Carta de jovem cega a Putin amplia polêmica sobre adoções na Rússia

Estudante protestou em blog contra proibição de adoção de crianças russas por americanos.

BBC Brasil, BBC

15 de janeiro de 2013 | 11h51

Uma adolescente cega ganhou expressão política na Rússia e aumentou o debate em torno da lei que proíbe americanos de adotarem crianças russas.

A estudante Natasha Pisarenko publicou em seu blog uma carta aberta ao presidente russo, Vladimir Putin, criticando a polêmica lei, assinada por Putin em dezembro.

Na carta, que ganhou ampla repercussão, Natasha afirmou que órfãos russos portadores de deficiência estão morrendo, pois não há tratamentos médicos modernos disponíveis no país.

Segundo a adolescente, russos não querem adotar essas crianças, e a lei sancionada por Putin impede que os órfãos tenham a chance uma vida melhor sob a guarda de pais adotivos nos Estados Unidos.

Caso Magnitsky

O veto a adoções é uma reação a um projeto de lei aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos, que impõe sanções a autoridades russas acusadas de desrespeito aos direitos humanos.

As sanções americanas a autoridades russas foram adotadas após a morte do advogado anticorrupção Sergei Magnitsky, que provocou uma cisão nas relações entre Estados Unidos e Rússia.

Magnitsky dizia ter descoberto uma rede de corrupção envolvendo autoridades fiscais russas e o roubo de US$ 200 milhões (cerca de R$ 409,5 milhões).

Um relatório oficial divulgado pela Rússia deu conta de que Magnitsky teria sido torturado e algemado na prisão russa em que foi detido.

Mas a única pessoa a ser julgada no episódio foi o médico da prisão, acusado de negligência após a morte de Magnitsky, em 2009. Ele acabou sendo inocentado por uma corte em Moscou.

Magnitsky representava o fundo de capitais Hermital, presidido pelo americano Bill Browder. Este comandou os esforços para que os EUA pressionassem autoridades russas por meio das sanções agora em vigor.

Protestos

No último domingo, dezenas de milhares de manifestantes de oposição participaram de um protesto contra Vladimir Putin em Moscou.

E a nova lei também já mobilizou um outro movimento político do país, o Comitê de Iniciativas Cívicas, do qual participa o ex-ministro da Economia Alexei Kudrin.

O grupo publicou uma declaração de repúdio na véspera da assinatura da lei antiadoção pelo presidente e chegou a pedir a Putin que não a sancionasse.

Já defensores da lei argumentam que ela é uma reação a recentes denúncias de abusos sofridos por crianças russas por parte de seus pais adotivos americanos.

O governo russo, por sua vez, prometeu melhorar as condições em orfanatos, e o primeiro-ministro, Dmitri Medvedev, visitou uma destas instituições, conversou com órfãos e responsáveis.

Nos últimos 20 anos, americanos adotaram dezenas de milhares de crianças russas. E, para os críticos do governo, entre eles Natasha Pisarenko, a nova lei acaba com as oportunidades para as crianças órfãs.

A adolescente é cega desde o nascimento e afirma que sofreu na pele a falta de recursos médicos da Rússia.

Segundo Natasha, seu pai já tinha notado sua cegueira dias depois de seu nascimento. No entanto, os médicos demoraram meses para dar um diagnóstico, o que dificultou seu tratamento. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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