois o assunto está relacionado diretamente com a saúde do trabalhador". Rogério Bertani, pesquisador e presidente recém-eleito da Comsat, diz que a situação não mudou desde 2008 e, até agora, a brigada espera a reativação. "Ela seria importante também para atuar de forma preventiva, identificando riscos que podem produzir acidentes como esse."

Procurado pelo Estado, o Butantã informou, por nota, que "a unidade conta com uma brigada de incêndio, chefiada pelo engenheiro Carlos Correa e formada por outras quatro pessoas. Essa brigada atua na vistoria de equipamentos e treinamento de pessoal". Sublinha ainda que o Butantã gastou R$ 200 mil na compra de equipamentos de segurança nos últimos meses.

Prevenção tardia. Detectores de calor e fumaça estavam prestes a ser comprados para o prédio que abrigava o acervo. "É possível que em um mês teríamos esse equipamento", disse ao Estado o curador da coleção, Francisco Luis Franco. "Já estávamos chamando empresas para fazer orçamentos."

O dinheiro viria de um projeto de organização do acervo, financiado pelo BNDES, no valor de R$ 500 mil. Parte do recurso havia sido gasto na compra de armários compactadores, extintores e outros itens. Faltam os detectores. A adequação do sistema anti-incêndio foi uma exigência do BNDES para aprovar o financiamento, segundo pessoas ligadas ao projeto.

No sábado, dia do incêndio, Franco disse que havia também um projeto submetido à Fapesp, específico para a instalação de um sistema anti-incêndio. A Fapesp, porém, informou ontem que não havia projetos com essa especificidade. Procurado pelo Estado, Franco disse que se enganou. O sistema antifogo fazia parte de um projeto maior, de informatização das coleções, mas foi retirado na última hora para ser inserido em um separado, "mais específico e com melhores chances de ser financiado". / COLABOROU H.E.

PONTOS-CHAVE

Perda e resgate de uma história

Coleção histórica

Desde sua fundação, no início do século 20, o Butantã recebe cobras e aranhas coletadas por pesquisadores e pessoas em geral. Com isso, construiu a maior coleção científica de serpentes do mundo, com cerca de 85 mil exemplares de centenas de espécies do Brasil e de outras regiões.

Incêndio

No sábado, dia 15, um incêndio destruiu a maior parte dessa coleção, que era guardada num prédio sem sistema automático de detecção e combate ao fogo. Os espécimes eram conservados em potes com álcool, por isso as chamas se espalharam rapidamente,

Resgate

Anteontem, pesquisadores conseguiram entrar no prédio com a supervisão dos bombeiros e descobriram que uma parte pequena, mas importante, da coleção não havia queimado. O material está sendo resgatado e passando por uma triagem para a reconstrução da coleção.

GLOSSÁRIO

Coleção biológica

As chamadas coleções são acervos biológicos de animais coletados na natureza, usados como referência para descrição de espécies e vários outros tipos de pesquisa. Funcionam como bibliotecas de biodiversidade. Os animais são preservados em álcool ou a seco, dependendo do tipo de bicho, e cada amostra leva um registro de coleta, que serve como prova da existência daquela espécie num determinado local e num determinado momento - informações essenciais para o estudo e conservação da biodiversidade.

Holótipo

Os exemplares mais importantes de uma coleção são os chamados holótipos - ou simplesmente "tipos" -, os espécimes originais usados para descrever uma espécie pela primeira vez. Uma nova espécie só passa a existir oficialmente depois que um trabalho científico é publicado com a sua descrição morfológica. O animal usado para essa descrição, então, torna-se o tipo de referência. Sempre que um pesquisador quiser confirmar a espécie de um animal, precisa compará-lo ao seu holótipo.

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